Cientistas madeirenses participam em viagem de investigação marítima a montanhas submarinas

Manuel Biscoito
Manuel Biscoito, director do Departamento de Ciência

Fotos: Rui Marote

Um grupo de cientistas madeirenses, entre os quais o director do Departamento de Ciência da Câmara Municipal do Funchal e Conservador de Vertebrados do Museu de História Natural, Manuel Biscoito, participa no final de Setembro e durante o mês de Outubro numa viagem inscrita no projecto BIOMETORE, uma investigação global da biodiversidade, envolvendo toda a fauna marinha existente em torno dos montes submarinos. O BIOMETORE é financiado por fundos europeus – aliás inscreve-se nas linhas europeias de protecção do ambiente marinho – e abrange as áreas da Oceanografia (física, química e biológica), Ecologia, Taxonomia integrativa, Pesca, Geologia Marinha e Governança Ambiental. O financiamento vem dos países do Espaço Económico Europeu, que abrem periodicamente concurso para bolsas científicas. Uma delas, no valor global de um milhão de euros, foi, precisamente, ganha pelo consórcio envolvendo todas as principais instituições de investigação marinha de Portugal, que são as que estão a alavancar o BIOMETORE.

O Observatório Oceânico da Madeira (OOM), por sua vez um consórcio que agrega todas as entidades regionais que têm a ver com o mar, participa neste esforço científico conjunto liderado pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera. O arquipélago vizinho também entra, com pessoal do Instituto do Mar da Universidade dos Açores.

Manuel Biscoito

Manuel Biscoito explica que subjaz a este projecto um pensamento ambicioso: o de gerar um  corpus de conhecimento científico que ajude à criação de mais áreas marinhas protegidas.

“Hoje em dia não há dúvidas absolutamente nenhumas de que os montes submarinos são locais muito especiais, onde a fauna marinha tende a agregar-se, onde há espécies que se reproduzem… Tudo isso faz com que haja um interesse especial à escala mundial, de protecção desses habitats. A própria União Europeia tem um conjunto de directrizes que regulamentam a pesca industrial nesses ambientes”, concretiza este homem de ciência. Nas águas portuguesas, da Zona Económica Exclusiva, que estendem substancialmente a jurisdição do nosso país sobre os fundos marinhos, potencialmente até às 300 milhas de distância, existem muitos montes submarinos.

Um conjunto importante está situado ao sul dos Açores, o banco Great Meteor; outros bancos ou montanhas submarinas importantes entre a Madeira e o continente formam a crista Madeira-Tore, situada a aproximadamente 700 km a Noroeste da costa africana. Faz parte deste conjunto de montes submarinos o banco Seine, que é muito conhecido por estar mais próximo da nossa costa (110 milhas a nordeste do Porto Santo), os bancos Unicórnio, Dragão, Leão e, já saindo da nossa ZEE, em águas internacionais, os bancos Ampère e Josephine. Já mais próximo da costa continental, há o banco Gorringe, entre os Açores e o estreito de Gibraltar.

Manuel Biscoito gere o aspecto da biodiversidade, no âmbito deste projecto, que decorre desde 2015 e que já movimentou cruzeiros científicos, como, no ano passado, com o navio oceanográfico ‘Arquipélago’, que serve o Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores. Uma viagem, precisamente, aos bancos a sul desse arquipélago, entre os quais o Great Meteor.

(Foto cm Funchal)
(Foto cm Funchal)

Este ano, realizar-se-á uma outra viagem marítima, aos bancos a norte da Madeira, destinada a estudar a biodiversidade no que diz respeito a peixes, crustáceos e outros organismos. “Usaremos tecnologia que é utilizada habitualmente na pesca, para fazer esta abordagem científica”, refere Biscoito. Isto também porque estes bancos submarinos têm um fundo extremamente irregular e acidentado. Para obter as amostras nestes ambientes, não interessa aos cientistas utilizar técnicas muito destrutivas. Recorrerão, portanto, a aparelhos de pesca que são utilizados na camada de água, a diversos níveis, acima do fundo. Inventariar espécies é o objectivo. Além das colheitas de espécimes, será medida toda uma série de parâmetros como as condições de temperatura e salinidade, etc.

O navio escolhido para a viagem deste ano é um pesqueiro de atum de cerca de 28 metros, registado na Madeira, que tem muito boas condições em termos de dimensão, instrumentação electrónica, capacidade de navegação, alojamento, instalações refrigeradas para as espécies colhidas… É juntar o útil ao agradável, ainda para mais quando a Madeira não dispõe de nenhuma embarcação oceanográfica. O orçamento, para a Madeira no âmbito deste projecto, anda à volta dos 300 mil euros.

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Aspecto da missão realizada no navio ‘Noruega, no âmbito do BIOMETORE

Participam no BIOMETORE dois museus de História de Natural, o de Lisboa e o do Funchal. As colecções geradas neste projecto serão repartidas entre ambos, para assegurar a perenidade das mesmas e a possibilidade de serem estudadas pelo maior número possível de cientistas.

Na missão participará cerca de uma dezena de investigadores, entre pessoal da Estação de Biologia Marinha, do Museu de História Natural e do Laboratório de Pescas da Madeira, além de colegas de Lisboa e dos Açores.