Jocelino Velosa: “o ‘all inclusive’, na pior das hipóteses, é um mal menor” para a economia do Porto Santo

porto-santo-104.jpg.jpeg

Fotos: Rui Marote

Jocelino Velosa é o director regional para a Administração Pública do Porto Santo. Herdeiro do antigo cargo de delegado do Governo, tem a seu cargo a representação do Executivo madeirense na ilha vizinha, e a função de transmitir ao mesmo as necessidades locais. Consciente de que a população do Porto Santo tem sido duplamente afectada pela insularidade e pela crise económico-financeira, estabelece o seu diagnóstico sobre a presente situação: “Está melhor do que estava”, afirma. Destaca várias medidas que o Governo tomou, nomeadamente no que concerne ao subsídio de mobilidade, tanto o aéreo como o marítimo.

“Por outro lado”, salienta, “pela primeira vez tivemos operações charter no Inverno – a operação com os dinamarqueses foi um êxito”. Jocelino diz que o comércio local está a recuperar. “Este ano já não vemos esplanadas desertas”, garante. “Mantivemos um hotel aberto durante o Inverno, algo que nos outros anos não acontecia. As perspectivas são boas. Julgo que vamos por um bom caminho. Para o próximo Inverno também já estão perspectivas operações, que fazem com que se estejam a criar as condições para que possamos recuperar dessa dupla insularidade, a dupla penalização”, a que os porto-santenses estiveram sujeitos.

porto-santo-028.jpg.jpeg

O director regional nega que tenha havido um enfraquecimento do mercado italiano. “Bem pelo contrário”, salienta. “As operações charter italianas, no ano transacto aumentaram a capacidade do avião, foi um avião maior, aumentaram o período de operação, e a perspectiva para esta operação que já decorre, penso que começou mais cedo, e sei que irá acabar mais tarde”.

Referindo-se às queixas que o FN ouviu de comerciantes sobre as dificuldades de abastecimento à ilha e o preço do transporte de carga, agravado pela concorrência do ‘all inclusive’ aos negócios particulares, o representante do Governo Regional na ‘Ilha Dourada’ declara, no que concerne ao ‘all inclusive’, que “entre ter zero e ter um, prefiro ter um” e procura “desmistificar a situação”.

porto-santo-101.jpg.jpeg

Na sua perspectiva, o sistema ‘all inclusive’ em que algumas unidades hoteleiras funcionam faz com que haja mais hotéis abertos no Porto Santo, faz com que haja empresas da ilha a fazer transfers, “e aqueles turistas que nós vemos a passear e a frequentar também alguns restaurantes do Porto Santo e a usar uma pulseirinha, não a usam por ser moda… também vão às lojas de artesanato e utilizam os táxis. Eu tenho visto isso. Se poderia ser mais? Claro que sim, gostaríamos que houvesse mais adesão ao comércio local, mas o mesmo também terá que se adaptar às novas realidades”.

Há três ou quatro anos, refere, havia um determinado número de turistas. “Este ano temos turistas no Inverno, que não tínhamos, e também temos de ir ao encontro desses mercados. E há dados que são demonstrativos de que o ‘all inclusive’ também mexe com a economia local, com os abastecimentos aos hotéis… promovemos os agricultores locais junto dessas unidades, para que sejam consumidos os produtos locais, e temos os dados que comprovam que de facto assim tem acontecido. Os transfers são feitos por empresas locais… E também há alguns empregados dos hotéis que são do Porto Santo. Se estiver o hotel a funcionar, não estão no desemprego”. Por tudo isto, entende, “o ‘all inclusive’, na pior das hipóteses, é um mal menor. “Foi a solução que alguns operadores encontraram, para usar o Porto Santo como destino turístico”.

porto-santo-109.jpg.jpeg

Com a operação charter que decorreu com dinamarqueses, o campo de golfe do Porto Santo, acrescenta, “foi a dada altura o terceiro campo de golfe no país com mais voltas. Tivemos uma grande ocupação do mesmo no Inverno, com a operação dinamarquesa. E não foi só o campo: o próprio restaurante do golfe teve também muitos clientes”.

Para o nosso interlocutor, há que primeiro trazer as pessoas, mesmo que seja em regime de tudo incluído; os turistas começam depois a aderir ao comércio local.

Jocelino Velosa comenta a situação do campo de golfe, que já chegou a estar em muito más condições, referindo que a manutenção de uma estrutura deste tipo não é fácil. “Mas talvez com um pouco de exagero, eu possa dizer que se não tivéssemos campo de golfe, talvez não tivéssemos tido a primeira operação charter no Inverno”.

Comentando as diferenças entre o turismo estrangeiro e o continental – porque há quem defenda uma maior aposta neste tipo de turismo, afirmando que é o turista português aquele que mais consome no Porto Santo, e defendendo que deviam ser incrementadas as ligações aéreas entre o continente português e o Porto Santo – este responsável diz que há que ter em conta certos aspectos.

porto-santo-108.jpg.jpeg

“O turista continental é essencialmente um turista de Verão. E neste momento, para este Verão, há um grande número de operações charter com o continente, e além disso, a própria TAP, salvo erro, só um dia da semana é que não tem ligação ao continente, do Porto Santo. Por outro lado, e também devido a um ‘forcing’ do Governo Regional, nomeadamente da Secretaria Regional da Economia, Turismo e Cultura, há novos horários em relação à ligação Porto Santo-Lisboa, que vão ao encontro das aspirações tanto dos locais, como dos operadores turísticos”.

Questionado sobre se entende que será possível ao Porto Santo libertar-se da sempre eterna sazonalidade que tradicionalmente o tem afectado, Jocelino Velosa comenta: “Ai de mim se não acreditasse nisso. É um processo moroso, mas penso que iremos chegar lá. Já se começa a notar menos sazonalidade, embora continue a haver o grande período de Verão”.

O entrevistado acredita que há que investir mais no mercado dos países nórdicos promovendo o Porto Santo junto destes turistas oriundos de países frios, fora da estação estival.

“Já foram dados os primeiros passos, com perspectivas de melhorias no futuro. Há uma visão diferente em relação ao desenvolvimento do Porto Santo, que se iniciou há um ano. Vê-se já, em relação ao turismo continental, uma grande aposta da Associação de Promoção para este Verão, que está a resultar. O Porto Santo está a ficar na moda no continente. E quanto aos mercados nórdicos: é um processo que não se resolve num ano. Já se deram os primeiros passos, e já se notou neste Inverno que o mesmo nada teve a ver com os anteriores… e tenho a certeza de que o próximo será melhor. É preciso perceber que o turismo é uma indústria muito competitiva, e que não é nem num ano, dois, três ou cinco que se consegue afirmar um destino turístico”.

porto-santo-156.jpg.jpeg

Sobre as críticas tecidas aos hoteleiros, comenta que, por natureza própria, “somos um povo um pouco insatisfeito”.

“Podemos fazer mais, e vamos fazer”, promete. “Os hoteleiros, como são empresas privadas, querem lucro, mas criam emprego no Porto Santo. E isso é importante. Não são só pessoas de fora, que eles trazem para trabalhar nos hotéis. Também há pessoas do Porto Santo a trabalhar nos hotéis. Este é um processo evolutivo, que terá de melhorar a médio prazo”.

O director regional para a Administração Pública da ilha não tem dúvidas de que o presente Governo Regional reconhece as situações reais da ‘Ilha Dourada’ que urge resolver de forma célere. “Em pouco menos dum ano, aconteceram coisas no Porto Santo que talvez já devessem ter acontecido há mais tempo”, reconhece. “É óbvio que as perspectivas são diferentes: abriu-se um novo ciclo”, afirma. “Da Presidência do Governo tenho recebido grandes incentivos, grandes responsabilidades”, dá-nos conta. “O Porto Santo iniciou um processo de viragem”.

porto-santo-106.jpg.jpeg

Relativamente à agricultura, e às críticas de que não há água para cultivar, Jocelino diz que isso “é um bocado uma falácia”.

“Existe água. O que nós temos que fazer, essencialmente, até pela recém-criada comissão instaladora da Associação de Produtores Agrícolas do Porto Santo, é mudar os sistemas de rega. Nós temos de poupar água. A água é um bem comum que é imprescindível, e infelizmente no Porto Santo ainda se utilizam sistemas de rega por alagamento, que consomem muita água. Ainda há duas ou três semanas atrás tivemos cá a Sra. Secretária do Ambiente, com a direcção da ARM (Águas e Resíduos da Madeira) que se reuniu com a comissão instaladora da Associação, e foram tomadas várias medidas para garantir que a água não falte. E a água não vai faltar. E possivelmente, a médio prazo, vai chegar a lugares onde ainda hoje não chega”, sublinha.

Referindo-se a queixas dos agricultores, admite que há um horário de entrega de água que é reduzido. “Nós falámos com a ARM, e a mesma comprometeu-se a alargá-lo, e penso que já o fez. Julgo que essa crítica é um pouco ‘à profeta’, é o diz que diz-se”, critica.

porto-santo-122.jpg.jpeg

Questionado sobre a perspectiva governamental sobre as possíveis políticas de criação de emprego, admite que é uma situação muito complicada, mas diz que a taxa de desemprego já esteve muito mais alta do que actualmente. “Como é que se resolve o emprego? Criando investimento, criando condições para o investimento, potenciando a agricultura local… E esse investimento terá de ser forçosamente na área turística”, considera. 7

“Grande parte do desemprego veio da construção civil, e toda a gente sabe a crise que a afectou”, constata. “No boom do desenvolvimento, o Porto Santo era dos concelhos da Madeira que tinha menos desemprego. Inclusive, tínhamos muita mão-de-obra eslava e brasileira cá”, lembra. “Obviamente que a crise penalizou muito o concelho do Porto Santo”.

“Primar pela qualidade e pela excelência” é a estratégia em que tem que apostar o turismo do Porto Santo, refere. Comentando as críticas que se fazem ao progressivo emagrecimento da praia, que tem vindo a perder areia ao longo das últimas quatro décadas, e às críticas que associam tal fenómeno à localização do porto de abrigo, que impedirá que as areias circulem de forma natural como antes o faziam, levadas pelas correntes e pelos ventos e reabastecendo naturalmente a praia, Jocelino Velosa é prudente: “É uma área em que não sou especialista. Não me vou pronunciar sobre isso. Mas concordo que a praia é fundamental. Acho que não há menos areia no Porto Santo. Talvez esteja é em outros locais. Quanto ao porto de abrigo, não sou especialista, não me vou pronunciar sobre isso, mas recordo-me que, nos anos 70, entre o cais e o porto de abrigo, era só calhau e areia preta. E era de onde eram retirados inertes para a construção civil. E agora há ali uma praia de areia amarela. Houve alguma coisa na natureza, alguma interferência, que alterou isto. Também sei que as dunas lá ao fundo, na zona da ponta, estão muito mais elevadas do que há 20 anos. Quer dizer que há mais areia lá. Estas dinâmicas são complexas. Porquê, como, não sei”.

Sobre hipotéticas recargas artificiais à praia, Jocelino diz saber que isso é utilizado em algumas praias, mas tem algumas dúvidas sobre a sua possível utilização no Porto Santo.

Terminando a conversa, sublinha que os passadiços da praia foram recuperados “com material nosso”. O que sempre é uma coisa positiva. Sobre a falta de infraestruturas de apoio como duches ou balneários, mas remete a resposta para a Secretária Regional do Ambiente, embora diga: “Penso que é algo que faz parte das nossas preocupações”.

E das preocupações que lhe são mais transmitidas pelos porto-santenses? “Julgo que é mesmo a questão do emprego – e a da promoção da ilha”, responde.