Um mês depois dos incêndios as incertezas continuam

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Foto: Fabíola Sousa – Casa parcialmente destruída na zona da Pena

É entre lágrimas e soluços que a Dona Fátima, de 55 anos, moradora na zona da Pena, Funchal, conta ao FN o desespero vivido na madrugada de 9 de Agosto.

O reavivar da memória dessa noite é difícil de descrever, lentamente, Fátima tenta explicar como o fogo chegou à sua casa na zona da Pena.

“Eu e o meu irmão vimos a labaredas a descer, descontroladamente, e a nossa primeira preocupação foi tirar a minha mãe, de 80 anos, que está acamada, para a rua porque o fumo era muito forte. Não tivemos mãos a medir e com ajuda da Protecção Civil de madrugada conseguimos levá-la para casa da minha irmã para que ficasse em segurança”, explicou, acrescentando, que ficou três dias sem ver o irmão que esteve sempre perto de casa a tentar apagar o incêndio. Apesar das tentativas a casa onde Fátima vivia com a mãe, o irmão, a filha e um neto de 9 anos ficou parcialmente destruída.

“Não consigo dormir desde essa noite. Cada vez que fecho os olhos, só vejo e sinto as explosões, o barulho das chamas e o fumo forte”, desabafou, acrescentando, que apesar de tudo só quer voltar para a sua casa.

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Foto: Fabíola Sousa – Casa parcialmente destruída na Pena

“Ficamos com a casa parcialmente destruídas, mas se nos ajudarem na reconstrução do quarto da minha mãe, na cozinha e na sala nós conseguimos voltar para casa, para o nosso cantinho. Precisamos de ajuda para recuperar a cozinha e o quarto, se tivermos isso conseguimos seguir em frente e ficamos em casa. Não pedimos uma casa nova porque queremos ficar onde sempre vivemos”, apela.

“Só queremos voltar para o nosso cantinho”

É na Cancela, num apartamento de tipologia T3, propriedade do Instituto de Habitação da Madeira, mais conhecido por Bairro da Cancela, que Fátima, a mãe, a filha, o neto e o irmão vivem agora. Foram realojados nesse apartamento onde poderão ficar por 60 dias. Depois desse tempo, tudo é uma incógnita.

“Estamos aqui, não temos muita coisa, temos o essencial para o conforto da minha mãe. Da nossa casa ainda conseguimos trazer para aqui uma cama. Os dias são difíceis porque temos dificuldades financeiras e é complicado para comprar a comida, a medicação e as fraldas para a minha mãe”, diz por entre lágrimas e soluços.

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Foto: Fabíola Sousa – Apartamento onde vive uma das famílias desalojadas pelos incêndios de Agosto de 2016

Fátima está desempregada e o agregado familiar vive com a pensão da mãe. A senhora tem 80 anos, está acamada e não fala. “Ela precisa de uma pessoa 24 horas ao seu lado, não a posso deixar. Temos tentado sobreviver com a solidariedade de amigos e de pessoas desconhecidas”, esclareceu.

Questionada sobre as ajudas para a recuperação da sua casa e sobre o que irá fazer quando terminar os 60 dias de passagem pelo apartamento na Cancela, dona Fátima disse que não sabe de nada, que ninguém lhe diz nada.

“Já fomos pedir ajuda à junta de freguesia de Santa Luzia, levamos um orçamento, mas o valor ultrapassa aquilo que a junta pode ajudar. Vamos levar outro orçamento a ver se conseguimos que alguém faça um orçamento mais em conta”, explicou.

Ao Funchal Notícias Fátima referiu ainda que não sabe como vai ser depois dos 60 dias, “já falam que depois desse tempo vamos ter de pagar renda. Não sei de nada. Não sei como isto vai ser”.  Fátima e a família dizem que não querem ficar no apartamento da Cancela e solicitam apenas ajuda para recuperar a sua casa pois é lá que querem ficar, “estamos aqui mas não sabemos de nada.  Só queremos o material para recuperar o fundamental para a nossa casa poder funcionar e a minha mãe ter condições. O restante vai-se fazendo aos poucos. Só queremos voltar para o nosso cantinho”, remata.

De referir que nos apartamentos do Bairro da Cancela estão realojadas 18 famílias vítimas dos incêndios que assolaram o Funchal entre 8 e 10 de Agosto.