
A direita radical, a mais extremista desde o 25 de Abril, no seu estafado argumentário contra a governação à esquerda alega a estranha e fraudulenta “colagem de um partido maior aos pequenos partidos”, e o mais curioso é que quem mais a contesta é, ironicamente, o “gigantesco” CDS, em modo “chihuahua” a escarnecer de um “basset”.
Entretanto, segundo a direita “à beira de um ataque de nervos”, a chamada “casa da democracia”, que se transformou em centro de negócios e tráfico de influências, passou agora a manhosa “secretaria”.
Curiosamente, entre outras obrigações já devidamente salvaguardadas nos acordos à esquerda, surgiu o humorístico argumento do risco de saída da Nato, sem dúvida a “questão essencial” que não deixa pregar olho um desempregado de longa duração, um empregado precário, um jovem empurrado para a emigração, um reformado a pão e água, enfim, um sem–abrigo que seja.
Nos cafés, nos transportes públicos, nas salas de espera de hospitais, das peixarias aos talhos, não se ouve falar de outra coisa, a não ser desse problema transversal que teima em atormentar qualquer português mais atento e preocupado com o futuro do seu país e das futuras gerações, se as houver… Nem mais, a Nato.
Avançando, Nato e ameaças de ocupação marciana à parte, valha-nos a palavra reconfortante e apaziguadora da senhora dona Maria Luís, que nos deu a sólida garantia de que temos os “cofres cheios” e, para prová-lo, caso houvesse sombra de contradição ou incoerência discursivas, decidiu, em conformidade, manter e prolongar as medidas de austeridade para 2016, porque, como muito solidariamente dizia o grande humanista da banca, Fernando Ulrich, o povo “Aguenta, aguenta!”.
Aliás, se quisermos fazer justiça à direita salvífica dos últimos quatro anos, salta até à vista de um cego que não seria nada difícil aguentar mais quatro anos desta governação milagreira, que nos colocou numa trajetória de crescimento económico fulgurante, com três orçamentos orgulhosamente violadores da Constituição, como é muito próprio de quem a jura salvaguardar e defender, com uma redução da dívida e do défice absolutamente espantosa (de acordo com “o golpe de vista” de Medina Carreira ou com as sobrancelhas austeras de José Gomes Ferreira), com as exportações no seu melhor, com a saúde de ferro da banca, com a reabilitação da salazarice mal disfarçada e os sempre bem-vindos tiques fascizóides, com a criação de mais 10% de milionários, com a isentíssima condecoração do costureiro de Maria Cavaco, com o enternecedor prémio de grande gestor ao impagável Zeinal Bava, com as beneméritas privatizações, em detrimento do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública e do Estado Social, em nome do neoliberalismo selvático, do medo dos humores de mercados e ratings, paraíso de agiotas e raposas da especulação.
Basicamente, o que verdadeiramente importa para os alinhados desta ideologia excel(ista) do cifrão e da insensibilidade social mais não é que reduzir os defensores das políticas de esquerda à condição de prisioneiros de consciência ou a reencarnações apocalípticas de Estaline e Lenine.
Recorde-se que, até ao trambolhão da coligação na Assembleia, o Parlamento era a “meca da democracia” para, depois da queda livre, passar a ser visto como uma espécie de campo de reeducação soviético.
Mas o mais doloroso, para não dizer excruciante, depois de tanta reflexão ZEN cavaquista e de consideradas todas as possibilidades, é que vai ser o Presidente de todos os portugueses, ou melhor, da direita radical, a dar posse a um governo tido por ‘ilegitimo’, ‘antidemocrático’, saído de um ‘golpe de Estado’, de ‘extrema-esquerda’, obrigando-se a sancionar a ação política de António Costa, mesmo que roendo unhas até ao sabugo!
Recuperemos, a propósito do atual choro e ranger de dentes da direita, as palavras de Morais Sarmento, essa incontornável “referência” da democracia, em declarações à Rádio Renascença: “Eu acho que o Presidente da República tem que exigir, significando isto recusar a posse ao partido mais votado, recusar, eventualmente, a posse a um governo ainda que encabeçado pelo líder do partido mais votado, qual ele seja, que não apresente ao Presidente da República uma solução com apoio maioritário na Assembleia da República”. Não, não foi António Costa quem o disse. Foi um insuspeito direitista. Como não apoiar tão sábias palavras e tão democrático pensamento?
Dito isto, e pesados os prós e contras, um mérito há que reconhecer a Cavaco e à coligação pàfista que o próprio apadrinhou desde a primeira hora, com uma estima só mesmo comparável à que o Presidente tem pelo bolo-rei. Cavaco, com o seu crispadíssimo e antidemocrático discurso de indigitação, unicamente aplaudido no país por Nuno Melo, um génio incompreendido, cometeu mesmo a proeza de unir toda a esquerda, viabilizando definitivamente um governo à esquerda. O segundo discurso, mais ansiolítico, foi acompanhado ao violino, mas já foi tarde. O leite já estava irremediavelmente derramado. A governação radicalizada, extremista, além da Troika, conseguiu, apesar das aselhices de campanha do PS, perder a maioria absoluta e o poder absolutista que absolutamente a condenou.
Além disso, a união das esquerdas deve muito à recusa sistemática de diálogo e soluções de compromisso com quem quer que fosse por parte da direita mais extremista dos últimos 40 anos, sustentada invariavelmente num arrogante autismo, militante prepotência e radicalização beata.
Por outras palavras, objetivamente, quem tramou Roger Rabbit foi o próprio Roger Rabbit e, isso sim, contrariamente a alguma retórica submarina e inconsequente, parece felizmente irrevogável.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





