Debate sobre a encíclica do papa regista grande afluência

 

wpid-fotografia.jpg

O debate em torno das temáticas da protecção do ambiente, do desenvolvimento sustentado e da necessidade de maior solidariedade com os países pobres por parte dos que são mais industrializados, expressas na mais recente encíclica do papa Francisco, congrega neste momento diversas personalidades de destaque da cena política, social e cultural da Região no Salão Nobre do Teatro Municipal Baltazar Dias. A iniciativa, que partiu do padre José Luís Rodrigues, colaborador do Funchal Notícias, contou com a presença do presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, e do edil funchalense, Paulo Cafôfo, além de deputados da Assembleia Legislativa da Madeira e de membros de diversos partidos e público em geral, e visou não só discutir estas questões em geral, mas também contribuir para a sensibilização das entidades regionais para a forma como a protecção do ambiente se interliga com problemáticas complexas como a pobreza.

Os palestrantes, presentes na mesa, são o ecologista Raimundo Quintal, o historiador Nelson Veríssimo e o jurista Marques de Freitas, além do próprio padre José Luís.

Em declarações ao Funchal Notícias, José Luís Rodrigues confessou que dois aspectos, em particular, o impressionaram na encíclica ‘Laudato sì’: “O primeiro é ser, de facto uma encíclica que faz um apelo para a ecologia integral, nomeadamente mostrando que a pobreza e a degradação ambiental são duas faces da mesma moeda. Depois, há um outro aspecto que vou sublinhar, uma ideia muito interessante de Edgar Morin: comentando a encíclica numa entrevista, ele considerou que a mesma é o primeiro acto de um apelo para uma nova civilização”.

O nosso interlocutor considerou ser isto especialmente digno de nota, uma vez que, de facto, hoje em dia a Humanidade está já a sofrer as consequências do consumo cego e exagerado dos bens que a Natureza nos dá, e bem assim dos bens materiais. “Aqui está, de facto, o apelo crucial para nos reunirmos e debatermos esta temática”.

A exploração dos países do Terceiro Mundo pelos países mais desenvolvidos é abordada nesta encíclica papal, que critica o fascínio exacerbado pelo lucro que rege praticamente tudo nos nossos dias.

wpid-fotografia-1.jpg

Questionado sobre a situação da Grécia, que muitos vêem como uma verdadeira chantagem do Eurogrupo sobre um país que se encontra numa situação económica muito difícil, mas que quer taxar os mais ricos e não impôr ainda mais austeridade aos mais pobres, o Pe. José Luís Rodrigues diz que “o próprio papa dá resposta” a esta situação com “esta ideia que me parece ser interessante, e que é de facto aquela que corresponde à realidade: deixámos de ter o centro da organização social nos Estados, focados nas pessoas… passou-se a centrar a orgânica da vida, da sociedade e dos Estados, na finança. Naturalmente que as coisas depois descambam, pois é preciso salvar as pessoas… e o dinheiro deve ser sempre um instrumento, e não um fim em si mesmo. Porque se não for assim, onde iremos parar?”, questiona-se.

E acrescenta que o papa Francisco baseia muito o seu discurso ecológico numa frase que um velho agricultor lhe tinha dito: Deus perdoa sempre, os homens, às vezes, e a Natureza nunca.

“De facto, já vamos vendo, em diversas partes do mundo e até mesmo entre nós, alterações climáticas que são consequência deste desenvolvimento desenfreado e desregrado. A Natureza, de facto, é implacável; quando se desequilibra, põe em causa a segurança e o bem-estar da Humanidade, e leva ao sofrimento e à morte”.

 

Questionado sobre se, em seu entender, na Madeira de hoje os governantes estão suficientemente sensibilizados para a problemática ambiental, na perspectiva em que a abordou o papa, José Luís Rodrigues constata, cautelosamente: “Vamos falando, dos incêndios, do temporal do 20 de Fevereiro de 2010… mas penso que ainda não chegámos à ecologia integral”.

“Ainda não se criou, em termos de medidas políticas, tanto ao nível das autarquias como do Governo Regional, condições que nos pusessem todos a pensar nisto de uma forma integral: salvar a nossa ilha, a Natureza, de uma forma ligada às pessoas. A nível mundial, estes desequilíbrios da ecologia da natureza e da ecologia humana estão centrados nessa moeda de duas faces: as alterações climáticas e a pobreza. Nós aqui estamos também assim… A Natureza devolve-nos situações graves, e temos o avolumar da pobreza, que é preciso atacar, gerando emprego e formas de dar dignidade às famílias”, remata.