Rui Marote (texto e fotos)
Estamos em Tiruchirappalli, cujo nome foi abreviado pelos britânicos para Trchy. O nosso programa está a ser cumprido sem desvios e esta é a penúltima a etapa das gorupas que nos propusemos a visitar na Índia.

Os sessenta quilómetros que tivemos de percorrer pareceram-nos uma eternidade. Esta cidade tem o nome do feroz demónio de três cabeças. As gorupas não se encontram localizadas no centro da cidade, pelo que tivemos de efectuar um transbordo para um autocarro de cidade e percorrer 9 quilómetros ate Srirangam, com o objectivo de visitar o Templo de Ranganatha.

Já tinha efectuado a marcação de uma suite, onde instalei o meu quartel-general a uns duzentos metros da zona a visitar. Estou bem instalado, mas sem direito a qualquer refeição, embora a suite possua uma cozinha bem apetrechada, merecendo nota 20. Também sou filho de Deus e mereço do bom e do melhor.

Tratei de conhecer os cantos à casa e refrescar-me no ar condicionado, antes de entrar em acção. Não há tempo a perder, não venha a chuva estragar os meus planos.
O complexo que hoje conhecemos é o resultado de quatro séculos de evolução, sendo dominado pelas 21 impressionantes gorupas.

Em todos os templos que visitámos e nos trajectos de autocarro a presença de turistas nunca foi notória. Hoje isso fugiu à regra: um grupo de mulheres trajando saris e homens com a indumentária indiana e com os cabelos rapados, deixando somente um rabicho encaracolado, chamou-me a atenção. Imitavam todos os gestos que os crentes hindus fazem quando visitam o templo, beijando as esculturas de pedra, ajoelhando-se, recebendo as chamas de purificação das mãos.

A curiosidade impeliu-me a acompanhar este curioso grupo de ocidentais e registar a visita. Há certas zonas em que a fotografia não e permitida, mas como sempre, habilidosamente vou efectuando um disparo aqui e outro acolá.
No final entrei em diálogo com um dos chefes do grupo e perguntei a nacionalidade. Resposta: russos. Voltei à carga e quis saber a cidade: Moscovo.

As pessoas tem sede de outras práticas religiosas e embarcam em conceitos totalmente diferentes tentando descobrir um novo deus. A igreja ortodoxa russa enferma das mesma doença da católica. Os católicos mais empedernidos diriam que o Ocidente caminha para o Apocalipse e falariam de falsas religiões e falsos profetas. Será que os russos vieram à procura do demónio de três cabeças? Mas a busca pela espiritualidade, oriental ou não, assume muitas formas, cada uma delas sedutora para cada um.

Mais um pouco de história que se repete diariamente nos gestos e nas crenças. Um dos rios sagrados da Índia, o Kaveri, percorre 785 km desde a sua nascente em Talakaveri, Kamataka, até Poompuhar, no Golfo de Bengala.

Os mitos glorificam o Kaveri como a personificação de uma divindade feminina (nalgumas versões a filha de Brahma ). As grandes cidades sagradas que se desenvolveram nas suas margens tornaram-se centros de religião, dança, música e artes. Foram criados inteligentes sistemas de distribuição de águas do delta promovidos pelos cholas, transformando a região de Thanjavur na “malga de arroz de Tamil Nadu” como já o dissemos no último apontamento. Ainda hoje os devotos oferecem arroz à deusa do rio no 18º dia do mês Tamil Adi.

O demónio de três cabeças de que falámos no início, alcançou a redenção após ser abatido por Xiva.
A cidade esta rodeada de mercados de fruta, legumes e de flores, e encontram -se entre as igrejas primitivas da cidade a igreja de Cristo e a catedral de Nossa Senhora de Lourdes. O cristianismo também está aqui presente.







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