A Madeira a arder

joao-abel-torres

Todos os anos sabemos da ação demoníaca de incendiários com conhecido e largo “currículo” em piromania. É o caso dos recentes incêndios causados por mão criminosa na Madeira.

De resto, as causas que justificam o facto de todos os anos Portugal estar a arder já estão mais que identificadas, e só não as vê quem não quer ou aqueles a quem não dá jeito.

Segundo o relatório “Análise das causas dos incêndios florestais 2003-2013”, do ICNF (http://www.icnf.pt/portal/florestas/dfci/relat/relat-causa-incendios-2003-2013), entre 2003-2013, de todos os incêndios com causa apurada, apenas 2% tiveram causa natural, 56% tiveram causa negligente e 42% causa intencional.

Para além da negligência (desleixo), todos os anos são identificados novos “servos de Satã”, e reconhecidos os reincidentes, como foi o caso da Madeira, mas tudo acaba da mesma forma:  em lugar de a lei lhes “dar um calor”, aplica-lhes penas ridículas, quando não os envia mesmo para o conforto e proteção do lar a aguardar baboseiras penais.

Chego a pensar que, entre os criminosos mais protegidos, estes terroristas parecem figurar entre os “colarinhos brancos” da escumalha a contas com a lei.

“Para mais ajuda”, destruir a Natureza, causar a morte ou a destruição de bens parece não ter grande importância, especialmente  para certos pseudo-intelectuais de meia-tigela que todos os anos têm tempo de antena na comunicação social.

Além disso, para quem defende juridicamente os pirómanos, parece ser “canja” fazer deles coitaditos inimputáveis, “flores de estufa”, quiçá!

Uma coisa é certa, tal como os pedófilos, eles não param. Só atrás das  grades ou em hospitais psiquiátricos.

Todos os anos se clama por leis super-severas contra os pirómanos, a constituição de equipas de patrulha de prevenção contra os fogos, como em certos países da UE, a obrigatoriedade de todos os proprietários de terrenos  fazerem a sua obrigação, aplicando
multas a sério aos que não o fazem, sem distinção, ou proteções políticas ou autárquicas, apontando-se o seu desleixo, muitas vezes por interesses financeiros ou criminais, o que é uma verdadeira vergonha para o país e sobretudo para a classe política, seja ela da esquerda, centro ou direita.

Entretanto, criam-se grupos, ditos de trabalho, para a reforma da foresta, mas tudo acaba em convívio, almoçaradas, palmadinhas nas costas, “lavar as mãos” como Pilatos, e “la vida sigue igual”. Demissões? Responsabilidade política? Era o que mais faltava.

Aliás, a discussão do agravamento da moldura penal para os incendiários já tem barbas e morrerá de velha.

Pena de prisão de um a oito anos é de facto uma “pena”, quando se sabe que a maioria dos fogos não é obra do acaso, sobretudo devido à “coincidência” das horas noturnas em que infernalmente nascem.

Propostas de solução para a prevenção e combate aos incêndios  há todos os anos, e para todos os gostos, mas, na prática, o resultado são inócuas pautas musicais, vulgo, papel de música, a tal ponto que me sinto tentado a julgar que seria porventura muito mais útil pôr nas mãos dos tais grupos de trabalho mangueiras, baldes, pás, e metê-los uma semana a fio no meio da serra a combater incêndios. Nada como a experiência. Palavras leva-as o vento. Nada como sede, fome, queimaduras, noites sem dormir, exaustão,  para se deixar de falar de cor e inconsequentemente.

As pessoas que perderam familiares, que ficaram sem abrigo, sem o fruto de muitos anos de trabalho e sacrifícios, apenas com o que tinham vestido, vendo a dor inconsolável dos seus filhos, não querem saber de gente que se senta à mesa para discutir o que mudar, para que tudo fique na mesma.

Atrás dos terroristas incendiários, mercenários ou mentes doentias fica sempre um rasto de lágrimas, desespero humano, revolta, impotência.

O povo madeirense, particularmente o mais afetado pelo 20 de Fevereiro ou, mais recentemente, pelos incêndios criminosos, não está à espera da retórica política do consolo ou repetidas promessas de caridade.

O povo madeirense precisa de governantes e outros responsáveis  que estejam atentos à proteção das suas vidas e bens, investindo a sério nos meios e condições de prevenção e segurança, para que não tenhamos de ver nas páginas de um jornal uma criança sentada no chão de um passeio junto à casa em cinzas que perdeu, e às memórias que lá se esfumaram para sempre, a terrível morte de uma pessoa invisual acamada, que acabou carbonizada, ou o intolerável fim de vida de idosos inocentes e indefesos debaixo do seu próprio teto.

Diz-se que que quem acha cara a educação deve experimentar o custo da ignorância.

Do mesmo modo, deve dizer-se que quem não investe nas suas forças e meios de prevenção e segurança, por achá-los demasiado dispendiosos, deve compará-los (e passe a redundância) com o incomparavelmente maior custo de perdas humanas e outras. Neste caso, como noutros paralelos, cego não é aquele que não vê, mas aquele que não quer ver.

Caso contrário, será sempre revoltantemente inevitável dizer “Até para o ano” ou, mais regularmente, “Amanhã à mesma hora”!


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