Breve História Comparada

Irene-Lucília--icon

Numa  pequena  joia  de esmalte  incrustada  em  ouro  lê-se  uma inscrição feliz:  “Recordação  do  seu  noivo  5-8-934”.  Pleno  mês   de  Agosto,  o sol radioso  galga as colinas até à   Choupana  e  detém-se  no   Bom   Sucesso.  A  ilha  esplende  ao  compasso  dum  amor  nascente,  a  canção  da  Felicidade  espalha-se  pela  casa:

“Uma  porta e uma  jane..e..la

tanto  bastam  para  e..e..la.

A  minha  casinha  há-..há..-de

ser  toda  a  Felicida…de.”

Longe  soam  as  vozes  austeras  e  os  sinistros  tambores  dos  que se  previnem  contra  a  guerra. Entre  o  amor  e  a  guerra  há  um  enorme  continente  cravejado  de  conflitos  que  a  ilha  ignora  e  nunca  viverá.  Há  leis  de  emergência,  frentes  de  luta,  pactos  de  assistência  entre  os  países,  para  casos  de  ameaça.  A  ilha  embala-se  no  mar,  ridente  e  serena,  desconhece  a  deflagração  iminente  que  arrastará  os  povos  na  mais  hedionda  catástrofe  que  a  História  registará.

Na  casa  do  Bom  Sucesso  Lia  liberta  a  cantiga, a voz floresce  como o pequeno ramo de gerberas ao canto da mesa e  as  malvas no jardim. A feliz casadoira  afaga  a  joia  que  lhe  brilha  ao  peito,  revê-se  na  fotografia  do seu amado  impressa  no  delicado  esmalte e  trauteia  a  música  das palavras  gravadas: “Recordação do seu  noivo 5-8-934”. Um  ano  depois, 1935, Lia  alarga  a  cantiga  e  conclui :

“Este  há-de  ser  o  meu  lar

cheio  de  luz  e  calor

onde  vou  viver  sozinha,

sozinha  com  o  meu  amor”.

No  mesmo  ano,  no  mesmo  mês,  Bela  leva  consigo  uma  mala  com  alguns  pertences,  talvez  guarde  também  uma  joia votiva qualquer,  mas  ninguém  sabe.  Ninguém  sabe  de  mais  ninguém  na  sua  vida,  nem  dos  seus  amores, nem  dos  seus  sonhos,  nem  da  sua  canção  preferida, nem do  peso  do  seu  coração. Atravessa  os  campos  de  Birkenau- Auschwitz,  transportam-na,  com  outros,  num  camião  fétido para  lugar  incerto.    O  nome  nada  lhe  diz,  mas  pressente  o  caos  e  a  tragédia. Apercebe-se  do  frio  da  alma,  tão  gélido  como  o  do  corpo,  sabe  que  se  chama  Bela,  mas  esquece-se  de  quem  é.  As  bétulas  que  ladeiam  os  campos  balançam  à  leve  brisa,  aceno  perverso  de quem  detém um  terrível  segredo. Bela  não  voltará  a  vê-las,  nem  às  planícies  da sua  terra,  nem  às  ruas  da  sua  cidade,  nem  aos  rostos  dos  seus  amores.

Auschwitz  fica  longe,  no  enorme  continente  convulsionado,  os  países  tremem  em  volta.  Os  povos  submetem-se  à  fúria  expressionista  duma  ideologia repressiva. A  arte  do  povo  é  arte  do  sangue  e  do  grito.

Na  ilha  atlântica  o  sol  brilha  sobre  as  ruas  de  calhau  rolado,  as  canções  pulsam  no  coração  de  Lia, à  esquina  do  Golden  Gate  os  velhos  ingleses  falam  longinquamente da  guerra, alisando  nos  coletes  as  correntes  brilhantes  dos  relógios , e  os  mais  novos,  displicentes,  exibem  os  “palhinhas”, onde,  clara  e  fresca,  se  acolhe  a  moda  masculina de  verão.

No  mesmo  ano,  no  mesmo  mês, o  trágico  percurso  de  Bela  colide  à  distância  com  a  felicidade  de  Lia. Hoje o  que  resta  de  Bela  é  uma  mala  de  cartão  atirada à  toa entre  os destroços  de  Auschwitz, onde  se  lê,  escrito  a  giz:  Bela Stadder, 1935, seguindo-se  um  número  que  a  fotografia  esfumada  não  deixa perceber. Quanto  às  memórias  de  Lia,  existe  ainda  a  joia  de  esmalte  e  ouro,  testemunha  confirmada  dum  amor  feliz,  prolongado por  uma  vida  longa  e  plena,  amada  relíquia  que  guardo  no  tesouro  dos  meus  afectos.

Sei  de  cor  o  rosto  de  Lia  e  recordo  a  ternura  duns  olhos  cinzentos  de  matiz  dourado  pousados  nos  meus. Talvez  alguém  tenha  visto,  algum  dia,  reflectido  no  rosto e nos   olhos  de  Bela,  o  pavor  do  seu  holocausto. Duas  mulheres,  dois  destinos  opostos,  em  dois  lados  do  mundo.

Na  ilha  atlântica  os  jardins  contam histórias  de  flores  e  de  pássaros, perpassa   no   vento  o  sopro  duma  cantiga  de  luz  e  calor. Mais  longe  um  vento  agudo,  gelado  e  mortífero  sacode  ainda  as  ondulantes  bétulas  de  Birkenau.  Revolve-se  a  arrepiante  cinza  de  Auschwitz. Que  lugar  e  este,  torpe,  medonho,  nauseabundo ?

Sob  o  mesmo  astro-sol,  a  dualidade do  planeta  é  uma  terrível  realidade  do  destino. Dum  lado  a  luz,  do  outro  a  treva; dum  lado  a  bonança,  do  outro  a  tempestade. Um  determinismo  que  não  há  como  negar.  Cruel  e  perigosa  é  a  metáfora  da  translação.

Funchal, 27  de  Janeiro

Nota: escrito  em  evocação  da  data da  libertação  dos  condenados  de  Auschwitz.


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