O homem que Marcelo visitou: “Aos 64 anos vou começar do zero”

são roque incêndiosQuando Paulo Pimenta abriu a porta da casa do pai, à Travessa da Terça, na manhã da última terça feira, não estava preparado para o que ia encontrar. Sabia que o perigo rondara as zonas altas de São Roque, Funchal, durante toda a noite, ao ponto de a família ter sido obrigada a deixar o local horas antes devido às chamas descontroladas e às altas temperaturas. Tão altas que nem os bombeiros, a terem de fazer sucessivas viagens para reabastecer porque as bocas de incêndio da zona estavam secas, conseguiram também suportar.

Mas, à primeira vista, passado o fogo da madrugada, a moradia de dois pisos aparentava ter conseguido enfrentar de pé o demónio que andava à solta pela serra e já na cidade, desde a tarde do dia anterior.

Alertado por vizinhos para o que poderiam ser reacendimentos, Paulo viera à cautela ver como estava a situação. Eram 7h00. Assim que rodou a chave e entrou, a realidade paralisou-o por uns segundos. Ainda bem que os pais haviam deixado o local horas antes para se refugiarem em casa de familiares.

“Um cenário dantesco”, recorda. “O fogo chegara à sala de estar, junto à entrada. Do corredor, saíam labaredas. Os quartos estavam todos destruídos”, conta Paulo Pimenta.

Na zona, a cena já se repetira antes em outras casas. Os vizinhos mais acima, ao Caminho da Terça, tinham lutado também desesperadamente contra as vagas de lume que atacavam as habitações através da escarpa, vindas de duas frentes opostas: Fundoa e Alegria.

lucília mendona incêndios

Lucília Mendonça, que esta sexta feira procurava voltar à rotina das limpezas, descreve o inferno que foi tentar travar o avanço das chamas casa adentro, desde as 2h00 até às 7h00, daquela terça feira fatídica. E quando tudo parecia perdido, com a água a faltar no pico do incêndio, cortaram-se árvores e usaram-se aspersores de jardinagem. Era o desespero, explica. A família conseguiu salvar a residência, mas o trauma ficou.

A mesma sorte não teve o número 86. Três dias depois, as memórias estão tão frescas quanto o cheiro intenso que se desprega do interior calcinado e das paredes caiadas a fumo da casa da família Pimenta. Sobretudo as horas que Paulo e a esposa passariam a apagar o fogo no interior da moradia, tentando salvar a estrutura e o piso inferior. Tudo reacendia ao menor sopro. Foram necessárias quase dez horas e a ajuda dos bombeiros, no rescaldo, para dar o incêndio como extinto. “Já nem conseguia abrir os olhos, as fagulhas incandescentes queimavam a pele e a roupa”.

Vai sentindo agora no corpo os efeitos de uma noite e dia de combate desigual. Logo ao início da madrugada de segunda para terça, com o surgir das labaredas na serra, foram os trabalhos de remoção de arbustos e árvores, criando uma clareira à volta da casa. Inútil. As chamas que galgavam a escarpa, no cimo da qual se encontra a casa, ganhavam uma velocidade e altura impossíveis de enfrentar, envolvendo bens e gente no seu abraço abrasador. A oficina de carpintaria do pai, ali ao lado, foi a primeira a sucumbir.

Uma vez mais, a impotência de moradores e bombeiros. Ao descontrolo das chamas, faltou a água. As bocas de incêndio das zonas altas falharam logo nas primeira horas! Foi então que os soldados da paz pediram a Paulo e à família para abandonarem o local. Daí para a frente, só o destino e a vontade do vento.

carpintaria incêndios

Foi. Com o coração apertado. Logo aos primeiros raios de sol de um dia carregado de fumo, voltou à zona da Terça. E foi aquilo que se sabe. Em menos de três horas, o lume entrara sorrateiro pelas janelas da varanda sobranceiras à encosta da Fundoa e destruíra, quarto a quarto, recanto a recanto, tudo o que encontrou e fora conquistado ao longo de uma vida. “Ficou só o esqueleto”, sintetiza Virgílio Pimenta, o marceneiro que também recebeu a visita e abraço do Presidente Marcelo.

Ao lado, o filho graceja. “Agora é famoso”. Uma forma, quem sabe, de pôr o pai a sorrir. O mestre Pimenta desconversa e alude a uma amizade antiga mantida com o atual de Chefe de Estado.

virgílio pimenta incêndios

Enquanto aguarda pela chegada do perito de seguros – um processo que já antevê complexo e moroso -, Virgílio Pimenta leva-nos a ver o resultado de um par de horas de fogo incontrolável. Da sala para dentro, nada restou.

“Pensava que aos 64 anos ia desfrutar de uma vida calma. Mas não. Com esta idade é começar do zero. Nem um parafuso ficou para contar a história”.

Ao desabafo, reage com uma calma incrível. “O que importa, como diz o meu filho, é estarmos todos bem e vivos. Fui eu quem construiu cada peça de mobiliário, janela e porta desta casa. Vou fazê-lo novamente”.

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Enquanto fala, vai despedindo o olhar pela sala. Concentra-se nas garrafas de uísque que alinhou no chão. Incrivelmente resistiram às altas temperaturas. Nos últimos dias, tem até deixado uma embalagem à porta da casa. Ficamos curiosos. “Anda por aí uma onda de assaltos às casas que estão vazias por causa dos incêndios. Olhe, pode ser que levem a garrafa e deixem o resto em paz”.

O “resto” são paredes e tetos descarnados, pavimentos de carvão, amálgama de ferro retorcido. Mestre Pimenta não desiste, pela família e por um sonho com mais de 40 anos. Da varanda olha as encostas enegrecidas. “Foi um susto, uma grande desgraça, mais vai tudo ficar bem”.

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Lá em baixo, ao fundo do vale, a cidade brilha em contraste com um azul soberbo. É bem capaz de ter razão.