Doutorado Manuel Villaverde avisa: esta é das eleições mais complexas das últimas décadas

22/11/10, Lisboa - Manuel Villaverde Cabral, coordenador do instituto do envelhecimento (Diana Quintela / Global Imagens) © Proibido o uso editorial sem autorização da Global Notícias.  Esta fotografia não pode ser reproduzida por qualquer forma ou quaisquer meios electrónicos, mecânicos ou outros, incluindo fotocópia, gravação magnética ou qualquer processo de armanezamento ou sistema de recuperação de informação, sem prévia autorização escrita da Global Notícias.
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O Professor doutor Manuel Villaverde Cabral considera que o dia de hoje é decisivo para o país. Na opinião deste doutorado em História e uma longa carreira de professor universitário, com inúmeros títulos editados ligados à história e à sociologia, vive-se hoje, com estas Eleições Legislativas “um momento grave, possivelmente uma das eleições mais complexas do país nas últimas décadas”.
Do alto dos seus 75 anos de idade e com um curriculum extenso, que inclui uma militância inicial no Partido Comunista Português e uma vida académica intensa, passando pela fundação do Clube de Esquerda Liberal, considera que, a exemplo de outros políticos mundiais, primam pela falta de originalidade, sendo mesmo “incompetentes”. 

Num curto testemunho, este pensador de referência nacional traça o diagnóstico do país e as expetativas eleitorais que estão hoje em jogo.


Funchal Notícias – Como comenta a campanha que decorreu para as Eleições Legislativas?

Manuel Villaverde Cabral – Não achei a campanha pior do que as anteriores. Antes pelo contrário, houve melhoras, algumas graças à seriedade da própria situação do país, outras da parte de alguma comunicação social que forçou a discussão de temas inadiáveis dos quais os candidatos fogem porque as soluções não são populares, mas outra comunicação social, muito partidarizada contra o governo actual, prejudicou a clareza dos confrontos.  No conjunto, com as sondagens, também algo manipuladas, não acho que esta campanha tenha sido pior do que as anteriores, antes pelo contrário. Vamos ver como corre o dia de hoje!

villaverde 2FN – O que espera destas eleições?

MVC – Há dois tipos de expetativa: o meu, penso que é o da grande maioria dos eleitores, cruzando a Coligação e o próprio PS, isto é, estabilidade e governabilidade a fim de terminar o ajustamento e, se fosse possível, um entendimento entre os grandes partidos, uma reforma político-constitucional e uma reforma do Estado – administração e instituições. Mas é sonhar alto. Uma outra parte do país, minoritária na minha opinião mas mesmo assim significativa (digamos a extrema-esquerda desde o PCP até uma parte significativa do PS) quer o regresso à situação anterior à crise. Mas isso pode acontecer eleitoralmente amanhã à noite mas não acontecerá a médio-longo prazo. Se a esquerda chegar ao poder, em aliança com o PS de António Costa, será a instabilidade e, com a eleição do novo presidente, a realização de novas eleições, passando por uma possível cisão do PS. É portanto um momento grave, possivelmente uma das eleições mais complexas do país nas últimas décadas.

FN – Qual é a sua antevisão relativamente à abstenção, um dos grandes fenómenos dos últimos atos eleitorais?

MVC – A abstenção (mais os votos brancos e nulos, que são outra forma de rejeição da actual oferta partidária) será muito alta, não inferior a 40%, mas é impossível saber ao certo, pois o problema começa com os cadernos eleitorais que estão completamente desatualizados nos dois sentidos: votantes a mais (mortos) e a menos (não inscritos). É mais uma responsabilidade grave que os partidos assumiram há décadas e que não favorece de forma alguma a transparência eleitoral. Seja como for, quem não vota está sancionar, pelo menos amanhã à noite, a votação de domingo.

FN – Considera que esta casta de políticos perdeu a originalidade?

MVC – Não creio que os políticos portugueses sejam piores do que no estrangeiro do ponto de vista da «originalidade», mas em geral são bastante incompetentes. O que nos salvou nos últimos quatro anos foi a presença estrangeira que nos obrigou a limpar a casa e nos ensinou como é que se lida com as questões financeiras e parte da economia, mas no resto está quase tudo por fazer. Concretamente, os bancos portugueses estão todos tecnicamente falidos assim como as empresas públicas não privatizadas (e algumas das privatizadas também). Os sistemas de justiça e educação não funcionam; pior: reproduzem as disfunções. A administração pública tem de ser refeita, etc., etc… Avançou-se um bocadinho mas sem segurança para evitar o recuo de novo…