Alguém passou por aqui ? *

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Marco Reynolds  foi o nome escolhido que  lhe permitiu  ser  o  poeta  nascido  assim  por  natural  disposição  de  alma,  reservando  essa  afirmação  às  páginas  dum  diário  íntimo  que,  de  vez  em  quando,  dava  a  conhecer. Surgiu algumas  vezes  nas páginas  de  alguns  livros  que  dedicava  aos  amigos.  O  primeiro  deles,  no  fim  da  década  de  60, tinha  um  título  significativo: Gestação  duma  Nova  Face. Foi aqui  que se revelou, ao  lado  da  militância que o  distinguiu   como  servidor  do  país,  o  seu  alter ego  dado  ao  prazer  da  escrita, o  complemento  necessário  para  que  definitivamente se  completasse nele  o homem  inteiro, o  racional e o sensitivo, o  pragmático  e  o  sonhador.   Na  capa  desse  livro,   a  seu  pedido, desenhei o que,  na lógica  do  título, me  pareceu ser a  imagem  adequada: Duas  faces distintas, justapostas, formando um  único  rosto, pois  considerei  o  individuo  íntegro  e  uno  na  sua  dupla  condição  de  poeta-prestante,  humano  e  apaixonado, a  iniciar uma nova experiência de vida: Além  da  militância, o amor.

Passaram  anos, longo  tempo,  e  a  5  de  Dezembro  de  um  ano  recente  respiguei  de  outro  livro  seu  uma  frase sintomática:  “Longe  em  África / minha  repartida  memória / se  alimenta”. Iniciava-se  a digressão  poética sobre  a  missão  central  da  sua  vida. O  seu  testemunho duma  época  de  grandes  dores  e  prestações  arriscadas  numa  África  sofredora dividida  e  oprimida,  num  ofício  exigente  e  temeroso: o  conflito  fratricida  dos  anos  da  Guerra. Diz-se “os anos da Guerra” e o coração  estremece  e  a  razão  agita-se. Marco  Reynolds  desvenda no livro “Ofício Prestante”, em memória  datada,  a angústia e a revolta, a esperança atraiçoada, o silêncio letal das cinzas nas cubatas, o  sussurro  ameaçador do  capim, os terríveis  confrontos  entre o  cinismo  e  a  generosidade,  a  deserção  e  a  abnegação, o  medo  e  a  coragem, o  compromisso  e  a  consciência.

“Ofício Prestante” seria o testemunho duma missão. Faltava-lhe outro, escrito para mais tarde: O Testemunho do amor à Ilha, a terra  de  sua  origem  que  escolheu definitivamente  para viver. Tão discreta era a sua passagem que poucos sabiam  do  seu pensamento e do seu coração. “Ilha-Mãe” registava uma experiência de particulares afectos,  os  mais  íntimos, mais difíceis  de dizer.   As palavras,  procurava-as  com  a tenacidade de quem amanha a terra  para atingir o álveo mais fundo. Qual a palavra mais certa para adjectivar o sangue ? Conversávamos. Percorria  os  versos  nessa busca. Marco Reynolds era o “Cavador  de  sonhos” e pediu-me umas palavras minhas. Eu nada sabia do seu Ofício Prestante mas redigi-as, medrosas, hesitantes e incompletas.   Apenas para tentar compreender não  apenas  o  homem,  mas  o soldado; o  homem  que  comanda,  mas  também  obedece;  o  que  se  impõe,  exige  e  ao  mesmo  tempo  aceita  e  tolera; o que  veste  a  humildade  frente  ao  despudor  da  soberba; o líder que  prescreve e decide,   por  oposição  ao  poderoso  que  ordena; o  que  sobre o sacrifício  da  morte,  proclama  o  benefício  da  vida;  o  que  serve  e  ama,  e  repudia  o  servilismo  e  o  ódio;  o que  dispõe  do  grilhão para  salvar  a  Liberdade. O que se movimenta entre  o  paradoxo  e  o  paradigma; o que  chama  ao  povo  “Pátria” e  à  Pátria “caminhos  esquecidos”,  “lágrima  de  deus”, “ubérrimo  ventre”.

O seu ofício  de  militar entendia-o e  vivia-o no  cumprimento  da  dignidade e  da  disciplina  de  carácter  que  define  no  homem  os  valores  éticos  orientadores da razão e do sentimento. Exemplar  na  sociedade e  na  família, deixou um legado  de qualidades só  conhecido por quem de mais  perto o  conheceu  e  amou.

Do  general-poeta  saliento, definitivamente,   a  vontade   nascida  e  crescida  nos  rumos  do  humanismo  e  da  poesia,  complexos  e  adversos,  longínquos  e  utópicos,  mas, apesar  de  tudo,  sendo a  única e eminente  maneira  de se  revelar  na  sua  mais  profunda  verdade.

Passou por aqui. Aqui  viveu algum  tempo. Saiu, digno e discreto como entrou.

*Em  memória  de  José Alberto  Reynolds Mendes

Junho,2016