Tratada como um homem

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Em 1991, – não identifico de memória o mês, e isso é completamente irrelevante, de resto -, em Helsínquia, a participar numa reunião da Comissão de Defesa da UEO, manifestando um dia, junto de uma colega, a minha vontade de tentar perceber – tarefa impossível, sem ajuda, para quem, como eu, não sabe finlandês – de que modo, e em que termos, a comunicação social finlandesa abordava o fenómeno político, a acção política e os seus agentes. Fui informado de que, de uma maneira geral, a imprensa, a rádio e a televisão tendiam a privilegiar uma prática informativa que defendesse o prestígio da política e dos que a exercem como forma fundamental, senão única, de defender o bom nome do país interna e externamente. Não fiquei indiferente à opinião manifestada por, dela, ter resultado a sensação de que, de alguma forma, esse patriótico objectivo justificava uma autoimposta lógica censória contrária às legítimas exigências de uma informação livre, plural, isenta e desassombrada. Não mudei. Continuo, sem hesitar, a pensar como então, mas procurando carrear para o debate o que, em nome dessas práticas, são os excessos cometidos, as ligeirezas editadas, as meras suspeitas denunciadas, a perfídia institucionalizada e tudo o que, num imenso cortejo de palavras, imagens e sons, contribui para desacreditar quem exerce cargos públicos, sobretudo os de natureza electiva, e, assim, acredito que involuntariamente, atingir o regime no que ele tem, por definição, de mais autêntico. Não é a impunidade que reclamo. É, apenas e só, a verdade: austera, circunspecta, rude até.
Vindo da sala, através do corredor, chegou-me ao espaço em que trabalhava, há dias, o som oriundo da televisão que, transmitindo notícias, informava o País de que Hillary Clinton era candidata democrata à presidência dos Estados Unidos. De acordo com o citado na mesma ocasião, os republicanos já teriam reagido, com dureza, afirmando que, até às eleições, a candidata seria tratada como um homem. Por educação e sensibilidade, prefiro que uma senhora seja tratada como uma senhora; não foi, porém, isso o que me despertou um renovado sentimento de inquietação, não, foi a tradução automática que realizei ao igualitário comentário dos adversários de Hillary. Que significa ser tratada como um homem? O uso e o abuso das técnicas que têm funcionado no âmbito das campanhas negativas que se foram institucionalizando. A devassa da vida pessoal do visado, (ou da visada, neste caso) – da infância à idade adulta, passando pela adolescência -, académica, familiar e profissional; a indagação junto de familiares, amigos, vizinhos sobre o passado, o presente e o quotidiano da irreverente pretendente à Casa Branca. Tudo será objecto do mais rigoroso escrutínio: o que come, o que veste, que música ouve, que filmes vê, que livros lê, onde passa férias, com quem passa férias, etc. A possibilidade de sair de casa sem ter feito a cama, coisa que os vizinhos, alegadamente, bem conhecem, pode vir a ser mais importante para o futuro político da candidata, a partir deste momento, a confirmar-se, tida como desleixada, do que o importantíssimo rol de propostas com que se compromete para um melhor futuro dos americanos. É, convenhamos, subverter o que a democracia inspira de mais importante e… deve ser tido em conta. O caminho não pode ser este.
Neste rumo que resolvi seguir, procurando associar as boas, ou más, práticas informativas, com o comportamento cúmplice de alguns protagonistas, à realização satisfatória, ou não, de uma democracia participativa, aberta e propositiva, ocorre-me referir um episódio que não pode deixar de ter significado e ilustrar as preocupações em que me envolvo nesta breve referência ao que podem ser negative campaignings e as consequências perversas para o funcionamento do regime. Um partido (1) que, nas últimas eleições regionais, obteve um mau resultado eleitoral e procura agora escolher, na sequência da demissão do líder por elas fragilizado, alguém que o substitua para enfrentar os desafios que se colocarão nos próximos tempos, viu um dos seus militantes anunciar a intenção de assumir esse compromisso candidatando-se. Não se fez esperar quem, dentro da organização, assumisse a contestação e viesse a público com agressivas críticas ao candidato colocando-o de imediato sob o ponto de mira da intolerância e do sectarismo. Para quem pretende um partido forte, coeso e capaz do futuro…
Os noticiários falam da incompreensão, irritação e descontentamento de muitos militantes do PS pela decisão de António Guterres de se não candidatar à presidência da república. Fora do PS, na comunicação social, por exemplo, são várias as opiniões que pretendem ver nessa candidatura uma obrigação patriótica, moral e política.
Acontece que, António Guterres, não quer.
Quem quer, com o ambiente descrito, trilhar tais caminhos? A quem seduz o exercício de funções políticas, das mais humildes às mais significativas e relevantes, sob os holofotes da maledicência, da suspeição, da intriga, da calúnia e da infâmia? – Questões a que a democracia tem de responder com prontidão e excelência.
Os tempos que vivemos não são tranquilizadores. Os que se adivinham não são auspiciosos.

(1) O Partido Socialista a que me orgulho de pertencer