O desafio da Quaresma hoje

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A Quaresma começa com a celebração das Cinzas. A cinza significa que a nossa vida neste mundo tem um limite e que por isso não vale a pena andarmos carregados de orgulho, nem de ódios, nem de egoísmos, nem muito menos com uma ganância desenfreada que faça faltar o pão na mesa do próximo. A cinza é o símbolo do pouco ou nada que somos materialmente falando, por isso, não vale nada andarmos cegos embriagados pela loucura dos elementos que dão consistência à materialidade da vida. Essa dimensão não tem futuro, é pó.

Vamos a um pouco de história para nos ajudar a compreender o que é o desafio da Quaresma. No séculos VIII e IX, as cinzas impostas sobre as cabeças dos fiéis, na liturgia, eram um apelo muito forte à penitência, à conversão dos pecados e à mudança de comportamentos perante a vida concreta. No dia das cinzas as pessoas eram convidadas a sairem da Igreja, como que indicando que aquele gesto repetia a expulsão de Adão e Eva do  Paraíso. O gesto tinha em vista convidar à conversão da vida pecaminosa para a vida nova do Reino de Deus que Jesus ressuscitado oferece. As palavras do livro do Génesis acompanhavam esta celebração: «Com o suor do teu rosto comerás o pão até que voltes à terra; porque dela foste tirado; pois és pó e em pó te tornarás… E o Senhor Deus vos expulsou do Paraíso, para lavrar a terra de onde tinha sido tirado» (Gen 3, 19.23).

Mais tarde a imposição das cinzas tomou a ideia da fragilidade e da limitação da vida terrena, profundamente associado à finitude, à morte. Porém, o mais interessante desta celebração pode ser a referência ao significado mais antigo, que expressa penitência, conversão do pecado. A «humanidade pó da terra», refere-se à humanidade longe de Deus, que recusa a fraternidade, o convívio e a amizade com os outros, especialmente, os que mais precisam de ajuda, de conforto humano, psicológico e espiritual.

A «humanidade pó» é aquela que vive com o ódio e que perdeu o sentido da vida dinamizada pelo amor. Esta «humanidade pó» foi expulsa da sua casa, não a respeitou e esqueceu-se de viver com todas as coisas da sua casa com equilibrada harmonia, pensemos nos desequilíbrios do Planeta Terra, tão sabiamente denunciados pelo Papa Francisco. Esta «humanidade pó» recusou os valores como bens essenciais para ser gente com toda a gente e preferiu o caminho da desilusão e da morte.

Uma «humanidade pó», é a que não se compadece com o sofrimento dos outros, anda como que tomada pela loucura do extraordinário, o milagroso e pouco ou nada lhe diz o ordinário da vida, os problemas da doença, as prisões de todos os modos e feitios, a loucura generalizada, a criação dos filhos, a (re)construção matrimonial, até chegar aos problemas mais distantes do mundo de hoje, como, por exemplo, os refugiados das guerras do Médio Oriente, a fome em África, a juventude drogada e alienada na Europa e nos EUA, entre tantos outros dramas que perseguem a humanidade dos nossos tempos.

Está mais que visto que um «Homem pó» é aquele que se opõe aos valores de Deus e da vida. Aliás, hoje, especialmente, pode ser aquele que se serve de Deus e da religião, distorcendo-os para defender a violência, a morte do outro e a destruição do mundo e da natureza. Esta humanidade voltou as costas à verdade e à honestidade para se auto-condenar.

Neste dramático itinerário de afastamento, as cinzas lembram que há possibilidade de retorno e que nada nem ninguém estão perdidos. É possível mudar de direção, ninguém precisa de se lançar ao túmulo enquanto não chega a sua hora, é possível a conversão, é possível voltar à fonte. Porque não inverter-se as palavras e dizermos: «Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás… para Deus». Agora mesmo. Basta que digas sim neste exato momento.

 


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