A convalescença da Saúde Regional

icon-mario-pereiraMuitos questionam-se da razão de, passados mais de 3 meses após as últimas eleições, serem cada vez mais os madeirenses a questionarem-se do porquê de o sector da saúde regional não encontrar serenidade e um rumo em direcção às boas práticas existentes noutros tempos. Alguns até afirmam que a verdadeira renovação ocorreu não agora, mas com a anterior e popular gestão de Mário Rodrigues e Carlos Martins. A verdade é que as pessoas começam a falar, mesmo em surdina, à medida que o medo reinante nas instituições de saúde vai-se esbatendo. Na verdade, o tempo de gestão decorrido é escasso, mas as expectativas estão muito altas.

A gestão da saúde regional assenta obviamente na Secretaria e o Sr. Secretário, Dr. Manuel Brito, apoiado por Ana Marques. Os quadros técnicos, Dra. Maria Romão e Dra. Lígia Correia chefiam respectivamente o IA-Saúde e o SESARAM, enquanto o Dr. João Manuel Silva é director clínico e a Sra. Enfermeira Luísa Baeta é enfermeira-directora. No entanto, as direcções de serviço mantiveram, na sua essência, as lideranças e a estratégia da gestão de Miguel Ferreira. É esta equipa a quem cabe a difícil tarefa de mudar o estado da Saúde na Madeira.

E os desafios estão aí. As listas de espera são avassaladoras. 17.000 esperam por cirurgias e 28.000 por exames, para além de mais de 100 mil que continuam sem médico de família. Pior é o facto de estas listas de espera não terem sido avaliadas e fiscalizadas, incluírem doentes que já não deveriam estar e muitos outros que delas não constam, os falsos positivos e negativos. Ressalta, pois, uma desorganização e falta de critério, o que se traduz em má gestão dos recursos e injustiça. A Presidência do Governo Regional, e bem, impediu os planos da Secretaria para o fim imediato da Convenção, recuo esse que permitirá aos doentes ter ainda uma alternativa no privado às carências do sistema público.

Os cuidados de saúde primários (CSP) e a prevenção das doenças estão abandonados, considerados apêndices dos cuidados hospitalares, o que se traduz no desânimo dos profissionais. Se a nomeação da Dra. Ana Nunes para a coordenação clínica poderá ser uma garantia de um novo dinamismo, a desconsideração que alguns assessores da nova Secretaria têm dos CSP, poderá vir a ser problemática. O projecto das Unidades de Saúde Familiares (USF) é bem-vindo mas não chegará já ao grosso dos centros de saúde, para além de que o proposto modelo regionalizado das USF poderá não ter a eficácia organizacional do nacional. Mais: à crónica falta de médicos, junta-se agora a saída de enfermeiros para colmatar carências no hospital.

A orgânica funcional do hospital continua disfuncional. O sistema está centrado no Serviço de Urgência que, por acaso, tem um hospital anexo, mas o correcto seria ter um hospital com um pequeno serviço de urgência para os casos mais graves e emergentes. As próprias remunerações de muitos profissionais dependem do “rating” que os seus serviços têm nas urgências. E como não há uma correcta articulação das equipas, muitas decisões clínicas serão sistematicamente adiadas, ao mesmo tempo que o trabalho dos médicos e enfermeiros nas urgências assumem níveis de risco e stress inaceitáveis. Os novos sinais indicam que não há muita vontade da gestão clínica actual mudar esta situação, muito por via dos interesses manifestos que estão instalados.

Muitos profissionais referem constantes violações de conduta ética por parte daqueles, poucos, que, estando próximos dos órgãos de decisão clínica ou mesmo do poder partidário reinante, gerem interesses muitas vezes distintos da instituição e dos utentes, algo endémico na administração pública regional, mas especialmente condenável no sector da saúde. Os próprios médicos não compreendem como são os únicos no país que não têm contratação colectiva, o que obviamente torna a Madeira menos atraente para os jovens médicos. Questionam também o facto de a actual equipa negocial da Secretaria ser composta por quem no passado denunciou essa contratualização. Serviços altamente carentes como ORL,

Anestesiologia, Radiologia, Reabilitação ou Ortopedia correm o risco de continuar no mesmo estado. Ao mesmo tempo existem na Madeira enfermeiros qualificados que permitiriam colmatar as carências, mas para isso é preciso que haja vontade e meios. Há situações que, bem geridas, permitem melhorar a eficácia dos cuidados prestados à população e poupar recursos. Refiro-me à humanização dos cuidados de saúde, algo supostamente abstracto mas simples de praticar e que, muitas vezes, é conseguido com a optimização do funcionamento das equipas e, por outro lado, através da cooperação institucional com o Ministério da Saúde, tal como já foi formalizado na semana que passou.

As dificuldades em arrancar com o projecto do novo hospital, no qual o Dr. Manuel Brito está manifestamente empenhado, resultam de um confronto de ideias, ainda não resolvidas no interior do PSD, entre aqueles que dão primazia ao deficiente sector da saúde e aqueles que defendem outro uso para os fundos existentes, nomeadamente comunitários. O próprio Ministro da Saúde, Paulo Macedo, instou a que as entidades regionais estudem detalhadamente o assunto, façam bem as contas e tomem a decisão de fazer opções estratégicas. Só então fará sentido solicitar os apoios específicos à República.