Quando as noites do Funchal dançavam ao som do Flamingo

O nome outrora luminoso é a única marca da presença do Flamingo, um clube de diversão noturna que fez furor no Funchal do século passado.
O nome, outrora luminoso, é a única marca da presença do Flamingo, um clube de diversão noturna que fez furor no Funchal dos anos 40 e 50.

* Com RUI MAROTE

Chamava-se Flamingo e chegou a ser uma das mais importantes casas de diversão noturna do país, em pleno Estado Novo. Estava decorada com espelhos da Baviera, tinha orquestra e dançarinas espanholas. Era local de referência para os “bons vivants” do Funchal da segunda metade do séc. XX, graças ao ambiente seleto e cosmopolita. Longe dos seus tempos de glória, o primeiro nightclub da capital madeirense vive agora na memória de uma fachada e de fotos resgatadas ao temporal de 20 de fevereiro.

Viviam-se os recatados tempos da moral e dos bons costumes do Estado Novo, mas o fim da 2.ª Guerra Mundial trazia uma nova esperança. No Funchal, dois arrojados empresários madeirenses faziam nascer um projeto nada comum para a época: um nightclub!

Corria o ano de 1945, quando Carlos Dias Nascimento e João Teixeira decidiram trazer um novo glamour às noites funchalenses, dando forma ao Flamingo, a nova atração noturna inspirada nos filmes de Hollywood de então.

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Espelhos e candelabros da Baviera decoravam o local, muito procurado pela fina flor da sociedade madeirense.

Não se pouparam a gastos e o n.º 3 da então Rua da Ribeira de São João, hoje Rua Pestana Júnior, passou a ser referência entre os clientes mais exigentes e de maiores posses. Para além do requinte da decoração e da qualidade do serviço, o Flamingo cumpria os parâmetros da discrição que se impunham na época, pelo que contava com visitas assíduas da fina flor da sociedade madeirense, continental e estrangeira. As chamadas pessoas de bem procuravam sobretudo “beber” do ambiente refinado e culturalmente eclético que se seguiu ao pós-guerra, quer na música, quer na moda e nas mentalidades. O Flamingo era, no fundo, a porta aberta a essa nova cultura do prazer e da diversão, numa ilha aonde demoravam a chegar os ventos de mudança, não só pela distância, mas também pela visão de um regime cristalizado no tempo.

A ideia era criar um espaço diferente, distinto dos dois cabarés de reputação mais duvidosa que existiam na cidade: o Royal, na Rua 31 de Janeiro, e o Tivoli, na zona do Mercado dos Lavradores. No entanto, num Funchal estranho às modas das capitais europeias e norte-americanas, a ideia não colheu desde logo grande simpatia. Talvez por isso fossem já esperadas as grandes dificuldades que Carlos Dias Nascimento e João Teixeira tiveram para legalizar o estabelecimento, ao ponto de o alvará ter sido emitido para o ramo de agência de viagens, com porta comercial nas traseiras, à Rua Serpa Pinto, n.º 27.

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Empresários nacionais chegaram a deslocar-se à Madeira para conhecer o espaço, replicando pormenores em restaurantes da capital.

Ultrapassados os primeiros obstáculos, o Flamingo logo se afirmou como clube noturno de renome, uma referência até para outros projetos que viriam a surgir no território continental. Diz-se que chegou a ser copiado por restaurantes que se instalaram em Cascais. Tinha porteiro, bengaleiro e os clientes eram selecionados à entrada. A decoração demarcava-se igualmente pela riqueza e pormenor. O que mais chamava à atenção eram os grandes espelhos da Baviera e a sala de jantar. Para além do serviço de bar e restauração, o Flamingo procurava surpreender a clientela através de um programa artístico diversificado e requintado. O ambiente musical era assegurado todas as noites por uma orquestra e a diversão ficava por conta também da atuação de dançarinas espanholas que estariam instaladas no último andar do prédio. Max, os irmãos Freitas, Tony Amaral, Alberto Amaral e o pianista francês Roger Sarbib foram nomes de cartaz que passaram pelo palco do Flamingo.

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O Flamingo oferecia espaços distintos, entre o requinte e o boémio.

No entanto, tal como os restantes nightclubs da época, oferecia um lado boémio e secreto. Na cave, um outro Flamingo palpitava todas as noites encoberto por um bar discreto. Havia fados e histórias aventureiras. Das memórias mais apimentadas,  consta que, depois de um serão, recatadamente passado com as esposas nos salões dos pisos superiores, alguns cavalheiros voltavam mais tarde ao Flamingo, já sozinhos, e esgueiravam-se para a cave para madrugadas de diversão com as bailarinas.

O Flamingo funcionou durante cerca de 13 anos no edifício que pertenceu inicialmente à família Milles e onde mais tarde foi instalada a agência de viagens Panorama, em frente ao edifício Minas Gerais, junto à Rotunda do Infante. Hoje, o prédio é propriedade de um emigrante madeirense, no Curaçau, já falecido.

A sociedade de Carlos Dias Nascimento e João Teixeira, que mais tarde seria reforçada com a entrada de Daniel Catanho, contabilista, assegurou a gerência do Flamingo durante os seus tempos áureos, até 1958, altura em que o negócio foi vendido ao empresário João Jardim, ligado à exploração de salas de cinema. O Flamingo ganha então novos donos, além de um dono bem jovem. Carlos Jardim, o filho de João Jardim, não tinha ainda 21 anos, a idade mínima para frequentar espaços de diversão noturna, quando o pai decidiu fazê-lo sócio. Assim, e apesar de deter 33% do Flamingo, Carlos Jardim não podia desfrutar da animação.

Mudanças na estratégia empresarial fazem os empresários Jardim alugar o nightclub a Jorge de Sousa, pouco tempo depois. Mas, os tempos haviam mudado. Os hotéis, que até então não tinham animação própria, começam a fazer concorrência neste segmento da diversão noturna e os turistas deixam de aparecer.

O 20 de fevereiro levou de vez o que restava do antigo Flamingo. Ficaram as fotos estragadas pela enxurrada e o nome na fachada.
O 20 de fevereiro levou de vez o que restava do antigo Flamingo. Ficaram as fotos estragadas pela enxurrada e o nome na fachada.

Carlos Jardim, entretanto ligado ao turismo, compra a parte do pai por 400 contos e dá início à Agência de Viagens Panorama. Do velho Flamingo restariam apenas os espelhos da Baviera e o reclamo, outrora luminoso, no cimo da porta.

Uma nova machadada na memória do primeiro clube de diversão noturna do Funchal aconteceria a 20 de fevereiro de 2010. A enxurrada destruiria por completo a agência de viagens, levando consigo os últimos testemunhos. Salvaram-se algumas fotografias do antigo Flamingo, lampejos de uma época dourada, mas a alma do espaço perdeu-se por entre os planos de reabilitação da zona.

Outrora, verdadeiro negócio da China para dois visionários madeirenses, o Flamingo é hoje, curiosamente, outra porta anónima ao lado de um bazar chinês.