OPINIÃO. Novembro de 1997. O presidente da República, Jorge Sampaio cumpria uma visita oficial à Venezuela. Estava entre a comitiva um jovem jornalista (eu) e dois colegas de profissão que sempre me habituei a respeitar.
Tolentino de Nóbrega pelo ‘Público’ e Óscar Marcarenhas pelo ‘Diário de Notícias’ de Lisboa. Eu ao serviço do ‘Diário de Notícias da Madeira’.
Tolentino de Nóbrega deixou-nos a 7 de Abril. Óscar Mascarenhas deixou-nos hoje. Ambos na casa dos 60 anos. Idade prematura para se morrer.
Em Caracas, em 1997, fui testemunha da serenidade com que Óscar Mascarenhas encarava a profissão. Mesmo em cenários adversos, como das ruas e dos bairros de Caracas, tinha um olhar para além do óbvio.
Eu atarefado com a forma como, na altura, iria enviar a ‘peça’ jornalística para o Funchal (na altura não havia os meios que hoje os jornalistas dispõem) e ele sereno a ‘cobrir’ o encontro de Jorge Sampaio com Hugo Chávez com a serenidade que só se adquire depois de anos de ‘tarimba’.
‘Cruzei-me’ profissionalmente com Óscar Mascarenhas em três outros momentos. Um quando fui vice-presidente da direcção regional da Madeira do Sindicato dos Jornalistas (entre 30 de Outubro de 2000 e Outubro de 2002) e ele muito cioso das questões deontológicas, a propósito de uma querela com um jornalista madeirense que não interessa agora para o caso.
Outro a 30 Novembro de 2002, na Fundação Calouste Gulbenkien, em Lisboa, a propósito de uma reflexão sobre o jornalismo português e a Justiça, quando estava na ‘berra’ a detenção do jornalista freelancer José Luís Manso Preto, detido por ordem judicial por se escusar a revelar uma fonte de informação… numa investigação jornalística que nem chegou a publicar.
Guardo ainda nos meus papéis a intervenção então feita por Óscar Marcarenhas intitulada “O segredo profissional do jornalista como dever ético”. Dizia ele, a páginas tantas, “o dever do jornalista não se radica em sacralidades e dimensões extra-humanas mas, tão-só, no único pressuposto que sustenta a ética: a lealdade”.
E finalmente, a última vez em que me cruzei com o Óscar foi em Março de 2004, já lá vão mais de 10 anos, a propósito da realização do curso de Jornalismo Judiciário, ministrado pelo Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas (CENJOR) de que ele fazia parte. Com ele, o juiz desembargador, Rui Rangel. A mesma serenidade de vida, a mesma convicção, o mesmo amor à profissão.
Hoje, vítima de ataque cardíaco, morreu o jornalista Óscar Mascarenhas, antigo Provedor do Leitor do ‘Diário de Notícias’ (2012/2014). Tinha 65 anos. Tal como eu, frequentou o curso de Direito. O jornalismo, aprendeu-o no ISCTE e na vida.
Começou a trabalhar como jornalista no início de 1975 no diário ‘A Capital’, tinha eu quatro anos de vida. Saiu do seu ‘Diário de Notícias’ em 2002. Eu saí do meu em 2013.
Tal como eu, dedicou uma parte da sua vida à imprensa regional, passou pelo ‘Jornal do Fundão’, que bem conheço pois cinco anos da minha vida foram passados ali perto, na Covilhã.
Óscar Mascarenhas foi presidente do Conselho Deontológico (CD) do Sindicato de Jornalistas (SJ) durante oito anos (1996-2004) e professor na Escola Superior de Comunicação Social e no CENJOR.
Como jornalista relatou momentos históricos como as primeiras eleições livres da ex-RDA, em 1990, ou o julgamento de Xanana Gusmão, em Timor.
Foi vice-presidente da Direcção do SJ, entre 1985 e 1987, e várias vezes eleito representante dos jornalistas na Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (1994-2007).
A classe e o sindicalismo devem-lhe muito.
Tinha o seu feito? Tinha. Quem não o tem?
Até qualquer dia camarada!
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