A memória contra o esquecimento

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Daqui a uns dias, completar-se-ão dois meses sobre a data em que ocorreram as eleições, na Madeira, para a respectiva Assembleia Legislativa. Antes dos resultados terem sido conhecidos, – duas ou três semanas antes, calculo -, referi-me, neste local, ao que eu pensava provável poder vir a acontecer, antecipando, de entre outros possíveis, o cenário que se me afigurava, porque próximo da continuidade, menos favorável ao exercício da tolerância, do diálogo, do compromisso, da negociação, do respeito pela diferença, do reconhecimento, e as preocupações a que, sob o pinto de vista democrático, tal situação me conduzia. Em nome desses valores, que prezo, respeito e me esforço por cumprir, devo afirmar, sem ambiguidades que, sendo embora cedo para avaliar da qualidade e quantidade do que, substantivamente, invade o espírito criativo dos novos responsáveis e o rol daquelas que poderão vir a ser as propostas que darão cor e futuro aos novos tempos, há um conjunto de iniciativas de natureza procedimental, mais conformes com a democracia e com as suas exigências, que têm vindo a ser adoptadas – algumas, eventualmente, só anunciadas – e que, estritamente no plano pessoal, me agradam, criam expectativas positivas e permitem adivinhar a possibilidade de novas e arejadas práticas que, por contarem com todas as forças políticas e com todos os cidadãos, se revelem enriquecedoras da autonomia, dinamizadoras do seu funcionamento, potenciadoras de alternativas, e de alternância, e traves-mestras do reforço da sua dignidade, do seu prestígio e da sua imagem tanto nos planos interno como externo.
Mas, mal haviam encerrado as urnas, no entanto, e já os diferentes comentadores, dos quadrantes políticos mais variados – percebia-se o afã que rodeava estas eleições regionais em função do que pudessem significar para o todo nacional (nunca é tarde para haver uma primeira vez) … – um pouco por todo o país, reconheciam, preocupados, coitados, que, dos resultados das eleições na Madeira era inevitável fazer uma leitura nacional, querendo com isto significar que poderia a maioria que insiste em manter-se no poder estar menos preocupada porque, se na Madeira o esquecimento do que foram os últimos quatro anos da governação do PSD/CDS fazia o seu promissor caminho, e com sucesso, – para eles -, no plano nacional poder-se-ia adivinhar qualquer coisa de semelhante. Ou seja, e de outra forma, se a Madeira, a julgar pelas eleições regionais já teria “perdoado”, o País não deixaria, portanto, de o fazer, também, no tempo certo. Para outros, porém, o resultado eleitoral da Madeira vinha ratificar a ideia, posta a circular, de que o principal partido de oposição, o PS, não constituía alternativa e, assim, o País estava entregue aos “bichos”. A mais singela e superficial das observações e análises aos resultados eleitorais na Madeira ao longo de 39 anos o que nos evidencia de imediato é que, salvo marginais e justificáveis coincidências, as eleições na Madeira nunca, mas é que, nunca, fizeram repercutir os seus efeitos no todo nacional, ao contrário de uma análise em sentido inverso em que é patente, longe embora de uma perspectiva considerada proporcional, a convergência no sentido de voto no universo eleitoral dos portugueses.
Se, no que aos apoiantes da actual maioria PSD/CDS diz respeito, é possível e compreensível a legitimação da análise e da sua valorização, já no que a oposição diz respeito, ela ilustra o quão partido e repartido está o sectarizado espaço de intervenção à esquerda e a sua incapacidade para entender o que é essencial na vida política nacional hoje, e nos anos que a este se seguirão, decisivos na afirmação da vontade colectiva de um povo, ou prenúncio de reconhecíveis e identificáveis tempos novos, mas iguais, agrestes e piores para a vida de todos nós.
Nas redes sociais, concordei, clicando um like, com um amigo que só dali conheço, que afirmava ser, o ano de 2015, o ano do “combate da memória contra o esquecimento”. Os últimos quatro anos vividos no País, pelo significado dramático que tiveram na vida dos portugueses, não podem ser esquecidos; pelo contrário, devem ser insistente e enfaticamente lembrados e servirem de referência aos critérios que ditarão as escolhas que vierem a ser feitas nas próximas eleições legislativas nacionais. É tempo de recuperar o tempo, – o que se perdeu, o que se destruiu, o que se desfez, o que se alienou, o que se desvalorizou, o que se menosprezou, o que se hipotecou, o que se gastou, o que se inutilizou -, ao serviço do País, claro, mas sobretudo ao serviço dos portugueses: dos novos, dos velhos, dos homens, das mulheres, dos licenciados e dos que o não são, dos que vivem em Portugal e dos que voluntariamente ou não vivem fora, e longe dele, mas integram, com orgulho e mágoa, a nação de todos nós, a portuguesa.

Post-scriptum:
Ocorre-me, a propósito, recordar, “não vá o diabo tecê-las”, que, a caminho de se completarem os 39 anos de Autonomia vividos pela Madeira e pelos Açores, os períodos de maior adesão, abertura, compreensão, espírito de entreajuda, solidariedade institucional, coesão orçamental, reforço constitucional, inovação estatutária e disponibilidade financeira correspondem a momentos em que, e não é coincidência, nem mero acaso, a maioria na Assembleia da República não era do PSD, – do CDS/PP nem pensar, claro -, nem este suportava qualquer governo da sua cor política. A Autonomia, é justo que se reconheça, viveu os seus momentos melhores, mais autênticos e mais esperançosos no diálogo incessante, frutuoso e profícuo com as maiorias e os governos que o PS foi titulando ao longo de vários anos.
A memória… é isto!