Guilherme Silva aconselha “caloiros” do PSD-M em S. Bento: atentos e cooperantes, mas não subservientes

guilherme SilvaGuilherme Silva prepara-se para deixar as lides parlamentares, depois de 28 anos de política ativa. Na hora da despedida, o veterano do PSD-M na Assembleia da República mostra-se satisfeito com a experiência “enriquecedora e gratificante”. Sai sem mágoas nem arrependimentos, até porque concorda com a renovação implementada pela nova direção do partido.

Sara Madruga da Costa, Rubina Berardo e Paulo Neves são a nova geração que substitui o grupo de históricos, onde figuram também Hugo Velosa e Correia de Jesus.

Aos três colegas que, a 4 de outubro último, garantiram assento pela primeira vez em São Bento, Guilherme Silva aconselha atenção, cooperação e total disponibilidade no exercício do mandato. Mas sem subserviências nem protagonismos desnecessários para não prejudicar os interesses da Região.

Antecipando uma legislatura difícil e exigente, o exímio deputado refere que, num quadro de governo de minoria, oposição e coligação devem repartir responsabilidades e cedências. Nem o PS pode quebrar compromissos assumidos nem a coligação deverá colocar-se num pedestal, defende.

Funchal Notícias – Que conselhos ou dicas deixa aos colegas que vão substitui-lo em São Bento?

Guilherme Silva – Primeiro, defender com inteligência, mas com intransigência, a Madeira. Não ceder nas questões essenciais, observando contudo o princípio da lealdade para com o restante grupo parlamentar. Não deixar passar prazos e aproveitar timings. Em síntese, devem estar atentos mas não subservientes, cooperantes mas sem preterir os interesses da Região.

Segundo, procurar integrar as comissões parlamentares, sobretudo as de maior impacto nos destinos da Região, como sejam as do Orçamento e Finanças e dos Assuntos Europeus. Será também importante garantir presença na representação externa do parlamento, nomeadamente, junto da NATO.

Com esta presença efetiva e atuante ganha-se espaço, credibilidade e poder de negociação.

O terceiro aspeto prende-se com os relacionamentos pessoais. Há que assegurar a disponibilidade total para trabalhar em articulação com a direção do grupo parlamentar e sobretudo com o ministro que vier a tutelar as relações com as Regiões Autónomas.

Finalmente, no plano desse relacionamento, saber preservar a reserva de algumas questões, cujas negociações não deverão ser tratadas na praça pública. Principalmente, não ter a fraqueza de mostrar serviço à força, pressionados pelos jornais e pelo receio de serem ultrapassados pela oposição. É fundamental evitar protagonismos, porque o objetivo é resolver os problemas da Região. Será um trabalho muito difícil.

FN – Quais os principais desafios mais importantes que se colocam ao novo grupo nos próximos tempos?

GS – O Orçamento de Estado é o dossiê mais relevante para a Madeira. Podem colocar-se questões relativas ao subsídio de mobilidade e às condições do empréstimo que, perdurando para além do PAEF, serão eventualmente alvo de atualização e revisão.

FN – Como antecipa a atuação dos parlamentares do PSD-M na Assembleia da República, agora que contam com menos um deputado?

GS – Será uma legislatura difícil e exigente que vai reclamar a presença constante, quer no plenário, quer nas comissões.

Os deputados da maioria estão mais expostos porque pertencem ao partido do poder. No caso dos deputados da Madeira é fundamental a articulação permanente com o Governo Regional para que não haja atropelos. A sua atuação terá de ser sempre de cooperação, mas numa base de intervenção complementar ao trabalho do Executivo. Os excessos de voluntarismo podem, por vezes, prejudicar negociações em curso. Como disse, trata-se de um exercício difícil.

FN – E face ao cenário de maioria relativa?

GS – Tudo leva a crer num governo de minoria e em entendimentos parlamentares casuísticos, já que, nos próximos dez meses, não poderá haver dissolução do parlamento.

O grande problema que agora se coloca é o da assunção de responsabilidades. Dos partidos do poder e sobretudo do PS. Não pode haver divergências em matérias sensíveis, por exemplo, no âmbito dos compromissos financeiros internacionais. O objetivo será cumprir as metas e garantir a estabilidade junto dos mercados externos. Se tal não acontecer será um desastre. Trata-se de um terreno instável para o Partido Socialista.

FN – Só para o PS? Que papel terá então o governo e os partidos da maioria?

GS – É claro que a gestão dos próximos tempos implica cedências de parte a parte. A coligação não pode ficar no pedestal, intransigente. Há que saber ceder no acessório para garantir o essencial.

É claro que para se exigir do PS uma atitude cooperante é necessário permitir-lhe ter algumas conquistas. Falo, por exemplo, nas chamadas questões fraturantes.

FN – Depois de 28 anos de trabalho parlamentar, o que vai agora fazer em termos profissionais e pessoais?

GS – Vou continuar a exercer advocacia no meu gabinete. Vou aproveitar também para pôr as leituras em dia, e passar mais tempo com as netas e os amigos. Se calhar, vou ter mais disponibilidade para viajar.

FN –  Num breve balanço, arrepende-se de ter dedicado tantos anos à política?

GS – Não me arrependo de nada. Foi uma experiência gratificante e enriquecedora. Um deputado das regiões autónomas acaba por ter um quadro de intervenção diferente. Embora exigente é sempre mais rica que a dos restantes parlamentares. São os únicos a representarem um parlamento regional e a acompanharem diretamente a produção legislativa desse mesmo órgão.

FN – Considera que a sua saída ocorreu na hora certa ou estaria ainda disponível para mais um mandato?

GS – Tudo tem o seu tempo. A renovação era necessária. Houve quem defendesse uma solução intermédia, de passagem do testemunho. Mas não concordo. A experiência adquire-se.

A partir do momento em que o partido elegeu novos órgãos, estes são livres de optar e nós só temos de apoiar.