Igreja do Colégio tem mais um órgão de tubos; Sé encomenda outro

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FOTOS: Rui Marote

O antigo órgão da igreja do Colégio, restaurado pelo mestre organeiro Dinarte Machado, regressará ao activo num concerto a 15 de Outubro, integrado na 6ª edição do Festival de Órgão, que decorre na Madeira entre os dias 9 e 18 do próximo mês de Outubro.

O concerto de estreia será protagonizado pelo organista francês Olivier Latry, docente no Conservatório de Música de Paris e organista titular da catedral de Notre Dame, na capital francesa. Latry tocará no órgão principal (grande órgão). Mas há vários outros concertos a exigir o interesse do público, entre os quais o de Sérgio Silva e Élio Carneiro, tocando no órgão antigo e no grande órgão da Igreja do Colégio, num interessante ‘diálogo’ musical: um está situado na nave da igreja, outro no coro.

O antigo órgão do Colégio, destinado a acompanhar as missas, foi recuperado paulatinamente por Dinarte Machado, num trabalho que se prolongou por seis anos.

O Funchal Notícias entrevistou o mestre organeiro, presente na Madeira para preparar as coisas para o Festival que se avizinha, o qual sublinhou a mais-valia que este instrumento representa.

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“Trata-se de um órgão histórico de construção portuguesa, do último quartel do séc. XVIII, que foi adquirido pela Igreja do Colégio à Sé do Funchal, na altura em que a Sé, por seu turno, adquiriu o órgão inglês que lá está”, em finais do séc. XIX, explica. No tempo em que esteve na Sé, encontrava-se na nave lateral esquerda. Mais tarde, foi transposto para junto do coro alto, virado para a nave central. Nessa altura foi protegido por uma caixa maior, mas de muito má qualidade, conta o nosso interlocutor. Foi assim que foi vendido à Igreja do Colégio. Mas, não muito tempo depois de ter sido comprado, deixou de funcionar e, consequentemente, de ser utilizado.

A então Direcção Regional dos Assuntos Culturais resolveu empreender o restauro deste órgão, dado o seu valor patrimonial, no âmbito da recuperação de instrumentos realizada em múltiplas igrejas da Região, mesmo tendo sido encomendada a construção de um órgão novo (o actual grande órgão) da Igreja do Colégio.

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Veio-se a verificar que o velho órgão era de Machado de Cerveira, ou seja, “da época áurea da construção de órgãos em Portugal”, e que “vincula e marca uma escola que, aqui na Madeira, está representada no seu antecessor, em termos de modelo, um órgão tipicamente italiano que está no Convento de Santa Clara”, e pelo antecessor deste, um instrumento da segunda metade do séc. XVII, e que está na igreja matriz de Machico.

Machado de Cerveira, refere Dinarte Machado, marcou a organaria portuguesa da segunda metade do séc. XVIII, com o seu contemporâneo, Joaquim António Peres Fontanes, também representado na Madeira por um órgão que está ainda por restaurar, o da igreja da Calheta.

Estes dois construtores, só para se ter uma ideia da sua importância, estão representados nos seis órgãos da basílica do Palácio Nacional de Mafra. Três são da autoria de um, três da autoria de outro.

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Entretanto, Dinarte Machado adiantou um outro dado interessante: foi-lhe encomendada a construção de um órgão de coro para a Sé do Funchal, o qual não substituirá o instrumento actualmente lá existente e recuperado, mas complementá-lo-á, servindo essencialmente para as liturgias. Custará cerca de 80 mil euros, um encargo que será, aparentemente assumido apenas pela Diocese do Funchal, e deverá estar concluído em 2017, para as celebrações do quinto centenário da Diocese do Funchal.

“Em vez de ser um órgão eletrónico”, referiu o organeiro açoriano à nossa reportagem, “é um novo órgão que se vai construir, num projecto moderno, baseado em linhas que têm a ver com a estrutura interior da Sé”.

O actual órgão que está na Sé, e que foi recuperado há alguns anos, não foi mandado fazer, mas comprado de segunda mão. Trata-se de um órgão de Igreja Anglicana, vendido à Sé do Funchal.

Segundo os registos, o último órgão que a Sé adquiriu foi o de Machado de Cerveira que Dinarte Machado recuperou para a Igreja do Colégio; passado todo esse tempo, será curiosamente o mesmo organeiro a construir um novo instrumento propositadamente para a catedral madeirense.

O restauro do órgão de Machado de Cerveira, diz Dinarte, foi complexa, e para isso o organeiro teve de socorrer-se dos seus conhecimentos, e de investigação, inclusive pesquisando outros órgãos do mesmo construtor. Dinarte Machado divide a produção de Machado de Cerveira em três fases; o órgão entretanto restaurado pertence à primeira, afirma. Uma fase que tem a ver com a escola italiana.

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A pintura que se pode ver no antigo órgão da Igreja do Colégio foi realizada “à descoberta da pintura original”, a partir de “pequenos pedaços que a caixa indiciava”.

“Foi um processo muito demorado, até chegar a este ponto”, refere aquele que tem sido o responsável pelo restauro de todos os órgãos das igrejas da Madeira, empreendido pela DRAC já há anos.

Este instrumento, referiu o entrevistado, é fácil de tocar, e os organistas que habitualmente acompanham as missas não terão dificuldade em se adaptar ao mesmo, dada a sua função primordialmente utilitária, litúrgica.

Porém, o mesmo “possui potencialidades musicais muito boas”, realça.

O organeiro não se cansa de dizer que a saúde dos instrumentos passa, antes de mais, pela sua utilização. Insiste que os instrumentos devem ser tocados, devem ‘manter-se em movimento’, digamos, cumprindo assim o fim para que foram construídos. É como um carro que permanece sempre numa garagem, sem nunca andar; dificilmente um mecânico poderia responsabilizar-se pelo seu bom andamento, mesmo após fazer-lhe uma revisão. “Um carro tem que andar, para que um mecânico se sinta à vontade para recuperar e fazer uma revisão, àquilo que é o seu desgaste próprio. Nos órgãos é a mesma coisa”.

Dinarte Machado espera, pois, que o novo Governo Regional continue a realizar eventos organísticos com regularidade suficiente para fazer tocar os órgãos restaurados na Madeira.

“O Festival de Órgão é, como sabem, um cartaz internacional, neste momento, conhecido em toda a Europa e em alguns sítíos dos EUA, por onde tenho passado”, afiança. “É um festival que já tem a sua fama”, e que já trouxe à Região nomes sonantes como Ton Koopman (e que trará, agora, nomes como Olivier Latry ou Lorenzo Ghielmi, entre outros).

Porém, não cativa apenas os turistas: tem colhido muito interesse entre os próprios madeirenses, que se deixam seduzir pelos sons harmoniosos dos órgãos de tubos.

“Isto para mim é muitíssimo mais importante, pois trata-se do contexto cultural do povo madeirense”, sublinha.

“Não me dedico só ao restauro de órgãos”, insiste, “mas ao que eles vão fazer a seguir. E, nesse sentido, o Festival de Órgão é uma parcela importante que eu ajudei a criar, e que tenho muito orgulho que tenha chegado ao patamar que chegou”, congratula-se.

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O Festival é também um grande incentivo, afirma, para os jovens músicos madeirenses que se querem tornar organistas. Infelizmente, lamenta, trata-se de um evento que está sozinho no calendário cultural anual: não há outros concertos de órgão durante o ano, e deviam, inequivocamente, haver. É que é possível atrair para a Madeira organistas de grande qualidade, aliciando-os com a atracção turística que constitui, desde logo, uma grande mais valia da RAM.

“Há muitas localidades a nível nacional que nunca vão conseguir ter intérpretes como Ton Koopman ou Olivier Latry”, conclui.