Filha do ‘Feiticeiro da Calheta’ hoje na inauguração de exposição no Turismo

Maria de Jesus é a filha do Feiticeiro da Calheta
Maria de Jesus é a filha do Feiticeiro da Calheta

Maria de Jesus Gomes de Sousa Agrela, filha do chamado ‘Feiticeiro da Calheta’, João Gomes de Sousa, estará hoje na inauguração, no Funchal, de uma exposição no espaço Infoart da Secretaria Regional da Economia, Turismo e Cultura.

A mostra, que ficará patente ao público até 6 de Setembro,  aborda a primeira Festa da Vindima, realizada nos anos 30 do século XX, e é da responsabilidade de Eugénio Perregil. Inclui uma homenagem ao padre Laurindo Leal Pestana, o mentor da primeira Festa da Vindima, benemérito da Escola de Artes e Ofícios. 

João Gomes de Sousa é um dos dois ‘feiticeiros’ mais conhecidos da ilha da Madeira, sendo o outro o famoso ‘Feiticeiro do Norte’, Manuel Gonçalves (1858-1927).

Como o seu congénere mais antigo, João Gomes de Sousa (1895-1974) foi um homem do povo, humilde e trabalhador, que se notabilizou como poeta popular, intérprete de quadras ao gosto do povo. Em 1938, altura da primeira Festa das Vindimas no Funchal, era já apreciado pelas suas qualidades de versejador. As suas quadras foram publicadas entre 1946 e 1961, mas o que o torna verdadeiramente digno de nota é ter sido, na realidade, o criador dos versos que deram origem, mais tarde, ao conhecidíssimo Bailinho da Madeira, que Max celebrizou.

Com Rui Camacho, dos Xarabanda
Com Rui Camacho, dos Xarabanda

O Feiticeiro da Calheta era analfabeto, mas nem por isso deixava de dominar a arte de fascinar os outros através da palavra, na melhor tradição da oralidade popular. Onde actuava, formavam-se grupos à sua volta. Ao contrário de Manuel Gonçalves, o Feiticeiro do Norte, que era mais crítico das circunstâncias políticas e do exercício do poder, como o fez notar o historiador Alberto Vieira, o Feiticeiro da Calheta era um “acérrimo defensor do Estado Novo”, tendo inclusive elogiado as figuras gradas do regime, no qual verdadeiramente acreditava.

No entanto, foi um atento observador das transformações e acontecimentos que presenciou na sua época, relatando-os de uma forma que muito interessava o povo e que transcendia, mesmo, o interesse das pessoas mais humildes, para cativar o interesse de uma faixa da população mais bem estabelecida na vida e na sociedade.

“As suas histórias, contadas e escritas em verso, são um testemunho das emoções populares e da opinião rural que acompanha o devir dos acontecimentos, pois tanto valoriza os acontecimentos que marcam o dia-a-dia do povo, como aqueles que marcam a agenda política do meio urbano. É um jornal, quase diário do quotiodiano do povo do campo, mas muito atento a tudo o que se passa na cidade”, escreveu Alberto Vieira a respeito de João Gomes de Sousa.

A origem do Bailinho da Madeira está nuns versos que João Gomes de Sousa cantou em 1938, na primeira Festa das Vindimas do Funchal, ao passar frente à tribuna do Governador da Madeira: “Deixai passar/ esta nossa brincadeira/ que nós vamos cumprimentar/ o governo da Madeira”, e “Eu venho de lá tão longe/ venho sempre à beira-mar/ trago aqui estas coivinhas/ para amanhã o seu jantar”, entre outros.

capa do livro coordenado por Eugénio Perregil
capa do livro coordenado por Eugénio Perregil

Entre 1938 e 1955, teve uma parceria com Manuel Baeta de Castro, avô daquele que mais tarde seria o presidente da Câmara Municipal da  Calheta. Baeta escrevia-lhe versos, que o Feiticeiro da Calheta interpretava.

Mais tarde, essa autoria passou a ser de sua filha Maria de Jesus, precisamente aquela que hoje estará, pelas 17h45, na exposição do espaço Infoart, na Secretaria do Turismo, e que reside presentemente na Venezuela.

Eugénio Perregil, autor da exposição, foi também o coordenador de um livro recentemente apresentado sobre José Gomes de Sousa , intitulado, precisamente, ‘Vida e Obra do Feiticeiro da Calheta’.

Esta constitui, sem dúvida, uma oportunidade interessante de conhecer mais sobre um dos nossos poetas populares de maior destaque. O Feiticeiro da Calheta viveu e morreu pobre, mas deixou um legado de simpatia nas gentes pelo registo oral que fazia do que ia vendo acontecer, e pela maneira curiosa e atraente como o relatava.

Sobre estes ‘feiticeiros’, que encantavam o povo com os seus versos, escreveu o académico madeirense José Eduardo Franco, docente na Universidade de Lisboa: “0s feiticeiros são uma espécie de profetas cantantes que realizam, de forma por vezes engraçada e brincalhona, outras vezes sarcástica, uma espécie de exorcismo crítico dos vícios e tecem o louvor das virtudes, dando ideias e apontando caminhos de regeneração pessoal e social.

Entre essas famosas figuras destacaram-se na Madeira duas personalidades ímpares: o feiticeiro do Norte, mais antigo, e o feiticeiro da Calheta, o mais novo. Estes, quais António Aleixos madeirenses, deixaram uma marca no imaginário e na criação da poesia de cordel e da música popular. Algumas destas produções e intervenções revelaram-se pioneiras e foram fundadoras de tradições festivas e até de produções poéticas e musicais emblemáticas, que seriam depois reaproveitadas e amplificadas por figuras que ganharam renome a nível nacional e internacional”.