Sérgio Marques anuncia imagem renovada a 1 de setembro e custo de capa de 70 cêntimos para salvar JM

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O Jornal da Madeira vai apresentar-se no dia 1 de setembro com nova imagem, conteúdos renovados e, ao que tudo indica, já com nova direção. A partir desse dia, deixará de ser distribuído gratuitamente e passará a ter um preço de capa de 70 cêntimos, o mesmo que o do matutino concorrente.

Sérgio Marques, o secretário que detém o dossiê da empresa detida pelo Governo Regional na sua quase totalidade, levanta a ponta do véu relativamente ao que está para mudar na vida do Jornal e garante que o novo produto vai surpreender pela positiva.

Quanto a custos e outros números envolvidos no processo de reestruturação em curso, o governante deixou para momento “oportuno” a divulgação desses dados, mas sempre foi dizendo que até ao final de 2016 será  ainda necessário um esforço dos contribuintes na ordem de 1 milhão de euros para cobrir os custos de exploração da empresa.

Trata-se praticamente de uma última oportunidade para tornar o JM mais competitivo e apetecível aos olhos dos potenciais investidores, porque a opção do Governo é mesmo alienar a parte da Região no capital da empresa.

Até ao momento, há apenas conversações e troca de informações, inclusive com um grupo nacional ligado à comunicação social. Nada de concreto, mas Sérgio Marques está otimista e, mesmo que não jure sobre o sucesso do novo matutino – tal dependerá da aceitação dos leitores -, acredita que lá para finais do próximo ano a empresa já estará em condições de passar para as mãos de privados.

No entanto, colada aos cofres da Região ficará a imensa dívida de 52 milhões de euros, herdada da era jardinista. 

Em entrevista ao FN, o secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Europeus está consciente de que há bem pouca margem de manobra neste derradeiro recurso para salvar o JM. É o tudo ou nada. “Temos de ter um produto que valha o preço de capa”.

SERGIO ENTREVISTA 026

Funchal Notícias – O que vai acontecer a 1 de setembro?

Sérgio Marques – O que eu posso adiantar é que, nessa data, vai aparecer um produto bastante diferente, mais atrativo, que irá, certamente, ser do gosto da maioria dos madeirenses. Acho que vamos ter um bom produto que estará ao nível dos melhores diários nacionais e aproveito para convidar todas as pessoas a comprarem o Jornal da Madeira no dia 1 de setembro. A partir deste dia, será pago e terá um preço de capa de 70 cêntimos. Acho que valerá bem o dinheiro.

FN – Quando fala em produto diferente está a referir-se a uma nova imagem gráfica?

SM – Sim, e também a conteúdos completamente renovados, diferentes.

FN – Tendo em conta que um dos aspetos da reestruturação do JM passa pela redução de pessoal, é possível conseguir esse objetivo, ou seja, fazer um novo produto com menos gente?

SM – É verdade. Apesar de termos menos efetivos, nomeadamente na redação, vamos conseguir fazer um produto bem melhor do que temos atualmente. Nem pode ser de outra forma, até porque as pessoas não iriam dar 70 cêntimos. Portanto, temos de ter um produto que valha o preço de capa. Foi esse o grande objetivo das mudanças que estão a ocorrer, quer em termos gráficos, quer em termos de conteúdos, e que estarão à vista no primeiro dia de setembro.

FN – Concretamente, o que pretende o Governo Regional em relação ao Jornal? Quer revitalizar e mantê-lo ou alienar? Ou serão estas mudanças meras operações de cosmética para atrair potenciais investidores?

SM – Tudo o que estamos a fazer é no sentido de tornar o Jornal da Madeira mais atrativo de modo a que consiga suscitar o interesse de investidores privados. O nosso objetivo é privatizar o Jornal, é vender a participação do Governo na Empresa Jornal da Madeira.

Como sempre dissemos, desde que tomámos posse, o Governo Regional não tem vocação para deter participações sociais em órgãos de comunicação social. Não é essa a função do Governo, a de concorrer no mercado com outros títulos.

FN – Podemos inferir que esta reestruturação será uma última tentativa de investir no JM, embora para o próximo ano esteja já garantida uma transferência de 1,1 milhões, o que é ainda significativo. E se não resultar?

SM – Não vamos, para já, sofrer por antecipação. A questão é esta: no máximo do esforço dos contribuintes, já estivemos acima dos 3 milhões de euros. No próximo ano, estamos a fazer tudo para que a comparticipação oficial esteja abaixo de 1 milhão. Se as coisas correrem bem, se o novo Jornal que sair a 1 de setembro tiver aceitação dos madeirenses, até poderemos fazer com que esse valor seja inferior. Mas, de facto, a nossa previsão é de que ainda seja necessário um esforço dos contribuintes próximo de 1 milhão de euros para cobrir os custos de exploração do JM no próximo ano.

Acho que no final de 2016 teremos um jornal pronto para ser privatizado e com a reestruturação concluída, reunindo-se as condições para que o Governo Regional possa ceder a sua participação.

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FN – Acredita na viabilidade da Empresa Jornal da Madeira?

SM – Só o futuro o dirá. Não lhe posso garantir isso. Vai depender da aceitação que tiver. Eu gostaria muito que fosse viável para mantermos um mercado onde haja mais concorrência, mais notícias e que exprima pluralismo, que é um dos valores fundamentais que o Governo quer defender.

FN – Não concorda então com a crítica de que o Governo Regional está a desinvestir para que o Jornal entre em processo de “morte lenta”?

SM – Pelo contrário, estamos fazer tudo o que nos é possível para salvaguardar a existência de um segundo título da imprensa escrita no mercado da Região. Não há crítica mais injusta do que essa. Ele estaria condenado a desaparecer, garanto-lhe, era se se mantivesse nas condições em que tem funcionado até agora. Fruto do trabalho que estamos a desenvolver, estamos a dar uma oportunidade de o Jornal sobreviver.

FN – Uma mensagem de esperança que quer deixar às pessoas que lá trabalham.

SM – Sem dúvida. Um dos objetivos que nos move, para além de manter o pluralismo, é salvaguardar o máximo de postos de trabalho na empresa.

FN – Sabemos que o senhor secretário já reuniu com o empresário Avelino Farinha que demonstrou interesse em adquirir o alvará da Rádio Jornal da Madeira. Há mais interessados? Em que ponto estão as negociações? Há propostas concretas neste momento?

SM – Apesar de estarmos a cem por cento embrenhados no processo de reestruturação empresarial, mas também de conteúdos e da imagem gráfica, já tivemos alguns contactos com um investidor que manifestou interesse na aquisição do global da empresa. Estamos ainda numa fase muito embrionária. Não temos ainda negociações, há apenas troca de informações. Pediram-nos dados dobre a empresa e nós também pedimos informação para avaliar a idoneidade desse grupo.

FN – É nacional, da área da comunicação social?

SM – Sim.

FN – Pode adiantar o nome?

SM – Não queria quebrar o compromisso estabelecido com o próprio investidor. Não faria sentido divulgar a identidade desse grupo económico.

FN – Em relação à rádio, a mais apetecida, há condições, por exemplo, quem quiser o alvará terá de ficar com toda a empresa?

SM – Não há essa condição. Estamos também a avaliar o que fazer com o alvará da rádio. Achamos que poderemos vendê-lo isoladamente ou no conjunto. Tudo dependerá das propostas que recebermos. Em relação à rádio temos, de facto, recebido manifestações de interesse, mais do que em relação ao título.

SERGIO ENTREVISTA 024

FN – A reestruturação, conforme anunciado, passa igualmente pela redução de pessoal e de salários. Como está a decorrer a fase das rescisões de contrato por mútuo acordo iniciada em julho? Qual é o balanço?

SM – Estamos na fase final. O nosso objetivo é uma redução de 24 efetivos. O número de acordos que já estabelecemos está muito próximo dessa meta. O processo está a decorrer muito bem, sem perturbar a estabilidade da empresa. Oportunamente serão anunciados os números exatos do processo de redução de efetivos.

FN – Em relação à direção do JM, confirma-se a substituição de Henrique Correia por Marsílio Aguiar no cargo de diretor? Será também a 1 de setembro?

SM – Nesse dia, teremos novidades. Apenas posso dizer que haverá mudanças e elas serão muito visíveis e notórias com o novo jornal que iremos lançar.

FN – Reportando-se ao passado recente, qual foi o principal problema encontrado quando pegaram nesta “noiva”, bastante cara, herdada do regime do dr. Alberto João Jardim?

SM – Sim, trata-se com efeito de uma noiva muito cara que custou aos contribuintes, só em dívida, 52 milhões de euros, montante que já faz parte da dívida pública regional, uma vez que o Jornal da Madeira englobou o perímetro da administração pública. Essa dívida teve de ser assumida pela Região.

Esta administração está a fazer um excelente trabalho. Teve de lidar com toda uma herança que recebeu, a qual não vou qualificar, e teve de enfrentar muitos problemas. Este processo de reestruturação tem significado alterações em diversos campos, ao nível da gestão e dos próprios conteúdos editorais do JM.

FN – Perante o cenário, chegou já em pensar abandonar o dossiê Jornal da Madeira?

SM – Não, de todo. As dificuldades dão-nos alento e determinação.

FN – De que forma está a Diocese, detentora de uma parte residual do matutino, envolvida no processo?

SM – Tem havido contactos intensos com a Diocese e as coisas têm corrido, até hoje, muito bem. É só o que lhe posso dizer.

FN – O dr. Jardim referiu, em entrevista ao Funchal Notícias, que o Jornal da Madeira havia censurado a publicação de um artigo. Falou em “acerto de contas” da parte da administração, embora tenha salvaguardado o seu nome. O que se passou? Já esclareceu esse assunto com o próprio dr. Jardim?

SM – Não falei com ele sobre isso nem sei a que se refere. Não acho que tenha fundamento. O JM está aberto a todos aqueles que com ele queiram colaborar, desde que esteja de acordo com a política editorial e a nova direção veja interesse nisso.