
Paradoxalmente, um neto de emigrantes alemães, candidato à Casa Branca é visceralmente anti-emigração.
Falamos, claro, de Donald Trump, vulgo “Ganda Trampa”, em português de lei.
Outro paradoxo notável é que um multimilionário com ligações a Wall Street, casinos e política, apregoa aos quatro ventos que é anti-política e anti-Wall Street. Dado que “a bota não bate com a perdigota”, a circunstância merece, sem dúvida, um “estudo de caso”.
Pergunta-se porque é Trump tão popular? Muito simples: porque é absolutamente populista.
A sua prática política mais não fez que limitar-se a ações de carácter paternalista, visando o apoio popular. Mas, que fazer? A populaça gosta e, quando a populaça gosta, pouco ou nada há a fazer.
A sua crescente popularidade deve-se em muito à ignorância de muito eleitorado americano, tomando a vazia retórica e as carradas de demagogia de Trump pelo seu “Gospel”.
Recorde-se, a comprová-lo, que uma pesquisa realizada pela National Geographic Society veio mostrar que 87% dos americanos, com idades entre 18 e 24 anos, não sabiam localizar o Iraque no mapa do Médio Oriente , o mesmo ocorrendo em relação a Israel e ao Irão. Uma espécie de ilustrados concorrentes dos “reality shows” de Teresa Guilherme.
Em resultado desta pesquisa, os americanos receberam nota ‘D’ e ficaram com o penúltimo lugar, à frente dos mexicanos. Ali, por coincidência, na fronteira.
Numa recente entrevista ao Huffington Post, Noam Chomsky afirmou que o crescimento da candidatura de Donald Trump no Partido Republicano se deve aos “sentimentos profundos de raiva, frustração e desamparo” que se espalham entre os setores da população que veem, por exemplo, crescer os índices de mortalidade no país. Os sentimentos de desamparo e de raiva, defende Chomsky, “não apontam tanto às instituições que são agentes de dissolução das suas vidas e do mundo”, mas sim àqueles que são ainda mais duramente atacados. “São sinais que conhecemos, e que evocam algumas memórias da ascensão do fascismo europeu.”´
Contudo, o multimilionário xenófobo continua a ser o favorito para a nomeação de candidato à presidência dos EUA pelo partido republicano e está tão convicto da sua popularidade e incondicional idolatria que chegou mesmo a dizer que tem os melhores apoiantes e, para o exemplificar, “disparou”: “Podia dar um tiro a alguém no meio da 5.ª Avenida e não perdia um único voto, OK?”.
Aliás, Trump não se tem coibido de protagonizar diversos ataques pessoais a jornalistas, defendendo a proibição da entrada de muçulmanos nos EUA e chamando assassinos e violadores à maioria dos mexicanos que entram nos EUA sem documentos.
Sem qualquer experiência política, Trump deixou de ser uma figura dos reality shows para ser um sério aspirante à Casa Branca e há quem afirme, com alguma razão, que o trumpismo ou a “trampa”, em bom rigor, é, na sua essência, uma furiosa reação à presidência do democrata Barack Obama, como que uma lente aumentada e distorcida da virulenta oposição ao presidente.
De acordo com Michael Kazin, historiador da Universidade de Georgetown, em Washington, codiretor da revista Dissent e autor de The Populist Persuasion (“A persuasão populista”), “Trump é uma mistura de populista de direita, famoso egocêntrico e homem de negócios que acredita que, por ter ganho muito dinheiro, é capaz de administrar a economia americana e gerenciar um sistema político”.
Além disso, sublinha, “Há paralelismos com tudo isso na História americana”.
A título de exemplo, Kazin cita Henry Ford, o magnata da indústria automobilística, que cultivava um discurso antissemita e que não deixou de ser cortejado, nos anos vinte, por democratas e republicanos enquanto candidato. Antes disso, há semelhanças com o Partido Americano de meados do século XIX, conhecido como os Know-Nothing (“os que não sabem nada”), cuja “agenda consistia em dificultar que os emigrantes se tornassem cidadãos americanos”, opondo-se “especialmente aos emigrantes católicos: irlandeses e alemães, partindo do princípio de que roubavam o trabalho dos americanos protestantes, vendo-os como escravos do Papado”. A ironia é que, como se sabe, Trump descende de emigrantes alemães, o que diz tudo acerca da sua coerência e consistência.
Porém, convenhamos que não é estranho que um povo que todos os dias se confronta com mortes por posse de armas e, mesmo assim, tem mais facilidade em arranjar armas do que comprar Nestum com mel, apoie um mentecapto muito rico que aposta (como num jogo de póquer) eficazmente todas as suas fichas num cenário que, infelizmente, capta muita gente – o medo.
Infelizmente, o dinheiro é hoje o sangue que corre nas veias da sociedade e, quem o tiver, a rodos, é admirado pelos seus semelhantes que quase selvaticamente lutam para o ter.
Donald Trump é uma versão americana de governantes de extrema-direita que já estão no poder na Hungria e na Polónia, por exemplo. O movimento produtivista que representa não é uma inovação, mas a reprodução de modelos que têm obtido sucesso – e igual polémica – na Europa. O Partido da Independência do Reino Unido (UKIP) e a Frente Nacional, em França, são movimentos com os quais o produtivismo dialoga e encontra vários denominadores comuns, contextualização fundamental para avaliar este momento histórico cada vez mais preocupante e perigoso.
Valha-nos, no entanto, a convicção de que a candidatura de Trump tem tudo para correr mal. “No he can`t!”, diria, desta vez, Barak Obama. Assim queiram os “deuses” que a grande “trumpa” não vingue. Mais do que os Estados Unidos, o mundo agradece.
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