Ouvida uma versão kitsch do hino nacional (uma diva a gritar «contra os canhões, marchar, marchar» várias oitavas acima de um som arrastado e plangente de guitarras), arrisquei-me, embora apreensivo, a escutar o discurso da presidente do parlamento. E fiz bem, porque fiquei a saber que, para falar da arte e da simplicidade de Eusébio, é imprescindível citar Espinosa, para afirmar, e Nietzsche, para desafirmar. E que foi o consenso parlamentar, filosoficamente equiparado pela senhora presidente a «coesão positiva», quem fez escancarar as portas do Panteão, sendo isso uma metáfora do próprio jogo da democracia, que visa fazer que todos estejam de acordo e que todos puxem ou empurrem para o mesmo lado. Eu tenderia, sobre o mesmo tema, a achar que o melhor da democracia é poder discordar sem correr perigo e, sobre a arte futebolística, a citar o divino Gabriel Alves e o injustamente esquecido Alves dos Santos, o tal do «conta, peso e medida», para não ter de escolher entre o Joaquim Rita e o Rui Santos, mais pós-modernos, que é como quem diz.
Mas não: afinal, está tudo em Espinosa e, não estando, está também em Nietzsche. Não perceber isto, é, compreendo agora, entrar em inconseguimento, que está para o ser como o incumprimento está para o devir da Grécia, ou talvez nem por isso. E eu não quero inconseguir, apesar de ter muita dificuldade em decidir se, ficar eternamente no mesmo Panteão onde já estavam Sidónio Pais e Carmona, equivale a um destino impecavelmente bem conseguido. Até porque, como a senhora presidente dizia, Eusébio «era o fazedor dos afetos da alegria», em oposição, imagino, aos afetos da tristeza, que devem ser os laços que irmanam os que, conseguindo entrar no Panteão pela porta das traseiras (da História), inconseguiram fazer-nos felizes por isso.
Portanto, falar, como ela falou, de «pura concordância acima de todas as preferências particulares», só pode ter um sentido, uma vez mais, metafórico. É evidente que a senhora está em perfeita concordância com a maioria, com o governo, com a troika e com o orador que se seguiu a ela, o senhor presidente, de cujo discurso inconsegui reter coisa nenhuma. E, estando-o, dificilmente poderia estar com a genuína simplicidade de Eusébio, que nunca enganou os portugueses, nem nunca se escondeu deles, calculista, chegando mesmo a jogar com um joelho ligado por arames. Portanto, o que se pode inferir é que, também desta vez, pairou sobre a senhora presidente o tenebroso espectro do inconseguimento: não conseguiu compreender que, por mais que o poder se esforce por se colar a Eusébio para nos anestesiar, nos tempos do corporativismo fascista, como nos tempos atuais do fascismo dos mercados que mandam nos governos, a verdade é que inconsegue.
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