A ilha grega

 Irene-Lucília--icon

Alguns   livros chegam-nos   às  mãos  por  uma  espécie de  pacto  secreto  com  os  acasos  que,  ao  deixarem  de  ser   um  factor  avulso,  passam  a  ser  circunstâncias  providenciais  que  nos  ajudam  a  descobrir  o  antídoto  contra  certas  arrelias.  Todos  sentimos  necessidade  duma  intervenção  na  alma  quando  ela  sofre  um  risco  de  obstrução, e são  de  vária  natureza  os  trombos  que  a  ameaçam.  Ainda  que  nem  tudo  se  resolva   através  dum  alerta  prático,  um  esclarecimento  vindo  através  dum  livro,  pode,  pelo  menos,  agitar  o  nosso  desconforto  e  minorar  as  pressões.  De  repente alguém  aponta   no escaparate  duma  livraria  um  título  aliciante: A Vida Secreta dos Materiais, assinado, Marco Miodownik,  autor  que  não  conheço.  Mas  esta  vida  secreta é  assunto  que  me  atrai  e  preparo-me  para  descobri-la.

Fixo-me  numa página  em que  Marco Miodownik  conta a história do betão,  desde que os Romanos  o inventaram até os nossos dias, suporte  estruturante do  grande império e das  cidades modernas. À  medida em que  fui  continuando a leitura  fiquei a conhecer os vários tipos desta argamassa, as suas virtudes e as  suas  vulnerabilidades.

 Tendo vivido a  experiência  das desastrosas infiltrações  que destroem  o  sossego  de quem,  nos  condomínios  recentes,  faz sua  morada,  começo a perceber  os perigos  eminentes que ameaçam  os prédios.  Apesar  da força do betão que atinge valores consideráveis, o factor tempo, a  qualidade  da  areia  utilizada   e a densidade  da  argamassa,  são  elementos  importantes  para  a  saúde  dos edifícios.  Diz  Miodownik  a  este  propósito  que  o “ betão  pode  sofrer  um  tipo  de  dano  pernicioso  quando  grande  quantidade  de  água  se  infiltra    na  estrutura e  começa  a  corroer  o  reforço  de  aço. A ferrugem  expande-se  pelo  interior  da  estrutura  dando  origem  a  fissuras  e  tudo  fica  ameaçado”,  pelo  que  de  anos  a  anos  os edifícios terão  de  ser  sujeitos a reparação. Há ainda  a contracção que  sofrem  as placas  com a alternância  do  calor e do  frio  na  sucessão  das  estações.

De tudo isto  tiro a  conclusão  de  que em  grande parte dos edifícios de habitação  a  substituição  dos  telhados  pela  simples   cobertura  descarnada  da  placa  de  betão  conduz inevitavelmente,  num  tempo  mínimo,  à  indesejada    praga  das  infiltrações,  se,  em  prevenção  desta  fatalidade  não  for levada em  conta  uma  correcta  aplicação  das  redes  e  respectiva  impermeabilização.  E  esta  é  a parte  frágil  de  todo o processo.    Na  situação  crónica  dos  prédios  doentes o  diagnóstico  é, invariavelmente,  ruptura  de redes e má  impermeabilização  do  concreto.

Segue-se  ainda outra  precaridade  que  é  a do isolamento  sonoro.  Os  ruídos  de  cada casa   invadem  as  casas  de  todos  com  a  quebra total  da  privacidade  e  limitam  a  livre  expansão  dos  hábitos  e  das  intimidades.

Não  é  insignificante   o  drama  deste  modo  de  vida  das  cidades,  com  os  habitantes   aprisionados  em   vistosas  gaiolas  avarandadas   resignando-se  à  contrariedade  da  mancha  de  humidade  que  macula  o  tecto  da  sala;  à  onomatopeia  arreliante  dos   saltos  altos,   porque  a  vizinha  do  lado  não  se  exime  da  elegância  desse  acessório;   e  ainda  ao  estrondo   que  desaba   do  quinto  andar,  porque  a  criança  do  vizinho  pediu  um  skate  ao  Pai  Natal   e faz  corridas  no  terraço.

 As  casas  são  os  abrigos  que  a  civilização  foi  dotando  de  acessórios  requintados  permitidos  por  descobertas  de  novas  estruturas  de  variável  resistência. A  má  qualidade  de  algumas  delas  põe  hoje  em  causa a duração  das  construções. O  belo  porte  de  certos  edifícios  que  exibe  a  aptidão   criativa  de  alguns  arquitectos, esconde,  as  mais  das  vezes,  a  negligência   e  a  cumplicidade  entre  empresas  imobiliárias  e  construtoras,  que  descuram  a  escolha  dos  materiais  e  a  sua  resistência.  As  consequências  são  a  deterioração  dos  imóveis em  curto  espaço  de  tempo, e,  por  consequência,  o  aspecto  desolador  que  se  observa  em  algumas  urbanizações.

Os  apartamentos  postos  ao  dispor do  cidadão  comum  de  médios  haveres incorrem  na  onda  da  frágil  oferta  que  este  mundo dos  negócios  lhe  apresenta e nem  sempre  correspondem  aos  seus  desejos e  necessidades, nem  reflectem  os  seus   valores.  Tanto  menos,  quanto  se  revelam  de  má  construção,  a vários  níveis  de  precaridade.

Há um mínimo de exigência  que reclama  um  conforto básico  relativo  à saúde do corpo  e  ao  sossego  do  espírito.  A  casa  afecta  sobremaneira  a  vida de cada um de nós. É  o  lugar  do estar e do ser. Uma  espécie de  sacrário de afectos  onde  a  vida  se  realiza,  onde se  constrói  a verdadeira   intimidade.  Rui Belo  disse-nos isto  num  poema: “Oh  as  casas  as  casas  as  casas/  mudas  testemunhas  da  vida/  não  sabem  nada  das  casas  os  construtores  os senhorios  os  procuradores / os  pobres  sim  têm  o  conhecimento  das  casas/  os  pobres  esses  conhecem  tudo…/ só  as  casa  explicam  que  exista / uma  palavra  como  intimidade…”

Repito : Os  pobres  esses  conhecem  tudo.  Estamos  num  mundo  moribundo  que  agudiza  as  afrontas  aos  pobres  e  as  suas  necessidades.  Em  cada  dia  assiste-se  ao  trágico  movimento  migrante  que  arrasta   populações  famintas  e  injustiçadas  à  procura  do  resgate  dos  seus  direitos  primários:  Trabalho,  pão  e  um  abrigo.  Muito  perto  de  nós, ambição  desmedida,  corrupção, fraude,  riqueza  excessiva,  coabitam  com  a  fome,  os  sem  tecto,  os  desvalidos,  num  violento  atentado  contra  a  dignidade  dos  pobres.  Notícias  de  hoje  salientam  a  compra  duma  ilha  grega  por  um  privado.

O  meu  vizinho  mais  recente  é  um  professor  de  cinquenta  anos,  doutorado  em  Ciências  da  Educação, um  indivíduo  cívica  e  profissionalmente  exemplar,  que  há  dois  anos  adquiriu  um  apartamento  no  quarto  andar,  num  dos  prédios  do  meu  bairro.  Anda  agora  a  contas  com  uma  infiltração  danosa  que  lhe  destrói  a  casa  e  a  tranquilidade.  Lamento  profundamente  que  a  sua  dedicação  ao  trabalho  de  uma  vida,  a  sua  competência  profissional  e  o  contributo para   a  educação  dos  jovens  do  país,  não  lhe  tenham  rendido  proventos  suficientes  para  comprar, ele  também,  uma  ilha  grega.

 Que  ao  menos  os  que  fogem  da  barbárie   encontrem  um  refúgio  decente   e  se  promova  a  responsabilização  e  consciencialização  dos  países  de  origem. Contrastes  destes  são demasiado  profundos  e abalam  dolorosamente  o silêncio  do  nosso  espanto  e  da  nossa  inconformação.

Peço desculpa por me ter desviado do livro  de  Mark  Miodownik,  mas  a  ilha  grega  barrou-me  o  caminho.


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