O líder regional do PS, Carlos Pereira bateu o pé ao Largo do Rato e, em vez de Bernardo Trindade, -como pretendia Lisboa- é ele que lidera a lista pelo Círculo da Madeira.Em entrevista ao Funchal Notícias, Carlos Pereira fala, entre outras palavras-chave, de credibilidade, mobilização, consistência, paciência, determinação e coerência.
Funchal Notícias: “Responsabilidade e confiança” foi o lema da sua moção de estratégia global. Porquê essas duas palavras?
Carlos Pereira: Temos de ser capazes de oferecer confiança aos cidadãos. Para isso é preciso interpretar bem os anseios, as vontades e as dificuldades da população. Devemos fazer isso com enorme sentido de responsabilidade colocando o bem comum e o serviço público sempre em primeiro lugar. Um partido como o PS-M deve se assumir sempre como alternativa e para isso tem que saber construir um património de confiança inabalável. Só com uma prática de responsabilidade sistemática em tudo o que envolve a vida do partido e as suas intervenções públicas é que é possível assegurar esse desiderato. Para assegurar estes vértices principais no futuro do PS-M, urge abrir o partido e credibilizar a sua intervenção com personalidades que encarem e reflictam o caminho distinto das nossas opções e a credibilidade das nossas propostas. Por outro lado, é fundamental reforçar a mobilização dos militantes em torno deste caminho que será feito com paciência mas de forma consistente, procurando envolver com determinação todos na vida política e nas opções a apresentar aos madeirenses. Ora, em síntese, a confiança dos cidadãos é o factor chave para o sucesso do PS-M, a responsabilidade nas opções, nas propostas e na grandeza de colocar o interesse da Madeira em primeiro lugar é um garante dessa confiança e as pessoas são a nossa mais valia, entre militantes e independentes que construirão uma solução responsável que gerará a confiança nos eleitores da Madeira e Porto Santo.
FN: O ex-líder do PS-M, Mota Torres teceu críticas à sua proposta de criação do ‘conselho estratégico’ aberto a independentes provavelmente temendo uma espécie de ‘cavalo de tróia’ nos órgãos internos do partido. Como comenta?C.P.:O camarada Mota Torres, a par de outros, é um daqueles militantes ilustres, um senador imprescindível e fundamental para a vida do partido e para aquilo que considero ser a construção de uma alternativa. Foi uma grande honra ter contado com o Mota Torres no congresso do PS-M para a minha eleição ao fim de mais de 20 anos de ausência, revelando a sua forte ligação a este partido e a sua disponibilidade para ajudar a construir a solução que todos queremos. Aliás, este grande momento de retorno de muitos socialistas ilustres foi praticamente ignorado, mas tem um valor politico incomensurável que não desperdiçarei. Falei algumas vezes com o Mota Torres e estamos de acordo com o essencial: precisamos saber equilibrar as participações de militantes e independentes. Não devemos diabolizar este binómio mas sim contribuir para uma convivência em harmonia e com valor acrescentado. O objectivo é sempre motivar os independentes a participarem activamente na vida partidária, tornando-se militantes e assim ajudar a introduzir os anseios do exterior nas opções internas. Estamos a conseguir esse objectivo: estamos a observar que muitos independentes estão a se filiar (dois deles entrarão em Janeiro para o secretariado, demonstrando este movimento relevante) e, ao mesmo tempo, novas pessoas estão a aderir ao conselho estratégico. Já contamos com mais de 60 personalidades em várias áreas do saber. O Mota Torres partilha desta visão e vai acompanhar, como outros tantos ilustres socialistas esta abordagem. Para isso criei o fórum consultivo que envolverá um vasto património humano socialista que andou arredado destas lides partidárias mas que tem um capital de experiência, conhecimento e sensibilidade política que não podemos desprezar. Estas pessoas reconhecidas pelo seu papel no PS-M mas também na política madeirense contribuirão com as suas críticas e conselhos para podermos fazer melhor e de acordo com as necessidades dos madeirenses. Porque é isso que interessa.
F.N.: A proposta de criação do ‘Fórum consultivo’ não é uma duplicação de órgãos ou viu-se que foi importante, por exemplo, no recente braço de ferro com o Largo do Rato?
C.P.:Não há duplicação nenhuma de órgãos. Existem os que estão previstos estatutariamente e cada um tem a sua função. O fórum consultivo reúne militantes e simpatizantes com um vasto currículo político com o PS-M. São ex-dirigentes, ex-deputados, ex-autarcas. Tudo pessoas que têm uma experiência e um conhecimento que não podemos nos dar ao luxo de desprezar. Tudo farei para ouvir estas pessoas e ter estas pessoas ao lado do PS-M. Mais do que nunca a credibilização e a construção de uma alternativa precisa de sangue novo mas também de experiência, moderação e ponderação. Estas pessoas têm tudo isto e é uma honra enquanto presidente do PS-M contar com mais de 20 personalidade que estão disponíveis para ajudar a construir a nossa solução. Verão que tenho razão na qualidade destes contributos.
F.N.: Deixou Jacinto Serrão e Bernardo Trindade de fora da lista para a Assembleia da República. Porquê?C.P.:Não se trata de uma questão pessoal seja em relação ao Jacinto seja a outro qualquer. O Jacinto Serrão tem um vasto currículo político e será um dos convidados para o tal fórum consultivo. Porventura o mais novo de todos, precisamente pela sua imensa e reconhecida actividade política. Mas tenho uma proposta política que foi sufragada em congresso por unanimidade. E as razões da ausência do Jacinto, único que mereceria uma referência especial por se encontrarem funções na AR, porque de resto o PS-M tem um vasto lote de candidatos potencialmente bons para os lugares em causa, da lista à Assembleia da República tem a ver precisamente com a minha proposta de estratégia para o futuro do PS-M. Foi uma decisão de estratégia política e não pessoal. Já expliquei esta decisão à comissão politica, ao Jacinto mas também a outros que eventualmente não compreenderam à primeira este movimento impar de reconstrução da credibilidade e da notoriedade do PS-M. Disse várias vezes que temos de interpretar os anseios e as dúvidas das populações. Devemos ouvir os eleitores. Ora, o PS-M tinha de apresentar uma lista de ruptura, jovem, com competências distintas, com homens e mulheres e com independentes e militantes. Foi isso que fizemos . Temos a melhor lista, mais equilibrada que reúne experiência, notoriedade, juventude e competências várias. Os socialistas madeirenses estão orgulhosos e esta proposta transmite o que já fiz nos órgãos internos que reflectem um novo caminho com uma perspectiva de renovação profunda. Renovar no PS-M é hoje um facto consumado e isso é um capital político fundamental.
F.N.: Como é que se faz oposição quando o actual Governo Regional cedeu a bandeiras da oposição durante quase 40 anos?
C.P.:Como já é possível observar temos feito o que prometemos: um escrutínio rigoroso à actividade do Governo Regional e uma total abertura para construir pontes e soluções que sejam do interesse dos madeirenses. Estamos a construir a solução alternativa por isso não somos um partido de protesto gratuito nem um partido de lamechices ocas e popularuchas, como temos observado. Não iremos por aí e temos a certeza que os madeirenses estão a nos observar e este é o caminho que preferem. Quanto à governação já há muito berbicachos para resolver e muitas promessas por cumprir ou a seguir um rumo contrário ao prometido. Votamos contra este programa de governo porque não nos revíamos nas opções e nas estratégias do PSD. O CDS e o JPP abstiveram-se e portanto têm de assumir as suas responsabilidades perante o caminho que este PSD-M está a levar os madeirenses. A coerência é um valor importante na política porque reflecte credibilidade. Encolher os ombros nas horas que dá jeito e vociferar quando a coisa corre mal é um princípio oportunista que mais ou mais cedo será desmascarado. Mas dizia eu que este governo está a governar com o orçamento do Dr. Jardim. Mudou o estilo, mudou algumas pessoas, mas o essencial, a política, as opções, os constrangimentos, as cumplicidades estão todas lá. O regime conservou a toda estrutura de poder. Os que suportavam o PSD-M de Jardim, suportam agora o PSD de Albuquerque. Assim não se operacionaliza rupturas, mudanças, alternativas. O Orçamento rectificativo que devia introduzir o novo pensamento deste governo, acabou por ressuscitar o pensamento jardinista. Temos um governo de gente nova com medidas e políticas do governo velho, do governo de Jardim.
C.P.:Já afirmei que teremos listas próprias em todas as autarquias. Isto significa que nada nos fará abandonar o nosso espaço político. Teremos candidaturas em todos os concelhos, incluindo em Santa Cruz e S. Vicente, concelhos que o PS-M decidiu abandonar a favor de movimentos de cidadãos que ficaram com espaço político do PS-M sem contrapartidas programáticas ou princípios de orientação política. Não volta a acontecer. Pelo menos comigo não. Portanto, temos proposta para todos os concelhos e os militantes e simpatizantes esperam soluções do PS-M. Mas não fugiremos a soluções mais vastas envolvendo outros partidos em concelhos que assim seja exigido. O Funchal foi uma conquista de uma vasta coligação e a manutenção da CMF nas mãos do PS-M ou com a participação do PS-M é essencial. Em casos destes a solução das listas próprias pode ser mais vasta e ultrapassar o PS-M. Mas a partir de Outubro começaremos a desenhar a nossa estratégia autárquica para consolidar o seu papel de maior partido das autarquias e do poder local. Por agora a prioridade é derrubar a coligação PSD-CDS e devolver esperança aos madeirenses
F.N.:O que vai fazer para que o PS-M não deixe escapar as Câmaras que ganhou em 2013?
C.P.:A prioridade hoje são as eleições nacionais. Estamos perante um governo de coligação que tem sido carrasco para os madeirenses. Tem levado ao extremo o castigo aos cidadãos da Madeira em parte pela divida oculta e extraordinária, em alguns casos ilegítima, contraída nas costas dos madeirenses pelo PSD-M. Hoje o Governo Regional de Albuquerque está de cócoras perante a coligação. É Lisboa que manda na Madeira. Nunca vimos nada assim. O Presidente do Governo Regional é incapaz de lutar pelos interesses dos seus conterrâneos. Tudo o que faz ou diz a coligação é aplaudido. Estamos a recolher umas migalhas para abandonar a nossa legitimidade de pedir mais, melhor e com mais justiça. Um governo assim pode conduzir à ruína definitiva das conquistas autonómicas. A coligação esteve a governar 4 anos e não se conhece nenhuma acção de solidariedade para com os madeirenses. Tiveram várias oportunidades. A resposta foi sempre negativa.O PAEF não só nunca foi registo em nenhuma dos aspectos como ainda foi prolongado quando devia terminar. Nada de bom se pode esperar de quem nunca demonstrou estar disponível para ajudar a Madeira. Só o PS tem um currículo de ajuda factual aos madeirenses. O PS em 1998 pagou a divida da Madeira e em 2010 criou a lei de meios para transferir meios extraordinários para a RAM em nome da solidariedade para com os madeirense decorrente do temporal. Portanto. Estou totalmente concentrado nestas eleições. Além disso, o PSD-M não parece dar muita importância a esta eleição. O Dr. Albuquerque escondeu-se e fez-se substituir na lista por pessoas sem qualquer experiência política e com total desconhecimento dos principais dossiers que importam aos madeirenses. É verdade que alguns deles vivem há muitos anos em Lisboa mas isso só é garantia de um distanciamento dos reais problemas e mais um convite para aprofundar o centralismo. Portanto estou convencido do reforço da presença do PS-M na AR.
F.N.: ‘A herança’ da dívida da Madeira resolve-se com maturação de prazos ou com a renegociação dos juros? C.P.:Não faz muito sentido querer tratar uma dívida de uma região autónoma como se de uma divida soberana se tratasse. Não é a mesma coisa, até porque a região não tem os mesmos mecanismos disponíveis para a gestão da sua divida. Defendo que a Região deve encontrar uma solução que diminua o serviço da divida que se tornará insustentável nos próximos anos caso nada se faça. A prorrogação de 7 anos do prazo da divida é bom mas é muito insuficiente e diz respeito apenas a 25% da divida global. Demonstro no livro que escrevi “A Herança” que a insustentabilidade da dívida é óbvia tendo em conta as taxas de crescimento negativas do PIB (-3,75% nos últimos 3 anos, sem contar com o efeito estatístico das alterações do cálculo do PIB) e as taxas de juro elevadas que obrigam a saldos primários superiores a 300 milhões de euros, impossíveis de concretizar no estado actual. Por isso, acredito numa solução de gestão mais racional da divida que depende muito da participação do estado e da sua solidariedade. Há algo mais ou menos óbvio: os madeirenses não devem financiar o estado, pagando juros mais elevados da sua divida (ao estado) do que os juros pagos pelo estado junto do mercado. E isso está a acontecer sem reacção nenhuma do Governo Regional que decidiu se agachar a Lisboa. Como 70% da divida está junto da banca, a solução pode passar por um aval global do estado com a constituição de um sindicato bancário para adequar as condições de prazo e de juros às necessidades da RAM. A gestão da divida da RAM segue os pressupostos que Lisboa impõe. O Governo Regional não tem mostrado capacidade para sugerir mudanças e alternativas. Por exemplo; porque razão o Governo Regional não pede um aval do estado para o crédito que a Região solicitará à banca para pagar divida financeira? Ou um aval para consolidar o restante da divida comercial em financeira que ainda ascende a quase 1000 milhões de euros. Ou ainda propor ao estado substituir a divida da Madeira por divida colocada no mercado de longo prazo com juros bastante mais baixos. Devia ser assim a actividade do Governo Regional: propor, negociar, propor, insistir e nunca desistir de defender os madeirenses, diminuindo o esforço do serviço da divida.
F.N.:Vai apoiar Sampaio da Nóvoa para a Presidência da República?
C.P.:O PS-M ainda não tomou nenhuma posição oficial e só deverá fazê-lo depois das eleições legislativas. É um dossier que deve ser clarificado para evitar atropelos e confusões eleitorais
F.N.:Faz diferença ao PS-M que PSD e CDS não se coliguem para as Legislativas nacionais?
C.P.: Nestas eleições votar no CDS-M é o mesmo que votar no PSD-M e vice versa. Estão coligados no plano nacional e se ganhassem constituiriam um governo onde os deputados de uns e de outros, eleitos na Madeira, iriam contar para a coligação. Estamos, por isso, a viver um momento mau da política a este nível porque estes partidos na Madeira optaram por confundir o eleitorado. As candidaturas separadas pretendem enganar eleitores e não esclarecer. Teria sido mais sério politicamente assumirem que estão juntos, que estiveram sempre juntos e que se ganharem voltarão a impor opções políticas que não defendem a autonomia e pioram a vida dos madeirenses.
C.P.:Os governos socialistas foram aqueles que mais mostraram solidariedade pelos madeirenses. O pagamento da divida da Madeira em 1998 e a Lei de Meios em 2010 são dois exemplos sem paralelo nos governos do PSD e CDS. António Costa representa essa linha de pensamento e de atitude solidária perante os cidadãos da Madeira. Por outro lado, há em curso um compromisso do PS com os madeirenses para questões tão essenciais como a gestão da divida, o CINM, o novo hospital, o financiamento do Região, entre outros. Tendo em conta que estes dossiers são decisivos e que em 4 anos o Dr. Passos Coelho e Portas nada fizeram e, pelo contrário, incluíram novos problemas e novas restrições, parece óbvio que a solução passa pelo PS e pelo António Costa. Acreditar que quem nada fez pela Madeira e ignorou o sofrimento dos madeirenses vai agora mudar de atitude é quase como acreditar no pai natal.
F.N.: Já tivemos uma arara e agora temos um cão. Que mascote levaria para a Quinta Vigia caso vença as Regionais de 2019?
C.P.:Tenho dois cães, várias galinhas, 3 ovelhas, alguns pavões, gatos e de vez em quando ainda porcos. Por isso, como imagina não me preocupo muito com isso. Neste momento estou concentrado em devolver a esperança aos madeirenses através de um projecto credível e competente. Farei tudo para que o PS-M se apresente em todas as eleições como a alternativa que os madeirenses procuram.
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