
Rui Marote (texto e fotos)
No meio das nossas longas caminhadas entre becos e travessas palmilhando quilómetros e quilómetros nas cidades indianas, fomos surpreendidos pelo rebentamento de uma girândola de fogo que anunciava os preparativos de um funeral.

Já tenho reportagem, penso. Estou no lugar certo a hora certa. Os rituais funerários na Índia são curiosos e interessantes de acompanhar, mau grado a dor dos familiares. Discretamente, vou-me introduzindo no meio das exéquias, como se fosse da família, e inteirando-me do que se iria passar.

Registar este acontecimento não e tarefa fácil. Com a máquina fotográfica ao peito, vou carregando no botão: três, quatro disparos, e já está.
A preparação de um funeral leva duas horas, com a lavagem do corpo do finado a ser executada várias vezes, uma vez que lhe colocam diversos pózinhos coloridos: uma vez amarelo, outra vez vermelho, coco, e água de coco… o ritual não tem fim. Baldes e baldes de água são lançados em cima do finado, e a filha do mesmo de vez em quando recebe um balde de água na cabeça, já que se encontra perto de seu pai, que está sendo lavado.

O filho é o responsável pela cerimónia, sempre apoiado por mulheres anciãs, que entregam os utensílios necessários ao ritual fúnebre. Os tambores marcam o ritmo e nova girândola de fogo estala. Finalmente depois de dez banhos, a filha recebe a mortalha amarela, com ajuda das outras mulheres que a envolvem e retiram-se da sala.

Em seguida o morto é envolvido num pano branco, ficando de fora a cabeça e os braços. Prosseguindo o ritual, é distribuído um número de pequenos archotes que rodeiam o finado com fumo de incenso. Nesta altura o filho abandona o local e recebe um púcaro com lume, e coloca-se na frente do cortejo.

A filha regressa e a mortalha amarela é envolvida no finado, que de seguida é transportado para o carro fúnebre que está engalanado de colares de flores que vão sendo atiradas para a estrada ao longo do trajecto.
Um guru preside à cerimonia da cremação, na qual lê alguns textos. O preço depende, uma vez que cada texto lido tem uma taxa; quanto mais ler, mais paga a família.

São rituais que temos de saber respeitar. Quanto custa morrer na Índia? Não consegui saber ao certo. Mas com música, com fogo de artifício, e a qualidade da lenha para cremação, entre outras despesas, não se trata de uma brincadeira para estas famílias.
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