Ministro da Economia em Davos afirma que investidores estrangeiros continuam a apostar em Portugal

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Davos, na Suíça a cidade é sede da reunião anual do Fórum Econômico Mundial Foto: Andy Mettler/World Economic Forum
Davos, a cidade suíca é sede da reunião anual do Fórum Economico Mundial
Foto: Andy Mettler/World Economic Forum

A 46.ª edição do Fórum Económico Mundial de Davos arrancou na quarta-feira (20 de Janeiro) e prolonga-se até amanhã, sábado, na estância de ski suíça de luxo. O tema deste ano é a “Quarta revolução industrial”.

Pela 46.ª edição passam 2500 empresários e gestores de topo. De Portugal, o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, marca a sua presença, tal como José Manuel Barroso, Carlos Moedas, Pedro Soares dos Santos e Henrique Soares dos Santos da Jerónimo Martins, Ângelo Paupério da Sonae e Afonso Reis, economista, docente da Nova School of Business.

A Renascença divulgou a entrevista feita ao ministro da Economia, onde várias questões são colocadas sobre a atuação de Portugal em Davos e o receio dos investidores estrangeiros apostarem em território português.

Ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral Foto: Daniel Rocha
Ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral Foto: Daniel Rocha

Segue-se a entrevista feita pela Renascença:

Este ano, o Fórum de Davos tem como tema central dominar a quarta revolução industrial. Estão a ser debatidos modelos para evitar quadros de elevado desemprego. Atendendo ao caso português, que estratégia vai defender em Davos?

Vamos defender a importância que tem a digitalização da indústria, a chamada “indústria 4.0”, que é enorme para o país. Devemos estar muito atentos a estas mudanças, sobretudo as empresas que se querem colocar na primeira linha de fornecedores dos grandes grupos empresariais mundiais, mas também as empresas de sectores tradicionais. A essas, a digitalização da indústria também oferece enormes possibilidades.

Este será também o momento para tentar captar investimento externo. Que trunfos leva para esse efeito e para afastar os noticiados receios dos investidores externos para apostarem em Portugal?

Penso que a discussão sobre os receios dos investidores em Portugal é muito exagerada. O que sabemos é que os investidores estrangeiros estão a comprar dívida pública portuguesa e a exigir “spreads” baixos. Vemos também que os investidores que estão a criar empregos continuam a apostar em Portugal.

Ainda ontem (quarta-feira) estive no Altice Labs e esta empresa, que podia ter escolhido colocar o seu centro de inovação em qualquer lado do mundo, decidiu manter o centro de inovação da PT e expandir as actividades de inovação em Portugal, mas agora para servir todo o mundo. E temos vários outros investimentos estrangeiros, muitos deles ligados a engenharia, inovação e produção industrial que estão a vir para Portugal e que vamos anunciar nas próximas semanas. Isso demonstra claramente que os investidores continuam a confiar em Portugal.

Pode antecipar esse anúncio?

Há várias empresas que já manifestaram a sua intenção. E há algumas empresas novas que vão manifestar a sua intenção de investir em Portugal e têm estado a contactar o Ministério da Economia, a AICEP e as instituições portuguesas de apoio ao investimento. Estas manifestações de interesse não têm decrescido. Pelo contrário: penso que os investidores estrangeiros reconhecem que a Europa está a passar a fase da austeridade e, portanto, o mercado europeu está outra vez mais interessante. E Portugal é uma boa porta de entrada para o mercado europeu. São investimentos deste género que criam emprego que queremos atrair e sabemos que em Davos estão muitos investidores das maiores empresas e dos maiores fundos mundiais. Vamos fazer tudo para os trazer para Portugal.

Mas há sinais e declarações que demonstram esse receio por parte de alguns empresários. Não só com a política de reversões do actual executivo, mas também com as soluções encontradas para as obrigações do Novo Banco e para o Banif. Ainda esta quinta-feira é notícia a reunião dos maiores bancos do mundo em Londres devido às obrigações seniores do BES. Há receios inegáveis.

É inegável que houve grupos que foram prejudicados e é também inegável que esses fundos estão na imprensa internacional a fazer o seu trabalho, colocando esse género de notícias, tentando que essa discussão ganhe maior peso. A decisão do Novo Banco não foi uma decisão do governo. E não há no Governo nenhuma política de reversões. Houve uma alteração de concursos em casos pontuais ligados aos transportes públicos, numa opção política que era conhecida antes das eleições em processos que foram conduzidos de uma forma com a qual discordamos totalmente. Mas foram casos pontuais que estão a ser tratados.

Falou-se muito de consumo interno. E as exportações?

Vamos continuar a apostar de várias formas. Esta introdução da digitalização na indústria que está a ser discutida em Davos abre excelentes perspectivas para as exportações das empresas portuguesas. Quer nos sectores que são fornecedores dos grandes grupos, onde todo o processo de fabrico digitalizado vai ser uma realidade, mas também para os sectores tradicionais, a digitalização é muito importante porque lhes permite chegar directamente aos clientes com produtos mais adaptados àquilo que eles pretendem, logo valorizando os produtos. E essa é uma parte importante da estratégia de preparação das empresas para a internacionalização. Com isto estamos também a acelerar os fundos comunitários, quer os de apoio à internacionalização, quer os de apoio ao investimento que são essenciais para reforçar a capacidade das empresas para produzir e exportar mais.

Ainda assim, vestindo a pele de um empresário estrangeiro, olhando para as alterações introduzidas recentemente, apostaria em investir em Portugal mesmo apesar desse quadro de incerteza?

Obviamente apostaria em Portugal e penso que se está a criar um quadro mais estável a nível fiscal e na legislação. O que se quer criar também é confiança no país e abrir mais oportunidades de investimento, mas não só do tipo de investimento que tivemos nos últimos anos (principalmente imobiliário ou a compra de empresas já constituídas, ou seja, privatizações). Além disso, queremos investimento criador de emprego em actividades industriais, agricultura ou outros sectores, mas que criem empregos e mais capacidade de exportação. Quando os estrangeiros compram imobiliário estão a aproveitar boas oportunidades, estão a trazer rendimento aos detentores de imobiliário, mas estão a comprar algo já construído e isso não gera emprego. Quanto a alguns investimentos que agora estão a ter início, são diferentes pois reforçam a capacidade de produção e de exportação do país.

E haverá alguma medida fiscal adicional para atrair mais investimentos desse género?

Há um crédito fiscal já previsto no programa de Governo do Partido Socialista e que vai avançar. Além disso, há uma política de transferência de tecnologia e cooperação ao nível tecnológico que é importante. Os investimentos não querem apenas aproveitar mão-de-obra barata. Procuram mão-de-obra mais qualificada do que nos países em vias de desenvolvimento, ou seja, capacidade tecnológica ao nível de engenharia, capacidade de inovação no processo produtivo ligada a condições de produção com custos menores do que no centro da Europa. Portugal pode oferecer isto – não há muitos países que o façam – e está a ser visto como uma solução muito interessante. É por isso que temos uma política não de reduzir salários, mas de melhorar as condições tecnológicas e de colaboração com as universidades para que estes investimentos encontrem soluções competitivas. Foi isso que ontem [quarta-feira] vimos com a Altice. Temos o mesmo tipo de profissionais qualificados, mas em condições mais competitivas do que em países como Alemanha ou França.

Sexta-feira será entregue em Bruxelas o esboço de Orçamento do Estado para 2016. Já sublinhou tratar-se de um documento de contenção. Se o Governo não pretende baixar o rendimento das pessoas, o que significa essa contenção?

É um orçamento rigoroso e que repõe os rendimentos retirados durante o plano de ajustamento, mas ao mesmo tempo faz baixar o défice contribuindo para uma diminuição do endividamento. São objectivos realistas e por isso não será um orçamento expansionista. Muda a página da austeridade.

Mas em concreto onde se verifica essa contenção?

Não pretendo antecipar. Neste momento importa falar de Davos que vai debater o fim da austeridade. Quero sublinhar a política do actual Governo que aposta na digitalização da indústria e esse é o centro do debate em Davos. Será uma forma de chegar melhor aos clientes, fazer com que mais valores fiquem em Portugal em vez de trabalharem apenas com marcas que depois ficam com esses valores. O que queremos é que Portugal esteja na primeira linha desta revolução da indústria nos próximos anos e que Portugal entre nela a tempo e horas, ao contrário do passado noutras revoluções tecnológicas.


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