Museu de CR7 em São Lázaro deixa desporto náutico em estado de choque

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Associações e clubes ligados ao desporto náutico foram, na passada quarta-feira, informados pelos Portos que têm de retirar equipamentos e embarcações de São Lázaro, na zona adjacente ao edifício da Praça do Mar. A APRAM diz que quer pôr ordem no lugar, mas há quem acuse de se estar a entregar a zona a interesses privados e para fins que nada têm a ver com as atividades náuticas. As obras do novo Museu de Cristiano Ronaldo vão mesmo arrancar em breve. Dirigentes estão em estado de choque e falam em “marcha à ré” por parte de Albuquerque.

A surpresa foi total e neste momento os agentes ligados aos desportos náuticos continuam a digerir a difícil notificação que receberam na última quarta-feira. Chamados para uma reunião na Administração de Portos, a entidade que tutela a zona do varadouro de São Lázaro, os dirigentes ouviram da boca de Alexandra Mendonça algo que não estavam à espera, até porque ainda este ano, em período de campanha eleitoral, a candidatura social-democrata concordaria com a ideia de reservar a totalidade daquele espaço à criação de um centro náutico moderno e bem apetrechado. Miguel Albuquerque e Jorge Carvalho, atual secretário regional da Educação e responsável pela área do desporto, chegaram a falar pessoalmente com os responsáveis associativos ainda antes das eleições de março e, pelo que deram a entender na altura, partilhavam da mesma visão: todo o espaço, entre a zona da estátua de Ronaldo até à foz da ribeira de São João, ficaria para as atividades de mar, desportivas e de recreio, com o objetivo de promover a formação jovem e afirmar a Região como centro do desporto náutico de referência. Outro dos objetivos seria pôr fim à anarquia que se assiste na zona, agravada pelo 20 de fevereiro, e melhorar as condições de acesso e segurança.

Por isso, foi com um misto de perplexidade e descontentamento que receberam a ordem de proceder à transferência dos equipamentos da zona para aí ser implantado um núcleo museológico associado a Cristiano Ronaldo. Segundo o Funchal Notícias apurou, clubes e associações sentem-se defraudados nas suas expetativas de vir a ser criado na Região um centro de renome que dote as modalidades de condições compatíveis com o palmarés de prestígio que este sector tem alcançado. Recorde-se que a Madeira tem conseguido presença e títulos em provas olímpicas e internacionais, sobretudo com atletas como João Rodrigues (windsurf), Helena Rodrigues e David Fernandes (canoagem), este último recente campeão europeu em K4.

Quem também se diz perplexa é a própria APRAM. Alexandra Mendonça não entende a razão das queixas até porque há cerca de dois meses a anterior vice-Presidência havia notificado as associações no mesmo sentido. É do interesse de todos, diz, que se proceda à inventariação dos equipamentos e limpeza do local.

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Em breve surgirá no horizonte um novo edifício em São Lázaro, reduzindo o espaço para o desporto náutico.

Redução do espaço em 40%

As ordens são claras: embarcações e equipamentos de apoio às modalidades junto ao edifício da Praça do Mar terão de sair já nos próximos dias, sendo transferidos para a área anexa à foz da ribeira de São João. Numa primeira análise representará uma diminuição do espaço disponível na ordem dos 30 a 40%. Como se percebe, a insatisfação é geral e começam a surgir preocupações ao nível das condições técnicas na atividade futura das várias coletividades.

Se a questão da requalificação é consensual e bem vinda, o mesmo já não acontece com a notícia de que as atividades náuticas terão de abdicar do espaço para a implantação do museu de Cristiano Ronaldo, uma infraestrutura que nada tendo a ver com o mar, vai pelo contrário condicionar o acesso dos praticantes e o futuro das próprias modalidades. “Será mais um mamarracho a construir ao lado de outro mamarracho”, dizia um dos utentes do varadouro, referindo-se ao edifício da Praça do Mar.

Contactado pelo Funchal Notícias, o presidente da Associação de Canoagem da Madeira, uma das três ligadas aos desportos de mar, não escondeu o desânimo. “Uma vez mais somos prejudicados. Não esquecer que durante anos tivemos de aguentar as condições difíceis das obras e dos estaleiros instalados naquela zona”.

Viriato Timóteo diz não perceber a inversão de planos do atual executivo num momento em que a aposta europeia é o mar. “Aqui acontece ao contrário. O mar está a ser esquecido”, lamenta.

Por enquanto, os dirigentes não têm ainda uma estratégia definida, mas vão tentar chegar à fala com os governantes que tutelam a área do desporto e as infraestruturas portuárias, a fim de conseguir algumas garantias futuras quanto à ocupação e utilização do espaço.

Da parte da APRAM, a versão é diferente. Alexandra Mendonça esclarece que o objetivo desta posição é, sim, defender o futuro das modalidades e dar dignidade àquela zona nobre da cidade. “O que pedimos aos clubes foi para fazerem uma inventariação das embarcações e equipamentos que lá existem, alguns já muito danificados e velhos, a fim de se proceder a uma limpeza e requalificação da zona”, explica a responsável. “Não houve ultimato nenhum e ninguém sairá dali. Agora, é do interesse de todos, e do desporto náutico principalmente, que se crie um regulamento para o espaço onde fiquem definidas as questões relacionadas com a limpeza, a segurança e a vigilância. É isso que estamos a preparar e foi para auscultar as associações e os clubes a darem o seu contributo na elaboração desse documento que reunimos na quarta-feira”.

Alexandra Mendonça diz não entender então o descontentamento. “A reunião até foi pacífica, ninguém se pronunciou contra”, responde, recordando que dificilmente os clubes podem alegar surpresa quando há cerca de dois meses já haviam sido notificados para a operação de limpeza.

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A APRAM quer a área limpa e livre para o novo museu.

 

Acesso ao mar prejudicado

Facto consumado é que vão mesmo arrancar, para breve, as obras do novo museu de Cristiano Ronaldo, a cargo de uma entidade privada, junto ao edifício da Praça do Mar. A ideia do núcleo museológico chegou a ser avançada ainda no tempo do governo de Jardim tendo em vista, porém, o antigo edifício da APRAM.

Pensou-se que o projeto estaria definitivamente esquecido, mas a reunião de quarta-feira acabou com as dúvidas. Os novos planos surpreendem pela rapidez e determinação das autoridades regionais em abrir as portas de uma zona nobre a interesses privados. É de supor que haverá contrapartidas vantajosas para a Região.

Nestas negociações, a APRAM não mais é do que a interlocutora e todos reconhecem que a autoridade portuária tem as mãos atadas face aos acordos firmados pelo anterior governo.

Ao Funchal Notícias, a responsável pelos portos da Região confirma o projeto de instalar na zona uma infraestrutura particular, mas não comenta se estará associada ao atleta madeirense. “Há questões jurídicas ainda por definir, pelo que não confirmo nem desminto”, avançou Alexandra Mendonça que terá apresentado aos dirigentes, na última quarta-feira, um esboço do referido museu.

Nem todos entendem como positivo sacrificar a promoção da Região, assente num sector tão importante como o mar, às mãos dos interesses económicos. Nesta matéria, Viriato Timóteo é muito crítico. “O dinheiro não pode comprar tudo. Temos de pensar que aquela zona é fundamental para a criação de grandes eventos desportivos que vão promover a Madeira internacionalmente. Com o devido respeito pelo atleta que é o Cristiano Ronaldo, entendo que o museu pode ser implantado noutro lugar. Não deve é penalizar o acesso ao mar que já é tão reduzido”.

Outro dos problemas que se colocam com as obras do futuro Museu CR7 tem a ver com a transferência da atual rampa junto ao edifício da Praça do Mar mais para Este, deixando esta entrada de estar funcional enquanto decorrerem as obras. Sabe-se ainda que a secretaria de Sérgio Marques, a herdeira da anterior vice-presidência, vai iniciar outra empreitada com o alargamento do passeio na zona da rotunda, ligando a Praça do Mar à Avenida. A rampa aí existente irá também ser condicionada. Ou seja, surgem dúvidas de como manter o acesso em segurança ao varadouro se as duas obras acontecerem simultaneamente.

Estas preocupações foram transmitidas à APRAM, a interlocutora entre os utilizadores de São Lázaro e as entidades que aí vão operar. Alexandra Mendonça mostra-se sensível às apreensões dos clubes e associações e garante que a reunião serviu também para ouvir as posições dos agentes que usam o varadouro, “para uma ação concertada e de bom senso”.

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Junto à rotunda Sá Carneiro, a rampa de acesso ao varadouro vai também ficar condicionada.

 

Parque desportivo náutico adiado?

Recorde-se que a questão da requalificação do varadouro de São Lázaro com vista à criação de um parque desportivo náutico remonta a data anterior ao 20 de fevereiro de 2010. As associações e clubes estariam a trabalhar desde então com a Sociedade Metropolitana de Desenvolvimento no sentido de ser construído, na área que agora é expropriada, um edifício para uso de todas as coletividades, com balneários, ginásio, sala de imprensa, secretariado, sala de formação e outros equipamentos de apoio. Trata-se de um sonho agora mais difícil de concretizar, deixando dirigentes e atletas desanimados com o rumo que está a ser tomado.

Face aos recentes acontecimentos, levantam-se também novamente dúvidas quanto à intenção de o Grupo Pestana construir um hotel no edifício da Praça do Mar, infraestrutura que faz parte de um investimento global na ordem dos 22 milhões de euros. A maior parte do edifício continua por ocupar e pergunta-se por que não instalar ali o núcleo museológico.

Esta empreitada foi uma construção da responsabilidade da SMD e é composta por quatro pisos, dois inferiores de estacionamento automóvel com capacidade para 420 viaturas e dois pisos superiores, numa área total de cerca de cinco mil metros quadrados.