SESARAM: de “melhor” a caótico

h_sampaio

Durante anos a propaganda jardinista erigiu o serviço regional de saúde como o “melhor” do país.

Tratou-se, tal como se verificou em tantos outros domínios e áreas, de uma tentativa de fazer passar a ideia de que na RAM a obra realizada possuía a marca da excelência, embora, como se tem vindo a constatar, tudo não passasse de uma falácia ou, como está agora na moda, de um mito urbano.

Há, porém, ainda quem, como se pôde constatar há tempos neste espaço online, tendo tido as maiores responsabilidades no estado a que tudo isto chegou, continue a expressar-se como se, no que à saúde diz respeito, vivêssemos no melhor dos mundos, numa espécie de paraíso na terra.

É, com efeito, do domínio do patético, referir que (e cito): “A produção clínica nos serviços públicos, entre 2005 e 2015, e os indicadores de saúde para o período em referência, ilustram que, na década passada, o Jardinismo não destruiu o Serviço Regional de Saúde. Muito ao invés, produziu ganhos em saúde, relevantes para a população” (fim de citação) – enfim, para quem afirma estar à espera de uma vaga de fundo, “em cada cidade e em cada aldeia” que apoie uma candidatura presidencial anti-regime, há que ter condescendência, afinal também o ministro da informação do Iraque de Saddam Hussein afirmava que estava tudo sob controle, já com os americanos às portas de Bagdad.

Mas, gostemos ou não do que vamos sabendo, há os factos, os números e eles não mentem.

Sem sermos exaustivos atente-se no que, ao longo dos anos mais recentes, tem vindo a ser tornado público, não só pelo próprio Sesaram, mas também pelo respectivo Serviço Nacional de Saúde e pela base de dados Pordata:

– em Março de 2011, um total de 11.974 utentes estavam inscritos nas listas de espera para cirurgias do Sesaram e, em Novembro de 2014, 3 anos e 8 meses depois, esse número havia subido para 17.400 doentes, tendo em Junho deste ano atingido os 18.200, havendo, inclusive, quem esteja há 15 anos à espera de ser operado;

– por sua vez, no final de 2014, havia 29 mil doentes à espera de uma consulta hospitalar na Madeira, um número que deve ter também aumentado, em resultado de, nos primeiros 5 meses de 2015, terem sido realizadas menos aproximadamente 7 mil consultas do que em idêntico período de 2014;

– simultaneamente, sabe-se que a Madeira continua, há largo tempo, a registar a pior média diária de cirurgias do País (até nos Açores e no Alentejo a produção cirúrgica é superior), sendo que, segundo dados referentes a 2012, na Madeira essa produção está 60% abaixo da produção ao nível do SNS;

– sabe-se igualmente que, na média global de todas as especialidades cirúrgicas, os utentes do Sesaram esperam em média 3 anos por uma cirurgia, enquanto que os do SNS esperaram em 2012, em média, 3 meses para serem operados;

– sabe-se ainda que o tempo médio que os madeirenses esperam por uma consulta de especialidade no Hospital Central do Funchal é superior ao registado nos hospitais do SNS.

A propósito de todos estes indicadores que colocam a Região muito mal na fotografia no que concerne à saúde, refira-se que em Março de 2011, quando havia 12 mil doentes (cerca de 5% da respectiva população) à espera de cirurgia no Sesaram , o secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos – um Sindicato que, por sinal no momento, é liderado por um médico que já foi deputado do PSD na Assembleia da República- não teve dúvidas em classificar a realidade na Madeira de “absolutamente caótica e dramática”, tendo acrescentado “não conhecer, nos serviços de saúde dos países da Europa Ocidental, uma tão elevada taxa de doentes à espera de uma cirurgia”. Agora, 4 anos depois, quando o número dos que (des)esperam por uma cirurgia corresponde, grosso modo, a mais de 7% da sua população, como se deve adjectivar tudo isto?!.

Não por acaso os novos/velhos responsáveis já reconheceram que serão precisos, pelo menos, 10 anos para conseguir proceder à sua completa recuperação. Nesse entretanto, quantos não terão já falecido, antes de terem acesso à respectiva cirurgia?!

E o que é pior é que nada garante que esta “caótica e dramática” realidade não tenha tendência para se agravar. É que, por exemplo, em Fevereiro passado, e desde que a estatística passou a ser publicamente divulgada, nunca a produtividade no Bloco Operatório do Hospital Central do Funchal foi tão baixa (nos 2 primeiros meses deste ano realizaram-se menos 5 intervenções diárias, se considerados todos os dias úteis, fins-de-semana e feriados). Tanto mais que, por cá, ao contrário do que sucede desde 2004 a nível nacional, os utentes do Sesaram também não dispõem do SIGIC (Sistema Informático de Gestão de Inscritos para Cirurgia), que permite ao doente saber antecipadamente o tempo de espera para ser operado, após o que, sendo ultrapassado, lhe garante o acesso a um “cheque” para ser operado noutro hospital ou num serviço privado contratado.

É sabido, parafraseando o velho ditado popular, segundo o qual “sem ovos, não se fazem omoletes”, que um dos grandes problemas com que se debate o Sesaram e que contribui decisivamente para tão grave, quanto preocupante situação em matéria de produção cirúrgica tem que ver com a falta de pessoal, designadamente de médicos anestesistas, mas não só, até porque o demissionário secretário regional da saúde chegou a assumir que o sistema regional necessita de mais de 80 médicos de medicina geral e familiar.

Um problema para o qual o poder político regional nunca foi capaz de encontrar respostas adequadas, sendo, por conseguinte, um dos principais responsáveis.

Carências que, contudo, se estenderam, designadamente nos últimos anos, a todas as áreas, ao ponto de no serviço de saúde regional já ter faltado um pouco de tudo: desde luvas, a máscaras, a pensos, a medicamentos, etc,etc, até papel higiénico. As avarias nos equipamentos e nos aparelhos foram e têm sido também mais do que muitas, naturalmente com consequências para os próprios utentes, nomeadamente fazendo atrasar a realização de exames prescritos. E como se o quadro não fosse já demasiado negro, eis que o Centro Hospitalar do Funchal detém também o valor mais elevado do país em matéria de infecções hospitalares.

Carências que estiveram e estão intimamente associadas aos graves problemas financeiros por que passa a Região, em resultado do descalabro provocado por uma governação irresponsável que deixou como legado uma dívida colossal que tem condicionado o seu presente e condicionará certamente o seu futuro e que atingiu dramaticamente muitos e muitas madeirenses e porto-santenses.

Não são, porém, apenas “razões financeiras” que impediram que a agora praticamente consensual necessidade de um novo hospital se tivesse concretizado.

Com efeito, há que não esquecer que esse processo se iniciou ainda na parte final dos anos 90 do século passado e que, no início deste século, para contornar a chamada lei do endividamento zero, a Região recorreu às Sociedades de Desenvolvimento que fizeram disparar a respectiva dívida. Por isso, nessa altura, o que faltou foi vontade política. Definição de prioridades. Isto é, a aposta na construção de um novo hospital foi colocada no rabo-da-lancha. Preferiu-se espatifar uma receita estimada de 23.000 milhões de euros (entre 2000 e 2012) em inúmeras obras inúteis, em megalomanias, como as tais “piscinas sumptuosas”, a que o auto-intitulado “único importante” agora alude. É que bastaria aplicar uma ínfima percentagem daquele montante para que o novo hospital se tivesse tornado uma realidade. Prevaleceram outras prioridades, quiçá porque se “o povo não come cultura” como em tempos apregoou, também não come saúde.

Não tendo sido construído em tempo de “vacas gordas” nada garante que o venha a ser no curto prazo. Proclamar, como fez no Chão da Lagoa, o líder do PSD e ainda primeiro-ministro que vai “fazer das tripas coração” vale o mesmo que eu dizer que vou fazer tudo para ganhar o euromilhões. O mesmo se deve dizer a propósito do que está escrito no programa de governo da coligação PSD/CDS. Uma vez que referir, “promover a reavaliação das prioridades na construção ou ampliação de hospitais”, constitui uma espécie de conversa da carochinha. Quem quiser passar por lorpa, que o faça. Mas, depois não se queixe.

Apetece-me, por isso, terminar, parafraseando Gil Canha, que em tempos foi forçado a suspender a colaboração no auto-intitulado “independente” cá do burgo, porque concluía os seus textos com um post- scriptum: “a Madeira tem os portos mais caros do país – agradeça ao dr. Jardim”. Ou seja, se a Região não tem um novo hospital, o principal responsável é o dito cujo.

*texto escrito de acordo com a antiga ortografia