Claro que é possível evitar incêndios e enxurradas!

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A atual percepção pública, veiculada pela maioria dos líderes de opinião, conduzem-nos a uma atitude de resignação face ao ciclo frequente de incêndios e enxurradas dos últimos anos, sendo a abordagem dominante traduzida pela constatação de que o problema é das alterações climáticas, que não há nada a fazer em relação a isso, senão a adaptação, e que é preciso esperar dezenas de anos até que o ecossistema recupere, chutando o problema para as próximas gerações.

Na realidade, este conformismo, por si só, induz-nos numa grande limitação, na medida em que nos tolda a curiosidade de ir ao fundo da questão e de pesquisar hipotéticas soluções.

Se considerarmos os prejuízos e o investimento efectuado nos últimos 25 anos em reflorestação, facilmente se percebe que o problema nunca foi a falta de dinheiro. Por outro lado, a frequência com que ocorrem, não tem sequer estimulado uma mobilização da ciência para um estudo aprofundado que averigue as causas destes fenómenos.

2010 – 20 de Fevereiro provocou 43 mortos, seis desaparecidos e 1200 desalojados, foi responsável por prejuízos na ordem dos 1080 milhões de euros.

2010 – 13 e 14 de Agosto 8 mil e 632 hectares.

2012 – 17 de Julho 6 mil e 966 hectares.

2013 – 15 e 16 de Agosto mil 283 hectares.

2016 – 8 a 12 de Agosto 6 mil 266 hectares.

Nos últimos 5 anos governo gastou 28 milhões de euros em reflorestação.

Prejuízos causados pelos incêndios de Agosto de 2016 150 milhões de euros.

Na realidade, estamos adormecidos e escandalosamente concentrados no problema. Como diria Mark Twain “Não podemos depender dos nossos olhos quando a nossa imaginação está fora de foco”. É por isso necessário implementar uma nova dinâmica nas abordagens e na compreensão destes fenómenos e mudar o foco para as possíveis soluções, numa atitude de maior respeito e de maior tolerância às diferentes opiniões, própria de comunidades evoluídas e empreendedoras com vontade de aprender e partilhar experiências, que permitiria traçar um novo caminho e aproveitar o que há de melhor em cada um, o conhecimento científico e o saber prático, em vez de alimentar egos.

O Papa Francisco refere que “na nossa condição de pessoas, que estão em relação permanente umas com as outras, e com a nossa responsabilidade enquanto guardiões da criação e da sua ordem, devemos pensar as causas das alterações atuais e ir à sua raiz. E temos que admitir que os muitos efeitos negativos sobre o clima derivam do comportamento diário das pessoas, das comunidades, e dos Estados/Governos” comportamentos estes altamente influenciados pelas opiniões das personagens mais mediáticas às quais se exige, cada vez mais, um maior sentido de responsabilidade, pelas apreciações que fazem.

Ao longo da minha vida profissional dedicada à agricultura sustentável, cedo percebi que a chave do sucesso na produção agrícola está na biodiversidade, ainda que a corrente dominante, na maioria das Universidades de todo o país, recomendasse soluções tecnológicas que sistematicamente apontavam para a sua destruição e nos impusesse a monocultura da mente como lhe chama a ativista Vandana Shiva.

Segundo as maís diferentes teses, a perda de biodiversidade promove uma espiral de degradação em todos os sistemas vivos (fig. 1), sendo os ecossistemas de montanha particularmente sensíveis. Neste turbilhão de destruição, os incêndios colocam a biodiversidade a um nível extremamente reduzido e quando existe uma sucessão de incêndios a capacidade de regeneração do ecossistema fica gravemente comprometida. Estes aspetos são já unanimemente assumidos, no entanto, aqui também, tem sido cometido um erro de foco. Estamos demasiado focados na biodiversidade acima do solo, o que tem levado à adoção de práticas erradas como a aplicação de herbicidas ou a reflorestação com espécies arbóreas, logo após os incêndios.

Fig. 1- Representação de espiral de degradação dos ecossistemas.
Fig. 1- Representação de espiral de degradação dos ecossistemas.

Os solos, depois dos fogos, ficam completamente desprovidos de carbono e sem este elemento não existem condições para a instalação de vida porque não é possível, por exemplo, absorver humidade suficiente. Nessas circunstâncias, os ecossistemas de montanha tardam a regenerar-se e aumenta o risco de aluviões. Normalmente, como primeiro coberto vegetal surgem as espécies cujas sementes resistem ao fogo e as melhor adaptadas a ecossistemas em estado avançado de degradação (fig. 2), que são também as de maior inflamabilidade/combustibilidade, o que explica o ciclo de incêndios vivido nos últimos 25 anos.

Fig. 2 – Pormenor das plantações nas serras de S. António, 2016 (Foto: José Marques)
Fig. 2 – Pormenor das plantações nas serras de S. António, 2016 (Foto: José Marques)

Como então sair deste ciclo?

O que preconizam as teses de regeneração de solos aplicadas em várias latitudes e com sucesso reconhecido, pelas mais altas instâncias internacionais?

Segundo Tony Lovell, (2011), a propósito de mitigação de gases com efeito de estufa refere o seguinte: “Problemas complicados exigem soluções complicadas. Problemas complexos exigem soluções simples” (fig. 3)

Fig. 3 – Representação de espiral de regeneração dos ecossistemas
Fig. 3 – Representação de espiral de regeneração dos ecossistemas

Em primeiro lugar é preciso ter presente que há uma espécie de “hierarquia na funcionalidade dos ecossistemas” (fig. 4) e que é a sucessão biológica do solo, debaixo dos nossos pés, que induz/incita a sucessão vegetal à superfície.

De acordo com Richard Teague (2014) 90% das funções do solo são mediadas pela vida que nele existe. A biologia constrói a componente física do solo e ajuda a regular a componente química e esta fundamentação, per si, obriga-nos, a pensar a regeneração dos ecossistemas, começando pelo solo e pela criação de condições para a sua fixação.

Fig. 4 – Evolução do coberto vegetal em função da carga microbiológica do solo.
Fig. 4 – Evolução do coberto vegetal em função da carga microbiológica do solo.

De acordo com este princípio a instalação de gramíneas perenes associado a práticas que permitam a ocupação e fixação do solo por um coberto vegetal rasteiro e o aumento da capacidade de retenção de água são fundamentais numa intervenção após os incêndios.

As gramíneas perenes são muito mais eficientes na fixação de carbono no solo, por superfície do que uma floresta, por exemplo, uma vez que possuem quatro vezes mais material orgânico no sistema radicular que na parte aérea e porque são extremamente eficazes na conversão da energia do sol em carbono. A absorção de água, especialmente por gramíneas perenes, acentua os processos físicos de agregação associados aos ciclos de humedecimento e secagem constituindo este, mais um dos exemplos da interacção entre processos físicos e biológicos no solo. Estas gramíneas possuem também uma excelente capacidade de afilhamento quando devidamente pastoreadas o que confere aos solos por elas ocupados uma elevada resiliência a fenómenos climáticos extremos (fig. 5), conferindo autênticas redes de agregação aos solos desagregados e em risco de deslizamento.

Fig. 5- Sistema radicular de gramínea perene devidamente pastoreada. As pedras encontravam-se no interior da malha de raízes. (Setembro de 2016) Foto: Sílvia Silva
Fig. 5- Sistema radicular de gramínea perene devidamente pastoreada. As pedras encontravam-se no interior da malha de raízes. (Setembro de 2016) Foto: Sílvia Silva
De acordo com o pensador Eric Hoffer “Num tempo de mudanças drásticas, são os que aprendem que irão possuir o futuro. Os cultos geralmente encontram-se equipados para viver num mundo que já não existe” e é por isso, fundamental aprender com os erros juntando o conhecimento científico ao saber empírico para aumentar a resiliência do nosso ecossistema porque, neste momento, o futuro apresenta-se literalmente vestido de negro. Para o próximo artigo proponho desvendar vários aspectos do que é considerado o sistema digestivo do planeta, o solo vivo, negro também, mas com funções essenciais na agregação.