O tripé

ricardo

Lá em casa havia um banco assente em três pés que todos conheciam pelo tripé.
Nas horas em que faltavam os assentos, puxava-se o tripé para o centro e alguém, normalmente o último a chegar, sentava-se aí. O tripé era recurso quando já não havia mais bancos ou cadeiras de quatro pés.
Mas o tripé era também uma solução arriscada. Sentar-se num tripé envolvia um ato de coragem. O tripé não dava garantias de um assento estável. A qualquer movimento, desequilibrava-se o assento e em algumas situações víamos deslizar para o chão quem ousava um rodar de quadris ou um esbracejar mais efusivo e descentrado.
Só os mais novos é que ainda acreditavam nas virtudes do tripé. Disputavam-no às vezes, na aventura da experiência. Os mais experientes sabiam que dali não se augurava bom assento nem a confiança de um bom momento.
A questão era ainda mais complicada quando alguém se atrevia a usar o tripé para alcançar alturas que a sua estatura não permita. Tirar uma caixa da prateleira mais alta, mudar a lâmpada fundida, limpar o alto do guarda-fato eram tarefas que exigiam alicerce e, às vezes, a pressa fazia puxar o tripé que estava ali mesmo à mão para o colocar debaixo dos pés. Aí o equilibrismo era a regra e tantas vezes à destreza dos braços estendidos se associava a incerteza da base e o esforço naturalmente duplicava.
O certo é que do tripé nunca se esperou grandes coisas.
Li os três documentos (que os subscritores não quiseram de titular como acordos) que sustentam a proposta do Dr. António Costa para o País. Não um texto único mas três papeis onde até a grafia é distinta. As assinaturas estão lá, mas o conteúdo esvai-se numa mão cheia de palavras vãs. Serviram para deitar abaixo um governo, mas não aguentam um novo governo. Têm a aparência da sustentabilidade mas são como o tripé só convencem os incautos ou os impreparados.
Um programa de governo rejeitado no acto eleitoral quer ser levado à prática, acrescentado de um rol de medidas avulsas e infiltradas de interesses corporativos, com base neste tripé. Se ele nem dá para começo muito menos para essa tarefa hercúlea de erguer um programa nesta fase tão complexa que o País está a viver! O momento que estamos a viver pede segurança nas medidas e esse é um capital que não podemos desmerecer.
Chico Buarque cantava, dirigindo-se a Portugal, nos distantes anos da década de setenta do século passado, que sabia que estávamos em “festa, pá”! Ontem vi a “festa, pá” nas ruas de Lisboa. Ressuscitaram os grândolas e os amanhãs que cantam.
Esqueceram-se foi de olhar para a base. É um tripé. Não dá nem para aquecer o assento!


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