Madeirense que sofre de cancro promove concerto solidário

Raquel Lombardi quer mostrar que se pode e deve falar de cancro, sem medos.
Raquel Lombardi quer mostrar que se pode e deve falar de cancro, sem medos.

É uma paciente de cancro, mas recusa ser uma vítima. Raquel Lombardi ouviu dos médicos aquilo que muitos de nós temem ouvir: um diagnóstico de cancro da mama que classifica como “pouco animador”. Este tipo de coisas, das quais a maioria das pessoas se desvia como da peste, podem estar na realidade ao virar da esquina para qualquer um de nós. Até para os homens, que – embora muitos o desconheçam – também podem sofrer de tumores mamários. Qualquer um pode cair nas infelizes circunstâncias de descobrir, a qualquer momento, que padece de um mal que não pode ser menosprezado.

Raquel sofreu, naturalmente, com o conhecimento da sua doença. Admite que há dias em que se vai abaixo. Mas foi à luta e, aproveitando o facto de ser mulher de um músico profissional – Luciano Lombardi – resolveu não só tentar sensibilizar as pessoas para o problema do cancro, como também angariar verbas para uma instituição dedicada à prevenção e apoio aos doentes.

Assim nasceu o projecto de um concerto que se realizará no próximo dia 30 do corrente mês de Julho, no hotel Four Views Baía, no Funchal. O evento acontece a partir das 21h30 e conta com a participação de músicos que se deslocarão à Madeira especialmente para este evento, Giuseppe del Plato e Angelo Ruggeri também actuará. O primeiro é guitarrista, o segundo flautista. Conforme nos explicou Raquel Lombardi, ambos deverão estrear na Madeira uma peça nova, que nunca antes tocaram, e que deverá integrar o próximo CD que pretendem lançar.

As verbas do concerto – cada bilhete custa dez euros – revertem na íntegra para a Liga Portuguesa Contra o Cancro. No mesmo actuarão ainda os guitarristas Luciano Lombardi, Pedro Zamora e Francisco Lopes. Já no bandolim, apresentar-se-á Norberto Cruz. Trata-se, portanto, de músicos prestigiados, com carreiras bem sucedidas, e que actuarão gratuitamente por uma boa causa.

Os músicos convidados deverão receber, a título de agradecimento, uma prenda proporcionada pela artista plástica madeirense Luz Henriques. Serão ainda sorteados prémios entre as pessoas que assistirem ao concerto, disse-nos Raquel, que espera conseguir uma lotação esgotada.

Na entrada do evento, o estilista Hugo Santos deverá expor peças em bordado Madeira, inspiradas nos ‘turbantes’ que as mulheres que passam por tratamentos de quimioterapia têm de usar, por perderem o cabelo. “É uma das partes difíceis para uma mulher, que sente a sua aparência, a sua estética, afectada. A aparência não é o mais importante… mas sofre-se muito”, revela.

Todos os esforços desenvolvidos em prol da realização deste concerto foram para Raquel Lombardi, nas palavras da própria, “uma espécie de terapia”. A satisfação de saber que estava a ajudar a realizar um evento válido, para ajudar uma instituição e o calor humano que sentiu de todos quantos se prontificaram a auxiliá-la a cumprir esse objetivo deixaram-na, admite, “muito feliz”.

“Em vez de estar para aqui a pensar na minha doença e nos efeitos secundários dos tratamentos de quimioterapia que tenho de realizar, comecei a envolver-me com tudo isto. E a vida para mim tornou-se mais fácil”, refere.

Por outro lado, resolveu dar a cara falando do seu tumor maligno e procurando desmistificar a doença, os tratamentos necessários e o modo como deve ser encarada. Habitualmente, as pessoas escondem-se, refugiam-se na sua privacidade, o que certamente é um direito. Mas Raquel Lombardi resolveu fazer o contrário, assumindo publicamente estar doente, procurando incentivar a dimensão solidária da sociedade e fazer com que as pessoas falem mais abertamente sobre o cancro. Até já foi a um programa da RTP-Madeira. Fazer isto não é certamente fácil, ainda mais para uma mulher, que se sente diminuída e afectada na sua aparência. Mesmo assim, foi em frente.

“De repente, os vizinhos já sabem, os conhecidos também, as pessoas que conhecemos do mercado ou do centro comercial”… Trata-se de assumir plenamente uma situação que geralmente faz com que as pessoas busquem esconder-se, como se tivessem feito algo de errado, e dar-lhe a volta.

Paralelamente ao concerto, estará no Funchal o oncologista Fernando Fernandes, que está a tratar Raquel e que virá do continente para marcar presença no acontecimento benemérito.

Conforme apurou o Funchal Notícias, numa organização da Liga Portuguesa Contra o Cancro em articulação com o SESARAM, o médico irá também no dia seguinte, 31 de Julho, ao Hospital Dr. Nélio Mendonça, para fazer um prelecção, a pessoal clínico, devendo à noite participar num jantar promovido pela “Confraria dos Cavalheiros da Tábua Redonda”, um grupo que promove encontros para discutir diversos temas.

A quimioterapia e a queda do cabelo afectam a imagem que a mulher tem de si própria. Mas nunca se deve desanimar.
A quimioterapia e a queda do cabelo afectam a imagem que a mulher tem de si própria. Mas nunca se deve desanimar.

Entre os patrocínios que a nossa interlocutora e os que a apoiam já conseguiram angariar, contam-se os dos hotéis Four Views Baía, Hotel Quintinha de São João, Riu Hotel Madeira, Pestana Casino Park, Quinta Mirabela, Inatel, Calheta Beach, Enotel Golf, Vidamar Resorts, Cabeleireiro Verso, estilista Hugo Santos, revista Saber, RTP Madeira e também o Funchal Notícias. A CMF e o hoteleiro António Trindade também ajudaram.

Raquel faz questão de relevar, no seu processo de tratamento, a ajuda dos médicos Fernando Fernandes (oncologista e cirurgião especialista em senologia) e Paulo Cortes (oncologista e responsável pelos seus tratamentos de quimioterapia, ambos de Lisboa); e os médicos da Madeira, Yaneth Gomes (médica de família) e Duarte Freitas (radiologista, ambos do Madeira Medical Center).

À nossa reportagem, diz que quem se vê, como ela, numa etapa difícil da vida deve procurar todos os meios de cura. “Mas atenção, mesmo nesta fase há muita gente que nos tenta enganar. Temos de procurar os profissionais credenciados e fidedignos. Não podemos ir na conversa de pessoas que nos querem fazer crer que nos sentiremos bem a tomar suplementos vindos de não sei onde. Temos de procurar, sim, os médicos da medicina convencional [ocidental], em articulação com a medicina tradicional chinesa”.

No seu caso, a acunpunctura ajudou-a, pela mão de Carolina Fernandes: “Esta terapia tem-me ajudado muito no que concerne aos efeitos secundários da quimioterapia”, refere. A velha técnica oriental das agulhas espetadas em determinados pontos do corpo ajudou-a, afiança, no que diz respeito ao apetite, ao sono, à ansiedade, às dores de cabeça, à tensão arterial, e mesmo no que diz respeito à queda do cabelo.

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Depois de todas as peripécias pelas quais passou e continua a passar, Raquel quer deixar não só a sua contribuição para a organização de um evento solidário, não só o seu testemunho, mas também uma palavra aos que, como ela, sofrem. Uma mensagem de esperança. Por isso, redigiu o texto que passamos a transcrever:

“A MINHA MENSAGEM DE ESPERANÇA”

Dia 9 de março, nunca mais irei esquecer. Foi o dia da noticia, da descoberta, o meu maior pesadelo. Aos 46 anos de idade nunca pensei ouvir tais palavras. Tinha um tumor maligno mamário.

Nem queria acreditar! Toda a minha vida começou a passar na minha cabeça como um filme. E agora? Comecei a chorar sem parar. 

Tudo girava à minha volta, como se um furacão tivesse invadido a minha vida e a minha alma. O choque da noticia, a aceitação da doença, o regresso à realidade, demorou alguns dias. Poucos dias, que mais pareciam uma eternidade. 

Ergui os olhos, limpei as lágrimas. Abracei o meu marido, a minha filha, a minha família. Partimos para Lisboa a procura de uma solução, porque cá, o cenário foi escuro, sem uma luz no fundo do tunel. Fui a Fátima pedir ajuda espiritual. Depois, encontrei aquele médico, um homem de longa experiência no mundo oncológico, não só um bom profissional como um ser humano fantástico. Após vários exames, chegou a decisão terapêutica para o meu caso. Depois desse dia começou a longa caminhada da cura, esperança e força interior. Segui a luz no fundo do túnel, a luz da vida.

Hoje, depois da cirurgia, estou no meio de alguns ciclos de quimioterapia. Um caminho de pedras duras e afiadas nas quais muitas vezes tropeço e caio mas, logo levanto-me.

 Transportarei esta cruz até o fim. Não vais vencer! Continuarei seguindo em frente sem olhar para trás. Seguirei a luz que me leva à vitória.

Para a frente: ainda tenho uma vida repleta de bons momentos reservados para mim, em que a minha querida familia e amigos participarão ativamente neste novo renascer.

Aqueles que ainda não encontraram a luz da esperança, não desistam! Levantem os olhos, procurem soluções. Arregacem as mangas, porque não será facil, mas, lembrem-se sempre, que depois da tempestade vem a bonança, onde os ventos trarão o sabor doce da vitória. 

Até lá, não deixem nada por dizer, amem muito, alimentem só bons sentimentos e deixem para trás tudo o que vos faz mal e perturba o vosso coração e mente. Sigam os vossos sonhos, porque se eles deixarem de existir, tudo,  nossa luta, deixa de fazer sentido.

Se caires, ergue a cabeça e levanta-te. O caminho é sempre em frente!

Raquel Lombardi