Deixem-no trabalhar… devagarinho

joao-abel-torres

«Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas.» e “Deixem-me trabalhar.” são duas das frases para memória futura, muito em particular para os que seguem o “catecismo” cavaquista, mas, curiosamente, colhem hoje mais redobrado interesse junto daqueles que, como eu, não são, definitivamente, seus discípulos.

A primeira verdade absoluta é um admirável exemplo de modéstia e de muito contida autoestima. Sem dúvida. Já a segunda asserção, além de menos franciscanamente humilde, nos dias que correm é uma verdadeira inspiração para toda a classe trabalhadora precária, mas, mais ainda, para a multidão de desempregados que a direita radical criou ou a que acrescentou fermento e que Cavaco tão isentamente patrocina e apadrinha.

Porém, a uma análise mais atenta, parece-me haver algo que cheira a queimado nestes dois, vamos dizer, “versículos do Evangelho, segundo Cavaco”.

Por outras palavras, suspeito haver aqui lugar a duas insanáveis contradições que convocam duas inevitáveis perguntas.

Primeiro, julgo mais que natural nos perguntarmos por que razão alguém tão seguro das suas convicções e tão certeiro nas suas tomadas de decisão precisa de ouvir toda a gente, e mais um par de botas, quando bastaria pedir conselho a si mesmo e ouvir-se a si próprio, do cimo da sua, alegadamente, inequívoca e indubitável omnisciência.

Além disso, e por isso mesmo, não se percebe o retiro de reflexão ZEN do 5 de outubro, já depois da astrológica previsão e abalizado estudo de todos os cenários de governação possíveis e imaginários.

Mesmo faltando ouvir três ranchos folclóricos, quatro ou cinco cagarras, o costureiro de Maria Cavaco Silva, dois mercados, uma feira e o emplastro, como entender o ruidoso silêncio presidencial? Está claro que não se pode.

Mas, para abreviar, deixemos o primeiro paradoxo e entremos já no segundo com outra pergunta que muito me intriga, na certeza de que muita gente me acompanhará no pensamento.

Então quem pedia, como Cavaco, que o deixassem trabalhar, no momento que mais o justifica e exige, aproveita para vir à Madeira passear de fragata, para conviver com a malta operária sua preferida e protegida, nomeadamente grandes empresários e representantes do patronato milionário, para tecer galantes loas à avantajada calibragem da banana da Madeira e para bocejar de tanto tédio, inércia, beija-mão e petiscos gourmet!!! Afinal, quem é que não o deixa trabalhar? Ou melhor, quem é que o obriga a essa maçada chamada férias ou a essa chatice chamada viagens à borla?

Só para poupá-lo a essa tortuosa via sacra, aproveito a oportunidade para lançar já aqui o desafio. Cá vai: se alguém sabe quem é que impede Cavaco Silva de “suar as estopinhas” chegue-se à frente. Caso contrário, investigue-se sem demora e apurem-se responsabilidades.

Às tantas, tudo muito bem averiguado, ainda se conclui que há aqui alegada influência da malta das greves, que nem trabalha, nem deixa trabalhar. Tenho mesmo cá para mim que o Arménio Carlos, o responsável pela regulação do Banco de Portugal, a rapaziada musculada do Sindicato dos Estivadores e o pessoal da Carris são, na certa, potenciais suspeitos, ninguém me tira da cabeça.

Vá lá, deixem-no trabalhar, mas sempre assim a duas velocidades, devagar e ainda mais  devagarinho. Verdade seja, Cavaco já não é nenhum jovem e não está para correrias. Correrias só quando há garantia de coelho à mesa!

 


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