Crise interna do CDS: adjunto de Torres sai com ordenado mensal de 2500 euros por 11 anos

foto Rui Marote
Os últimos resultados eleitorais: o princípio da cisão interna. Foto Rui Marote

O CDS-PP na Madeira é hoje um partido dividido e com querelas internas difíceis de sanar. Após a hecatombe eleitoral regional e nacional, são agora as guerrilhas internas que estão ao rubro. A liderança repreende publicamente Isabel Torres por exonerar o seu adjunto da vice-presidência da Assembleia, Nelson Mendonça. Mas o FN apurou que este funcionário saiu com uma indemnização compensatória que atinge os 2500 euros mensais ilíquidos (ultrapassando os 3 mil euros/mês, consoante parecer do Tribunal de Contas que é aguardado), ao longo de 11 anos consecutivos, podendo simultaneamente continuar a acumular com funções na privada.

Entretanto, é Isabel Torres quem tem vindo a ser criticada em vários quadrantes pelo facto de acumular a pensão com o salário de deputada e de ter saneado Nelson Mendonça para substituir pela sobrinha Francisca Ribeiro. Em carta enviada à comunicação social, a vice-presidente fez saber que esta já lá estava como assessora do grupo parlamentar, também por indicação do ex-líder José Manuel Rodrigues, para “suprir as muitas faltas de Nelson Mendonça”, ao serviço do líder do partido (deslocações a Açores, Canárias e outros eventos partidários).

Tendo perdido a confiança no adjunto, por discordância frontal com a atuação deste – que para muitos tem mandado no partido durante largo tempo – e face às notícias vindas a público, Isabel Torres remeteu à imprensa um comunicado que urge recordar: “A orgânica da Assembleia Legislativa da Madeira prevê a possibilidade dos seus diversos serviços e grupos parlamentares terem pessoal de gabinete; de acordo com a Lei, a nomeação e exoneração desses membros de gabinete, nomeadamente do adjunto, é de escolha livre; por serem membros de gabinete, a sua função é de apoio direto à atividade política e pessoal de quem os nomeia, não se constituindo uma relação sujeita ao regime de trabalho; Neste sentido, a Lei não prevê qualquer justificação para nomear ou exonerar o adjunto, embora em caso de exoneração ou demissão haia direito a uma substancial indemnização; o vencimento do adjunto do gabinete está previsto na Lei; desde Novembro de 2011, por indicação do ex-presidente do CDS/M, José Manuel Rodrigues, Francisca Carvalho Ribeiro, assessora do Grupo Parlamentar do CDS/M, foi deslocada para o gabinete da Vice-presidente da ALRAM, para suprir as permanentes ausências do Sr. Nelson Mendonça, nomeado por mim para adjunto e que até à sua exoneração auferiu o correspondente vencimento; dei conhecimento prévio ao Presidente do CDS/M e ao Secretário-Geral da exoneração do Sr. Nelson Mendonça e da posterior nomeação de Francisca Carvalho Ribeiro.  Esta é a verdade dos factos”

Guerra orquestrada?

Dirigentes do partido asseguram ao FN que Isabel Torres – o grande trunfo que o ex-líder convidou para o partido – é agora um alvo a abater de qualquer forma. A intenção, dizem, é clara: dispensar Isabel Torres e colocar no lugar de vice-presidente da Assembleia outro dirigente de topo, sendo mesmo falado no nome de José Manuel Rodrigues, facto que o FN não conseguiu confirmar junto do próprio que continua a salientar que está “afastado de tudo”.

isabel_torresRepreendida sem ser ouvida?

Na última reunião da comissão política do partido, foi divulgado um comunicado e foram feitas declarações do presidente Lopes da Fonseca a anunciar que a deputada e vice-presidente da Assembleia fora “repreendida” pela atitude tomada no processo que envolveu a dispensa de Nelson Mendonça e a escolha da adjunta, sua sobrinha. Isabel Torres remeteu-se ao silêncio mas o FN sabe que há dirigentes do partido que esperavam que, apesar de lá não ter assento, a mesma fosse chamada à reunião para poder defender-se das acusações que lhe eram feitas. Nada disso aconteceu e as repreensões foram tomadas unilateralmente pela direção, fazendo lembrar, como nos referem, “o comité central de outro partido bem conhecido”.

No meio deste turbilhão de descontentamento que varre o CDS, uma coisa é certa: Isabel Torres não pretende abdicar do lugar e nem sequer repensa a decisão de ter saído da presidência do mesa do congresso. “Mal-amada ou não, foi eleita e só sai pelo seu próprio pé”, segundo nos referem.

Congresso extraordinário

Entretanto, a liderança de Lopes da Fonseca também não é dada como estável, sendo visto pelos militantes como “um líder a prazo”. No partido, é aguardado o pedido de Ricardo Vieira – que foi a voz discordante do último congresso que culminou com a eleição-surpresa de Fonseca – para a marcação de um congresso extraordinário de revisão dos Estatutos e escolha do novo líder.

As tensões continuam num partido que perdeu a projeção que tinha antes do último ato eleitoral, muito apoiada também pelo apoio em toda a linha do presidente nacional Paulo Portas. Os militantes acham que o CDS tem condições para recuperar desta conjuntura desfavorável, mas “com união interna” e “serviço de missão, ou seja, sem a obsessão pelos tachos”.

Como é sabido, o partido da social-democracia é sempre sociologicamente visto como uma força partidária de quadros válidos para o país. As “tempestades psicológicas” são encaradas como “normais nos partidos e o CDS não é exceção”. Mas também alertam para o facto de ser “perigoso o partido andar ao sabor de interesses pessoais”, sendo urgente “uma liderança com um projeto aglutinador e coletivo, que valorize aqueles que têm provas dadas ao longo da história do partido”.


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