Política: a arte de bem governar os bípedes sem penas, ou não?

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Dos meus tempos de jovem finalista do ensino secundário nos anos de 1973 e de 1974 guardo muitas e, sobretudo boas recordações, no fim de um ciclo de ensino e aprendizagem, algumas das quais ainda bem presentes nos tempos de hoje, volvidos mais de 40 anos desde essa altura em que, de maneira livre e desprendida, nós jovens registávamos todo um sem fim de novos ensinamentos. Desde a matemática, a dita ciência “exata” onde não se discutiam as teses de que aprendíamos as demonstrações e se constatavam os resultados, à física e à química, cujas definições e teorias eram de absorção mais lenta e tantas vezes revistas, algumas delas já postas em questão e outras contrariadas por novas experiências e renovadas teorias. E, por fim as chamadas ciências sociais e humanas que, não menos importantes, completavam a nossa formação preparatória para outros ciclos de ensino superiores que nos aguardavam todos os que, pelo menos como eu, seguiam a orientação para cursos universitários de economia, engenharia ou medicina, dos antigos 6º e 7º ano do Liceu.

Apesar da minha opção para uma dessas áreas do ensino superior, ao longo da minha formação secundária destaco o carinho e o interesse muito particular que sempre nutri pelas disciplinas de História, de línguas como o Português, nossa língua mãe, o Francês e o Inglês, as quais não faziam já parte do programa escolhido nesses últimos 2 anos, de Geografia e de Filosofia, esta última estudada pela primeira vez como parte desse programa de fim de ciclo, que como as anteriores em muito enriqueceu a minha cultura cívica e humana adquirida.

Em todas elas me orgulho de ter obtido relativamente boas classificações e em quase todas elas registei as minhas melhores cotações do ensino secundário, permitindo assim que contribuíssem eficazmente para obtenção das necessárias médias para, mais do que atingir e me manter no então conceituado “quadro de honra”, ultrapassar sem percalços de maior o almejado objetivo de acesso à formação superior.

A nossa História e a nossa Geografia desde logo porque foram essenciais para fazer-me entender como eu, o meio em que me insiro, a sociedade portuguesa em geral e o país onde nasci, somos o que somos e como somos, porque o somos e em que contexto evoluímos para o sermos, de que forma fomos participativos no universo sociopolítico e geográfico de que fazemos parte hoje em dia; como apesar da nossa comparativamente pequena dimensão demográfica e territorial, ao longo dos largos séculos da nossa História como país de consolidadas fronteiras, fomos capazes de contribuir e influenciar a História da civilização ocidental com os nossos descobrimentos marítimos nos séculos 15 e 16, o nosso expansionismo pelo mundo através do mar, último reduto para isso, já que as tentativas para leste por terra esbarraram sempre em obstáculos intransponíveis e com custosas perdas para todos nós portugueses. História essa repleta de tão ricos e bons exemplos, mas também marcada por maus, é certo, muitos dos quais há muito tempo não nos orgulhamos e dos quais seguramente nos arrependemos hoje como povo civilizado, culto, democrático pluralista e parte integrante da Sociedade das nações que somos.  Como prova dessa redenção, citaria o facto de termos sido o primeiro país no mundo a abandonar a escravatura e também a abolir a pena de morte. O interesse pela nossa Geografia sempre, porque desde logo vai de par com a nossa História, tendo-a influenciado e vice-versa, ambas nos tendo feito evoluir num contexto geopolítico ao longo dos tempos inicialmente expansionista e depois em retração, num fenómeno do tipo “consciencialização e regresso a casa” que nos conduziu ao Portugal de hoje.

A última barreira para que plenamente regressássemos a casa e nos integrássemos na comunidade internacional das nações democráticas, transpusemo-la já no decurso da conclusão do meu 7º ano do Liceu com a revolução de abril de 74 derrotando a ditadura de um partido único com quase meio século de existência e pondo fim à ocupação colonial, com algum atraso neste particular relativamente aos demais países europeus, atualmente nossos parceiros no quadro da União Europeia e que o fizeram uma década antes de nós! Em nosso abono diria que mais vale tarde que nunca! e o que é uma década no percurso árduo e acidentado da História da Humanidade?

Apregoo sempre o conhecimento da nossa língua mãe, o Português, porque é o porta-estandarte da nossa nação, da nossa literacia, dos nossos escritores e poetas clássicos e atuais, através de cujos escritos consolidamos a aprendizagem e o conhecimento da nossa História e das nossas gentes do norte, centro, sul e ilhas do universo português, ajudando-nos a entendê-las melhor, ou diria antes a entendermo-nos uns aos outros, com as nossas afinidades, mas também com as nossas diferenças, fruto das respetivas vivências e de uma experiência comum sob diferentes ângulos sociogeográficos, cuja multitude e diversidade, mais do que dividir-nos, nos enriquece como nação e como país. Só um adequado conhecimento da nossa língua, veículo privilegiado da nossa cultura e da nossa comunicação com os demais, nos permite de um ponto de vista psicossociológico partilhar e traçar em concordância e harmonia o objetivo comum quanto aos nossos desígnios como nação plurifacetada e como país uno.

Pratico, apoio e defendo a aprendizagem continuada de idiomas estrangeiros no nosso ensino que no meu tempo eram 5 anos de Francês e 3 anos de Inglês, porque o conhecimento desses idiomas, entre os mais praticados à escala mundial, nos permite trasvazar o horizonte das nossas fronteiras, não só geográficas, mas também linguística e cultural, atingindo assim um maior grau de entendimento da inevitável integração do nosso país e das nossas gentes numa realidade internacional muito mais extensa e que crescentemente influencia a evolução do mundo no seu todo, em todas as suas vertentes, por conseguinte também a nós portugueses. Ademais, quanto mais e melhor for o nosso conhecimento de idiomas estrangeiros entre os mais praticados no mundo, maior será a nossa capacidade de diálogo, de entendimento, de intervenção e de influência junto das mais destacadas organizações, organismos e comunidades internacionais de países de que fazemos parte à escala universal, podendo nós mesmos, embora pequenos, aspirar a que tais organismos ou organizações sejam ou venham a ser liderados por membros da nossa comunidade portuguesa, como, aliás, já tem vindo a acontecer nos últimos anos.

Resta-me finalmente justificar o porquê do meu especial carinho à disciplina integrada de Filosofia que frequentei durante os dois últimos 6º e 7º ano do meu ensino secundário: a Filosofia foi e é a Mãe de todas as ciências e de todas as disciplinas estudadas. Perdoem-me os filósofos e os professores desta disciplina que me leiam agora, mas do que me recordo e que a minha professora de antão, a saudosa e brilhante D.ª Ana Sofia Leal, tão bem nos transmitiu na época, quando há alguns milhares de anos na antiga Grécia se iniciou o estudo da Filosofia, ela abarcava tudo o que se desconhecia e suscitava questão ou dúvida e para o que não existia ainda resposta. Daí que a própria religião, a medicina, a física etc., começaram por ser inicialmente abordadas e estudadas através da Filosofia. A Filosofia começou a questionar várias afirmações até aí inquestionáveis e tidas como dogmas. Abriu caminho às ciências e permitiu a evolução da humanidade e dos seus conhecimentos. A sua abrangência foi diminuindo com o desenvolver dos estudos num sem número de áreas do conhecimento, mas continua a ser essencial para que nos saibamos questionar e não assumamos o que nos é dado ou apresentado como certo! Esta é para mim uma das suas principais funções e utilidade. Será a perceção de um leigo na matéria, mas se cada leigo como eu tirar as suas ilações específicas no seu próprio contexto e questionar a realidade que o rodeia, seremos muitos a evoluir e a interação em cadeia entre nós, conduzir-nos-á a novos caminhos, novas teorias e a novas soluções! Cada um de nós tem o direito de manter os seus dogmas como bem o entender, mas que seria da evolução da humanidade se, por exemplo, não tivessem existido no século passado os existencialistas? É óbvio que o que aprendemos foi matéria básica, onde o essencial foi apercebermo-nos da sua importância, aprender os conceitos principais e ter consciência da existência de diversas correntes de pensamento sobre o ser humano e tudo o que o rodeia sobretudo o que, pela nossa própria condição, não nos é possível provar, mas para o que gostaríamos de obter respostas concretas. Parece-me que, de certa forma, para cada um de nós, a Filosofia acaba onde (se) a Fé começa.

Das suas aulas, recordo uma atenção invejável de todos os colegas que absorviam sem cansaço as explicações da professora. Recordo o famoso Sócrates – o Filosofo grego para que não haja dúvidas – quando citava “Eu só sei que nada sei!”. Que ensinamento extraordinário o seu ao concluir que quanto mais se adquire conhecimentos, mais se tem consciência do quanto que não se sabe ainda sobre esse assunto! Por oposição, um ignorante será feliz porque não se questiona e por não se aperceber do quanto não sabe e pode estar a arriscar, mesmo a própria vida!… Vive a vida ao sabor da mesma, porventura sem preocupações, mas sujeito a ser enganado, usado e abusado por quem tenha poder e poucos princípios… Recordo ainda vários dos ensinamentos que a Dr.ª Ana Leal nos transmitiu do sábio Platão, discípulo do brilhante Sócrates, mas já com berço e mais estudos! E ainda de Aristóteles e aí por diante.

Enfim, recordo para terminar uma frase lapidar que a Dr.ª Ana Leal parafraseava com alguma frequência de um filósofo cuja identidade não lembro, mas que me vem assiduamente à mente quando vejo as notícias, leio os jornais e assisto ao que nos rodeia no nosso país: A política é a arte de bem governar os bípedes sem penas!

Ou não é assim? Para quando, pergunto-me, uma mudança real e definitiva nas mentalidades dos nossos políticos? Um sistema de ensino estratégico eficaz que, pelo menos a longo prazo, nos conduza a uma verdadeira aproximação estatística dos países mais avançados e de maior sucesso da Europa, retirando-nos da cauda dessa mesma Europa no que respeita aos números e aos níveis de formação da nossa população ativa. A título exemplificativo sublinho dados estatísticos recentemente vindos a público que indicam que em 2015 somente 45,1% dos portugueses em idade ativa (entre os 25 e os 64 anos) tinha concluído o ensino secundário, quando a média da UE é de 76,5% e só um país estava em situação pior que a nossa. Para além disso, nesse mesmo ano de 2015, a taxa de abandono escolar dos portugueses entre os 18 e os 24 anos era de 14,4%, a 5ª posição pior na tabela, onde a média da UE se situava nos 10,9%. Estatísticas muito pouco abonatórias para Portugal, note-se!


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