Índia dos contrastes: ver para crer

Exterior da basílica de São Tomé
Exterior da basílica de São Tomé

Rui Marote (texto e fotos)

O título é bíblico e refere-se a São Tomé, um dos doze apóstolos, que, de acordo com a tradição, veio para Índia após a morte de Cristo e que tem um lugar especial no coração dos indianos, tendo sido nomeado o Santo Padroeiro da Índia.

Interior da basílica
Interior da basílica

Esta é a nação no mundo que adora mais deuses, e a fé cristã tem de conviver com a idolatria a cada esquina porque este povo tem uma história que não se apaga. São Tomé é conhecido por não ter acreditado na ressureição de Jesus, que o apelidou de “homem de pouca fé”. Só acreditou quando colocou a mão nas chagas de Cristo e então o reconheceu como “Meu Senhor e Meu Deus”.

Relíquia do osso da cabeça de São Tomé
Relíquia do osso da cabeça de São Tomé

A sua fé revivida tê-lo-á trazido para a Índia, onde morreu, embora haja outras versões. De qualquer modo, as sementes lançadas a terra não germinaram numa evangelização cristã tão ampla como o desejado. A existente sente-se impotente perante as muitas outras religiões, embora também existam muitos cristãos em terras indianas. Visitei, pois, em Chennai a basílica erguida sobre a sua suposta sepultura, que se pode ver por debaixo do altar-mor, através de um vidro. Fiquei surpreendido. Nos arredores da basílica existe um museu onde estão inúmeras peças antiquíssimas e diversos relicários, exibindo, entre eles, o suposto osso da cabeça na qual o santo, martirizado, terá sido atingido mortalmente, e a respectiva arma, uma lança.

Museu da basílica e alegado túmulo de São Tomé
Museu da basílica e alegado túmulo de São Tomé

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Por debaixo do museu, está a capela onde se encontra o suposto o túmulo do santo. O visitante entra depois de percorrer um corredor e deixar os sapatos num cacifo no andar superior. A sepultura está coberta de terra e por cima tem a imagem do santo deitado. Ali foi implantado um altar. Tanto no museu e seus relicários como no túmulo do santo está proibida a captação de imagens, mas como sempre desobedeci, não resistindo a fotografar discretamente para os leitores do Funchal Notícias  – espero não ser excomungado.

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A pobreza chocante está em cada canto
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É assim que se vive na rua, mesmo ao lado de um confortável hotel

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Apontamentos sobre o Cristianismo em terras distantes à parte, visitar a Índia nao é para todos.   Há quem o faça uma vez e saia revoltado. Não é o meu caso: esta é a minha quarta vez aqui. Mas os contrastes são grandes e chocantes. Vou descrever a chegada ao hotel no centro de Chennai: hotel bem classificado no booking de três estrelas de nome Pearl Internacional Business Class Hotel. Prédio moderno, porteiro, uma recepção impecável, um escritório para excursões, alugueres de carros e motas, um paquete para levar as malas, elevador, um quarto com ar condicionado, ventoinha, água gelada, uma televisão Led , uma cama de casal, tudo de um asseio impecável, toillete com um kit de shampoo, creme, sabonete. Serviço de lavandaria, room service, nada a reclamar. Mas todo este conforto tem o seu reverso, que se torna chocante para quem venha pela primeira vez ao país.

Entrada do hotel
Entrada do hotel

A rua onde está o hotel é a “casa” de imensos sem-abrigo. Em frente à porta do hotel temos pessoas a cozinhar ao ar livre em cima de duas pedras, deitados pelo chão; o lixo abunda por todos os cantos, espalhado ao longo desta artéria, onde brincam crianças nuas. O táxi que me trouxe do aeroporto usava e abusava da buzina, serpenteando entre estes seres vivos que nos parecem dizer welcome. Foi o cartão de visita que nos esperava.

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Duas realidades, uma exterior, que teremos de esquecer, e uma no interior, como se estivéssemos noutra galáxia. As fotos que publicamos não são ficção, mas a dura realidade do dia-a-dia na Índia: estou numa “pérola”, nome do hotel, enquanto a poucos metros há quem viva no “carvão”. Este é um país de mil cores, mas encontramos no rosto destas pessoas cambiantes escuros… para eles a vida não é fácil.

Gorupa do sul indiano
Gorupa do sul indiano

Vamos completar a segunda etapa desta tournée: visitámos a primeira gorupa. À  volta do templo, os vendedores ambulantes de representações de deuses de pedra, de madeira, de metal de imensas cores têm negócio lucrativo, porque os templos a qualquer hora estão a abarrotar de visitantes.

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ídolos após uma cerimónia
ídolos após uma cerimónia
Um dos templos dentro da gorupa
Um dos templos dentro da gorupa

Sempre que venho à Índia não deixo de visitar a central de comboios. É um autêntico microcosmos. Chennai não fugiu à regra. É a quarta cidade mais importante desta nação. São milhares de pessoas que se deslocam de um lado para outro. Há muitas histórias gravadas nos rostos deste povo. que dorme em qualquer lado, aguardando o comboio que os levará na busca de um amanhã melhor.

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Um mar de gentes na estação de comboios
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Os indianos não se queixam da falta de colchão
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Comboios apinhados

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Chennai, cujo antigo nome era Madrasta, é a capital de Tamil Nadu e uma autêntica porta de entrada para variada cultura da península sul-indiana. Antigamente era um conjunto de aldeias piscatórias, ofício que ainda ali está bem vivo. Sob o domínio britânico, tornou-se uma cidade coesa. É a quarta maior metrópole do país e um centro cultural e comercial a não desprezar. A fusão entre o velho e o novo encontra-se no contraste entre os arranha-céus e os edifícios coloniais. A herança cultural tamil está bem presente.

Memorial em Chennai, junto à marginal
Memorial em Chennai, junto à marginal

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A costa de Chennai tem uma das maiores praias urbanas da Índia: são 13 km de areal que ligam o Forte de São Jorge à Basílica de São Tomé. Como já tínhamos escrito, esta nossa deslocação à Índia tinha como fio condutor a observação das gorupas Kamchipuram, que distam 76 km a Sudoeste de Chennai.

Zona piscatória
Zona piscatória
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O sorriso do pescador
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Artes de pesca e embarcações

A pequena cidade-templo é uma das sete cidades sagradas hindus, tanto para os devotos de Xiva, como para os adeptos de Vixnu. Os templos de Xiva situam-se a norte, os de Vixnu, a sudoeste. Kamchipuram é também o principal centro de tecelagem de seda, produzindo saris reconhecidos pela sua beleza.

Universidade de Madras, em Chennai
Universidade de Madras, em Chennai