Sunny-Bar: uma história de 71 anos entre a Avenida e o mar

A cumplicidade entre os automobilistas e o Sunny Bar, fazia deste espaço um ponto de encontro privilegiado na Avenida do Mar.
A cumplicidade entre os automobilistas e o Sunny-Bar fazia deste espaço um ponto de encontro privilegiado na Avenida do Mar.

* Com RUI MAROTE

O Rali Vinho Madeira prepara-se uma vez mais para fazer-se à estrada. Há cerca de 50 anos, este momento significava grande animação na Avenida do Mar, zona nobre da mítica prova especial de perícia. O Sunny-Bar, com a sua inovadora e cosmopolita esplanada estrategicamente localizada na placa central, era o ponto de encontro dos amantes da competição motorizada, concentrando em seu redor turistas e locais. O número quatro da Avenida, fervilhava de emoção e, enquanto os bólides roncavam na refrega da gincana, o café seguia na sua tarefa de bem servir a clientela.

Durante as semanas que antecediam a prova, o Zeca Cunha, o Janica Clemente Aguia, o José Agostinho e muitos outros nomes ligados à modalidade costumavam demorar-se pelas mesas do Sunny-Bar em longas reuniões de preparação do Rali. As discussões prolongavam-se pela madrugada fora na esplanada de um estabelecimento que funcionava ao ritmo da escala dos navios e dos acontecimentos que marcavam o país.

Durante o dia, era certo encontrarem-se os tripulantes das lanchas que faziam o transbordo dos passageiros até ao cais e os soldados que se despediam para um destino incerto no ultramar. Gentes que vinham de todos os pontos da ilha e que ali cruzavam histórias no intervalo de uma bebida.

As décadas de 50, 60 e 70 foram os tempos de ouro de um estabelecimento que estreara na pacata capital madeirense o conceito de café com esplanada. O Sunny-Bar cumpria então a sua parte no espetáculo diário daquela que era considerada a porta de entrada da cidade. Dividia-se entre o estabelecimento principal, no passeio norte da Avenida, e a esplanada na placa central, emprestando cores e sabores às conversas e à azáfama de um Funchal à beira-mar debruçado, com os olhos postos nos navios do “Cabo”, às chegadas e às partidas que diariamente aconteciam desde o cais e porto da cidade. Ali, na descontração da primeira grande esplanada da baixa, sob os largos toldos e guarda sóis, reuniam-se amigos, atualizavam-se as notícias e experimentavam-se as novidades musicais de outras paragens.

Os postais da época guardam a memória de um estabelecimento com mais de 70 anos.
Os postais da época guardam a memória de um estabelecimento com mais de 70 anos de existência.

O Sunny-Bar é daqueles locais icónicos que marcam a identidade e as fotografias da Avenida do Mar, durante os anos 40 a 60 do século passado. Para sempre na memória, fica a sua esplanada localizada entre as duas faixas de rodagem. Aqui, os clientes eram servidos por empregados impecavelmente apresentados de laço e colete, autênticos mestres na arte servir à mesa. Era vê-los no contínuo atravessar de rua por entre automóveis, autocarros, motociclos e carros de boi, segurando com destreza a bandeja enquanto lidavam com o trânsito à maneira de um toureiro. Por incrível que pareça, durante os anos em que a esplanada funcionou na placa central, não se registaram acidentes, prova de que a cidade reconhecera o Sunny-Bar como o seu espaço de eleição.

Mas os atrativos do carismático café não se ficavam pela localização privilegiada, nem pela decoração e serviço elegantes. Desde cedo que o estabelecimento procurou diversificar a sua clientela, pautando pela inovação. A cave do prédio era o local preferido dos mais jovens. Numa altura em que não havia televisão, a maravilhosa “jukebox” (máquina de discos), que aliava música e imagem, fazia furor ao som da Pop e do Rock ‘n’ Roll de então. Eram longas as filas à espera de inserir a moeda de 2$50 e escolher a canção do momento.

No andar superior, locais e turistas ocupavam as mesas, ora para apreciar as vistas, ora para dois dedos de conversa. Pelo meio, a bica, o galão, a laranjada, acompanhados da bola de Berlim e das sandes. Ao domingo à tarde, as senhoras preferiam o chá e o sorvete. O navio do “Cabo” atracava à segunda-feira e com ele chegavam os estrangeiros de gostos refinados, à procura do vinho Madeira e dos bordados nas lojas de artefactos. Assim que junho despontava, as noites cresciam pela madrugada dentro. Eram famosas as sandes de carne vinho e alhos e a canja durante os serões animados dos Santos Populares.

A esplanada na placa central foi, desde logo, uma atração para turistas e locais.
A esplanada na placa central foi, desde logo, uma atração para turistas e locais.

Tudo começou em 1944, nas vésperas de Natal. Três empresários madeirenses, João Figueira, Manuel A. Camacho e Eduardo Freitas, acabavam de inaugurar na Avenida do Mar um espaço de cafetaria e pastelaria distinto. Tratava-se do Sunny-Bar, “o primeiro do género ‘boite’, próprio para ‘parties’. Conforme notícia publicada na imprensa da época, “há nele tudo o que se possa exigir em luxo e conforto”. Houve lugar a inauguração, a 21 de dezembro, tendo comparecido ao evento altas personalidades da sociedade madeirense, como foi o caso de Félix Barreira, na qualidade de governador do distrito, e o então presidente da Câmara Municipal do Funchal, Fernão de Ornelas. O acontecimento, que mereceu destaque e rasgados elogios nas edições do DN e JM, contou igualmente com a presença de representantes diplomáticos estrangeiros na Madeira, nomeadamente, o cônsul americano  Foster H. Keis e o vice-cônsul da Inglaterra, C. Miles. A abertura oficial ao público seria no dia seguinte.

Nos dois anos seguintes, a gerência foi consolidando o prestígio do estabelecimento ao ponto de a autarquia ter autorizado, longo no verão de 1945, a instalação de 50 mesas na placa central da Avenida do Mar, um espaço que se manteve até 1975. O aumento do tráfego automóvel e as obras de ampliação das faixas de circulação, ditaram o seu desaparecimento, mantendo-se apenas a zona de mesas no passeio norte junto ao estabelecimento principal. Também para a história ficara a “chocadeira”, o espaço à entrada do cais onde os clientes do Sunny-Bar estacionavam os seus automóveis.

A mesma hospitalidade, igual distinção no trato com o cliente. Marcas de um serviço personalizado que o atual Sunny Bar faz por manter.
A mesma hospitalidade, igual distinção no trato com o cliente. Marcas de um serviço personalizado que o atual Sunny-Bar faz por manter.

Ao longo dos quase 71 anos de vida, o Sunny-Bar teve um novo dono e assistiu a três remodelações de monta. A última resultou dos sérios estragos infligidos pela intempérie do 20 de fevereiro, catástrofe que acabou por fazer desaparecer a totalidade do mobiliário antigo e de qualidade da época.

Atualmente, o Sunny-Bar continua a fazer as honras à entrada da cidade. A esplanada, embora mais pequena e sem a agitação de outros tempos, mantém a hospitalidade que sempre lhe foi caraterística. José Carlos Lopes, que  acompanhou desde tenra idade o evoluir do café, primeiro como filho do proprietário, depois como o próprio dono do estabelecimento, continua a acreditar na mística do espaço. A poucos metros de duas cadeias de franchising de comida rápida, o Sunny-Bar teima em manter a elegância e a distinção no serviço, assim como, a matriz da alma madeirense. Por isso, não será de estranhar se o empregado janota, armado de laço e sorriso, lhe propuser uma variada escolha de sandes da casa no tradicional bolo do caco.