
A decisão de atribuir o nome de Cristiano Ronaldo ao Aeroporto Internacional da Madeira pelo Presidente do Governo Regional já espoletou uma petição online que conta com milhares de assinantes. Fosse o nome de uma figura política ou gente associada, direta ou indiretamente, ao meio, e desconfio que ninguém faria tamanha gritaria.
Cavaco Silva,o presidente que bateu todos os recordes de impopularidade em democracia, Ricardo Salgado, o homem do Divino Espírito Santo, Durão Barroso, o que foi arranjar o seu fatinho Versace na estranja, enquanto deixava o país de tanga, Dias Loureiro, o ídolo de Passos Coelho, Oliveira e Costa, o benfeitor da família Silva, José Sócrates, o mártir dos amigos milionários, Miguel Relvas, o Doutor da Farinha Amparo, Zeinal Bava, o melhor gestor dos seus fundos bolsos, Vale e Azevedo, o homem que vendia sapatos a homens sem pés, Eduardo Catroga, o especialista em vocabulário relacionado com pêlos púbicos, Paulo Portas (nome mais recomendável para portos de acostagem de submarinos), o Mister Magoo do Banco de Portugal ou o grande protetor de criancinhas, Carlos Cruz, são algumas sugestões de gente merecedora, essa sim, de ter o seu imaculado nome e carreira associados a aeroportos, portos, e outras grandes obras. Sem dúvida que são nomes que nos dizem muito mais e nos deram muito mais!
Saibamos escolher quem realmente merece reconhecimento.
Na presidência de Cavaco Silva houve comendas (ou serão (en)comendas?) e homenagens a gente cuja reputação e ação recomendavam, em muitos casos, algemas, em lugar das vergonhosas condecorações, mas, na altura, o ruído foi ou muito pouco, ou mesmo nenhum. A José Saramago negou-se-lhe o nome de uma rua, e Cavaco nem ao funeral compareceu, tal o ódio de estimação que nutria pelo nosso único Nobel da Literatura português.
Uma pergunta urge: porque é que se convencionou homenagear as pessoas após o seu desaparecimento? Porque não em vida? Para além do reconhecimento do seu mérito, não estaremos a motivá-los e a incentivar outros a seguirem-lhes os passos? Muito pelo contrário, a “tradição” das homenagens póstumas é fértil em exemplos, uma vez que ainda muitos há que entendem que estas homenagens devem ser “in memoriam”, isto é, após o falecimento daquele que se pretende recordar. Passemos os olhos por alguns exemplos. Em 1990, o Aeroporto de Pedra Rubras (Porto) passou a chamar-se Aeroporto Francisco Sá Carneiro. Em 2016, o Aeroporto da Portela (Lisboa) passou a chamar-se Aeroporto Humberto Delgado. Internacionalmente, em Espanha, temos o aeroporto Adolfo Suarez.
Há um aeroporto em Paris que se chama Charles de Gaulle. Nos EUA temos o John F. Kennedy.
Será que só políticos ou militares é que podem dar nomes a importantes obras? Ou será por Cristiano Ronaldo ser futebolista, profissão que muitos invejam ou diminuem?
No que me toca, devo dizer que compreendo a decisão e até o seu timing.
Trata-se, tão-só, de uma justa homenagem ao madeirense mais conhecido de sempre. Será por ser um homem do futebol que se lhe pode negar dignidade e mérito?
É claro que anda neste momento muita acidez no ar. Os sequazes de algumas figuras políticas da Madeira, pelo que se sabe, andam atacados de azia e terão já esgotado os anti-ácidos nas farmácias. Calmaria. Será ingratidão? Será inveja? As duas?
A Madeira é, no mundo, a terra do Cristiano Ronaldo quer se queira, quer não, quer se goste, quer não. Em boa verdade, nunca tivemos na Madeira ninguém tão conhecido internacionalmente, que tanto elevasse o nome da nossa terra e do nosso país além-fronteiras, dando-os a conhecer e promovendo-os, e muito provavelmente não teremos outro nos próximos 500 anos. Porque precisamos, então, de ser tão miudinhos?
Recorde-se que este caso não é único nem original. O aeroporto principal da Irlanda do Norte, em Belfast, chama-se “George Best Belfast City Airport”. Belfast, para os que não sabem, é a capital de um país que é a Irlanda do Norte e tem cerca de um milhão de habitantes. George Best foi uma grande futebolista, jogou no Manchester United e na seleção da Irlanda do Norte. Naquele país civilizado do Reino Unido e da Europa, com quase dois milhões de habitantes, a decisão gerou enorme aplauso popular em 2006, quando se nomeou de “George Best Belfast City Airport” o aeroporto que até então se chamava “Belfast City Airport”. Serão pacóvios os irlandeses? Terá o aeroporto irlandês menos-valia? Ou seremos nós a continuar a velha e caducadíssima “tradição” de desvalorizar ou desdenhar os nossos valores, preferindo muitas vezes a “banha-de-cobra” que nos impingem lá de fora ou cá dentro? Jesus dizia: “Um profeta é respeitado em toda a parte, exceto na sua terra, entre os seus parentes e na sua própria casa”. “Um profeta não fica sem honra senão na sua terra.”
Sem pormos em causa a sabedoria de Cristo, confiamos que “Não há regra sem exceção”.
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