Carlos Gardel deixou-nos há 80 anos

Carlos Gardel ajudou a transformar o tango numa coqueluche internacional
Carlos Gardel ajudou a transformar o tango numa coqueluche internacional

Luís Rocha (texto) Rui Marote (fotos)

Foi já há muitos anos, a 24 de Junho de 1935, que a Argentina perdeu um dos seus mais emblemáticos artistas, num trágico desastre aéreo ocorrido em Medellín, Colômbia: falecia então Carlos Gardel, autêntico galã capaz de arrastar multidões, com aspecto de actor de Hollywood – que, aliás, o contratou e assim promoveu o seu talento – bem como vários dos seus músicos, amigos e produtores executivos, e bem assim o seu parceiro Alfredo Le Pera, natural de São Paulo, Brasil, e autor de várias letras dos seus mais conhecidos êxitos.

A multidão que chorava então a morte de um ídolo pouco adivinhava então da suas origens singularmente humildes. O cantor que revolucionou e popularizou o tango e a milonga, com a sua inconfundível voz de veludo num sublime tom de barítono, tinha na realidade nascido em Toulouse, França, em 1890, filho de uma mãe solteira, uma humilde lavadeira aparentemente abandonada já com o bebé nos braços por um homem casado que não quis assumir o filho bastardo e que, inclusive, chegou a abandonar a cidade com a família, para evitar esta situação embaraçante.

Para Berthe Gardes, a mãe do então baptizado Charles Romuald Gardes, as circunstâncias não o eram menos: é fácil imaginar o opróbio a que foi votada, em finais do século XIX, numa sociedade ainda fortemente puritana, por ter gerado um filho fora do casamento. Por esse motivo, certamente, a mãe do futuro Carlos Gardel (como acabaria por se tornar conhecido) optou por deixar Toulouse, embarcando para a América Latina quando o mesmo apenas contava três anos de idade.

Foram muitos os nomes que lhe chamaram enquanto crescia num dos bairros da capital argentina. ‘El francesito’, denotando as suas origens gaulesas; Carlos, equivalente de Charles em língua castelhana; e o diminutivo Carlitos. Gardes acabaria mais tarde por se converter em Gardel.

A música e as canções complementam a extrema emotividade e sensualidade da dança
A música e as canções complementam a extrema emotividade e sensualidade da dança

Enquanto a sua mãe continuava a ganhar a vida a lavar e a passajar roupa, e Carlos frequentava uma escola comercial, não houve espaço para grandes luxos. Mas o sucesso estava ao virar da esquina e, ainda com vinte e poucos anos, Carlos Gardel começou a actuar em clubes e festas, acompanhado por alguns companheiros músicos. ‘Mi Noche Triste’, de Pascual Contursi e Samuel Castriota, foi uma interpretação marcante da parte de Carlos Gardel que, em 1917, marcaria o início do sucesso do ‘tango-canción’ na voz daquele que se tornaria um ícone das multidões latino-americanas e cuja carreira atingiria contornos internacionais bastantes raros para artistas sul-americanos da época. Gardel foi mesmo uma das influências marcantes da portuguesa Amália Rodrigues.

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As ‘tournées’ por vários países sucederam-se, os discos gravados e vendidos foram muitos, e o dinheiro começou a entrar e a proporcionar uma vida confortável. Gardel teve a possibilidade de prover às necessidades de sua mãe e, mais tarde, de com ela regressar a França e encontrar parentes que lhe eram desconhecidos e cujo contacto cultivou. Foi no auge da sua carreira de actor e cantor de destaque que a morte o veio colher, numa deslocação à Colômbia. O seu corpo foi levado para Montevideo, no Uruguai, onde a sua mãe residia à altura do seu passamento, via Nova Iorque e Rio de Janeiro. Multidões assombrosas vieram prestar-lhe os seus respeitos. Acabou por ser enterrado em Buenos Aires, no cemitério de La Chacarita. Tinha apenas 44 anos.

Para a posteridade fica uma voz riquíssima e carregada de emoção, que dá gosto ainda hoje ouvir intepretar êxitos como ‘Por una cabeza’, que reflectem um dos grandes amores da sua vida (além da namorada mais séria, Isabel del Valle, que manteve cuidadosamente escondida, para não afectar a sua imagem de galã junto do público feminino): as corridas de cavalos.

‘Mi Buenos Aires querido’, ‘El dia que me quieras’, ‘Viejos Tempos’ ou ‘Volver’ são apenas algumas das outras canções que vêm à memória. Honra a Carlos Gardel: com Astor Piazzolla,foi uma das grandes contribuições da Argentina para o mundo. Durante muito tempo, houve polémica sobre a verdadeira nacionalidade deste franco-argentino. Aliás, em dada altura ele afirmou ter nascido no Uruguai. As dúvidas vieram dissipar-se mais tarde: nascera mesmo em França, nas circunstâncias já descritas.

Até hoje, fica a memória de ‘El Zorzal’, ‘El Mudo’, ‘O Rei do Tango’ ou ‘El Mago’, entre as muitas alcunhas encomiásticas que lhe atribuíram. Talvez a mais simples, e a mais carinhosa, que lhe chamava o povo tenha sido simplesmente ‘Carlitos’.

imagens alusivas ao desastre aéreo, captadas no Museu da Moneda, em Bogotá
imagens alusivas ao desastre aéreo, captadas no Museu da Moneda, em Bogotá

Dos filmes que fez para Hollywood, não ficam na memória grandes enredos. Mas ficam os momentos em que demonstrava as suas extraordinárias qualidades vocais e a sua presença. Digamos como os argentinos, ainda hoje: “Carlos Gardel canta melhor a cada dia que passa”.

A Igreja da Candelaria, onde o corpo de Gardel permaneceu antes de ser enviado para a Argentina
A Igreja da Candelaria, em Bogotá, onde o corpo de Gardel permaneceu antes de ser enviado para a Argentina

 

O túmulo de Carlitos em Buenos Aires: um lugar ainda hoje muito visitado
O túmulo de Carlitos em Buenos Aires: um lugar ainda hoje muito visitado