Salvador Allende morreu há 42 anos

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O premiado escritor chileno Luís Sepúlveda bem o recordou, amargurado, em muitos dos seus livros: a 11 de Setembro, há 42 anos, perecia na capital, Santiago, o 45º presidente do Chile, Salvador Allende. Exerceu funções entre 4 de Novembro de 1970 e Setembro de 1973 e foi sucedido por um criminoso de má memória, que, apesar dos esforços desenvolvidos para o fazer responder perante a justiça pelos seus crimes, morreria impune: Augusto Pinochet Ugarte.

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Guarda do Palácio de La Moneda

Salvador Isabelino del Sagrado Corazón de Jesús Allende Gossens foi fundador do Partido Socialista do Chile. A sua peculiaridade, e que ditou a sua desgraça, foi ter sido o primeiro chefe de Estado marxista eleito democraticamente na América. Fortemente influenciado pelos ideais do socialismo, do marxismo e da maçonaria, Salvador Allende acreditou que era possível realizar as mudanças revolucionárias que entendia necessárias sem ditadura do proletariado, nem derramamento de sangue: era um firme crente na democracia representativa e achava que era possível prosseguir uma via de socialismo progressista dentro das regras democráticas que se viviam no Chile à altura da sua ascensão ao poder.

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Contou, porém, com o apoio económico, político e militar da União Soviética, que incluiu crédito de mais de cem milhões de dólares. Viviam-se então os tempos da Guerra Fria, e a relutância de Allende em usar todos os métodos à sua disposição, nomeadamente a perseguição dos inimigos políticos, para esmagar os seus oponentes e consolidar o seu poder terá, efectivamente, ditado a sua perda.

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Mausoléu a Salvador Allende

As nacionalizações a que procedeu desagradaram fortemente a influentes corporações norte-americanas, que pressionaram o então presidente norte-americano, Richard Nixon, a apoiar os inimigos de Allende. A CIA já gizara, em 1970, um plano com o objectivo de impedir Salvador Allende de chegar à presidência. Tal plano falhara, e Allende vencera por uma margem de 39 mil votos, em três milhões.
A CIA fomentou toda uma série de desestabilizações internas da economia do Chile, apoiando, inclusive, assassinatos de determinadas figuras-chave, como o chefe das Forças Armadas chilenas, o general René Schneider.

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O governo de Nixon acabou por submeter o Chile a um bloqueio económico de natureza informal, mas que impedia o país de obter preços razoáveis para o seu principal produto de exportação, o cobre.
A CIA promoveu ainda greves, como a de proprietários de empresas de camionagem, sabotando ainda as indústrias chilenas de diversas maneiras, o que provocou um clima de oposição extremista entre movimentos fundamentalistas de esquerda e direita. A inflação disparou, o PIB desceu e, após uma primeira tentativa de golpe militar pelas forças da direita, o general Pinochet, caricatamente um antigo homem da confiança de Allende, que substituiu o general Prats na chefia suprema das Forças Armadas, acabou a 11 de Setembro de 1973 com a democracia naquele país da América Latina. Prats foi assassinado pela polícia secreta de Pinochet, em Buenos Aires.

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Allende suicidou-se no Palácio de La Moneda, sujeito a cerco pelas tropas sob o comando de Pinochet, no decorrer do golpe de Estado, ao qual preferiu não se render.
Inicialmente, foi atirado para uma vala comum, num caixão com as iniciais NN. Quando a ditadura de Pinochet terminou, foi enterrado com honras militares no Cemitério Geral de Santiago.
Assim terminava uma presidência de esquerda democrática no Chile, que tanto incomodara os interesses norte-americanos.

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Uma curiosidade: o embaixador de Portugal no Chile, à data da morte de Allende, era Armando Castro Abreu, um madeirense que fez a instrução primária em Gaula. Em sua homenagem há uma rua em Gaula, Santa Cruz.