Filhos mendigos de amor

jovens - rr.sapo.ptHelena Mota (texto e fotos)

Hoje, Dia da Mãe, há crianças e jovens que ficam à espera de um telefonema ou de uma mensagem. Mais do que prendas, queriam eles próprios um beijo, um abraço, mas as curvas da vida ditaram outros destinos. São menores que vivem em instituições, filhos com pais e mães à distância. São mendigos de afetos que acalentam a esperança de um dia recuperar uma relação interrompida pelos maus tratos, a negligência ou até a emigração.

Edgar, Leonor e Micaela são, desta vez, nomes fictícios que criámos para falar de três pré-adolescentes bem reais. Tão reais como as suas histórias de vida e as “estórias” em que se emaranham as vidas daqueles que por, instinto, obrigação ou simplesmente por amor, deveriam estar ao seu lado. Mas não estão. Uns porque não podem, outros porque não querem, haverá ainda aqueles que querem mas não podem. Pais e mães que se afastaram (ou foram afastados) dos filhos por razões várias que aqui não caberá julgar.

O certo é que as opções dos progenitores, por ação ou omissão, marcaram o destino e o coração destes três jovens. Entre eles partilham a circunstância de viver em instituições de acolhimento, afastados da família, esquecidos do que é celebrar as alegrias de um Dia da Mãe no calor de um beijo, na segurança de um regaço. Tal como qualquer jovem à entrada da adolescência, não gostam de falar abertamente das suas emoções. Se as raparigas são mais retraídas já o rapaz marca a sua atitude pela contestação e confronto, quer com os adultos, quer com os seus pares. Comum a todos eles é a esperança de um dia regressar a casa, à companhia da mãe, essa figura tão idealizada como amada, e dos irmãos. A família e os laços de sangue falam mais alto e fazem esquecer o quanto de tóxico, por vezes, a relação com os progenitores acarreta nas suas ainda curtas vidas.

fam+¡lia1 - rr.sapo.ptHoje damos voz às suas realidades, não porque o calendário se nos impõe, mas sobretudo para interpelar consciências, as nossas, de pais, mães e educadores. Relembrar que o exercício da maternidade e da paternidade é antes de mais uma bênção e não uma imposição dos genes, que educar é amar e que cuidar é respeitar.

Quisemos dar voz aos seus casos não por pena ou pessimismo, mas sobretudo pelo grande respeito e admiração que estes jovens merecem, desde muito cedo confrontados com dramas e sentimentos demasiado pesados para quem dá os primeiros passos na construção de uma personalidade. Compreende-se então por que a maioria manifesta baixa autoestima, insegurança, ansiedade, necessidade de chamar a atenção, por vezes de forma inadequada. São órfãos de afetos, mendigos do amor de alguém.

Entre a instituição e a violência doméstica

Micaela tem treze anos. Chegou há bem pouco à instituição encaminhada pela Segurança Social. Está ainda a tentar arrumar ideias, a gerir emoções e a adaptar rotinas. Em poucos dias mudou de casa, de escola, de amigos, de professores, de concelho até. Anda cabisbaixa e calada. Ainda esta semana, irritou-se na escola. Não gosta de Educação Física. Lida mal com o seu corpo agora em acelerada transformação, uma situação que tentar contornar com as roupas largas e pouco femininas.

Preocupa-a a mãe internada numa unidade psiquiátrica. “Penso que ela vai sair este fim de semana”, diz sem grande convicção. Então, estás contente? Abana a cabeça que sim. Poucas palavras. Olhos tristes.

Micaela terá de continuar ainda por algum tempo aos cuidados da instituição. Não só à espera da recuperação da mãe, mas porque o pai está sinalizado por violência doméstica direcionada à mulher. Uma situação que não é recente e que já esteve na origem de um anterior internamento da mãe de Micaela por depressão. Também dessa vez, a menor foi retirada de casa e encaminhada para outra instituição diferente da que está agora. Nos poucos anos de vida, Micaela tem intercalado períodos de institucionalização com uma vivência familiar marcada pela violência. O pai continua na casa da família, onde também vive uma irmã já adulta que procurará ficar com a guarda de Micaela assim que conseguir resolver a sua situação habitacional.

m+úe1Enquanto os adultos tentam cá fora juntar os bocados dos seus problemas, Micaela sente-se só. Quem com ela lida todos os dias reconhece-lhe a necessidade de afeto. “Quando chega, faz questão de ser aproximar para receber um carinho. Reage bem a um abraço. Vê-se que gosta de um colo.”

“Não quero a vida da minha mãe para mim”

Também Leonor, de 14 anos, gosta de afago. É geralmente bem disposta, mas tem dificuldade em lidar com a frustração. Fecha-se então no seu mundo, libertando emoções em cartas e mensagens imaginárias. Está a viver numa instituição particular de apoio a crianças e jovens, para onde foi encaminhada era ainda criança com os seus dois irmãos gémeos mais novos. A decisão de institucionalizar os menores deveu-se à falta de competências parentais por parte dos progenitores.

Com o pai os contactos são poucos. Até há bem pouco tempo era Leonor quem pedia sempre para visitar a mãe aos fins de semana. Na véspera de cada encontro, a mesma alegria, a esperança renovada de que a mãe iria acolhê-la com satisfação. Queria agradar, queria que a mãe gostasse dela da mesma forma. No final, a desilusão de sempre. A mãe raramente correspondia às suas expetativas, nunca a recebia de bom grado e cobrava à filha o enfado resultante daquela obrigação. Micaela começou a ressentir-se da constante rejeição. Atualmente já nem sabe se quer visitar a progenitora. “Ela pensa e quer outras coisas com as quais eu não concordo nem quero para mim”, desabafa. É já uma rapariguinha e, de acordo com os valores em que foi criada na instituição, as opções da mãe por uma vida na prostituição levam-na a questionar se vale a pena insistir num relacionamento que sente não ser correspondido.

Há cerca de seis meses, Leonor sofreu outro duro golpe. Os irmãos mais novos com quem vivia foram adotados por uma família a residir fora da Madeira. A separação foi difícil. A Leonor preocupava se continuaria a ter contacto com os gémeos. Intuitivamente criara com eles laços de mãe, de proteção. “Foi quase como cortar o cordão umbilical”, diz uma das responsáveis próximas.

Hoje, está mais pacificada em relação a esse aspeto, uma vez que a família adotante tem mostrado toda a disponibilidade em reunir os irmãos sempre que possível.

Apesar dos altos e baixos, Leonor parece feliz na família que a acolheu há uns anos, uma família alargada e composta por muita gente, a maioria com histórias parecidas à sua.

Mãe pelo “skype”

m+úe2Edgar, por seu turno, continua a ter dificuldades em lidar com a situação de afastamento dos pais. O pai esteve até há bem pouco detido por tráfico de droga pelo que os contactos têm sido escassos. A mãe decidiu há cerca de dois anos sair da Madeira com o companheiro, deixando o filho entregue aos cuidados da instituição. Desde então, Edgar acalenta a esperança de juntar-se à mãe no estrangeiro, mas tal não tem sido possível dada a falta de condições.

Há cerca de um ano, Edgar recebeu a notícia do nascimento de uma irmã. Aparentemente, ficou satisfeito e já viajou por duas vezes para estar com a família. O pior é o regresso. Os técnicos e os professores notam que, após uma temporada com a mãe, Edgar chega mais instável, sendo recorrentes situações de indisciplina e de agressão a colegas. Para além do acompanhamento psicológico e técnico que estes jovens têm nas instituições onde se encontram, a Edgar foram aplicadas outras respostas, desde um professor-tutor a aulas fora do contexto escolar. Continua igualmente a passar os fins de semana com uma bisavó materna, com quem tem uma afinidade emocional mais próxima. É entendimento dos técnicos que a ligação à família biológica deverá manter-se sempre que possível. Edgar adora a mãe, mas não sabe lidar com a sua presença à distância. Semanalmente, mata as saudades dela e da irmã através do “Skype”. Encontros que nem sempre saram feridas.

Solução: carinho, suporte e regras

Por entre sentimentos de abandono, frustrações e medos, estes jovens tentam equilibrar-se no mundo que os rodeia, nas relações que criam com os outros, o que nem sempre é fácil. Embora os técnicos que trabalham de perto com esta população não gostem de etiquetar, o certo é que grande parte das crianças e jovens oriundos de famílias desestruturadas apresenta uma maior prevalência de insucesso e abandono escolar, de conflitualidade e indisciplina na escola.

A institucionalização, embora não sendo a resposta ideal, acaba por ser a forma de garantir os direitos básicos que ao menor assistem na lei e que não estavam a ser assegurados pela família: casa, comida, roupa, educação, saúde, segurança e integridade física e psicológica.

O alcoolismo, a violência, a negligência, o abandono e os maus tratos são as razões que levam, geralmente, à retirada das crianças aos pais biológicos, entregando-as aos cuidados de uma família de acolhimento ou de uma instituição.

Hoje em dia, porém, a emigração forçada por falta de emprego tem gerado um novo grupo de menores a viver afastados dos pais. Nos últimos tempos, assiste-se a um aumento de casos de crianças e jovens aos cuidados de familiares mais próximos, avós, irmãos ou tios. Se bem que sem a carga emocional dos casos de abandono, o certo é que o afastamento e a falta de suporte parental acarretam igualmente riscos no equilíbrio das crianças.

Liliana Gonçalves, psicóloga na área da educação, alerta que em matéria de comportamentos as respostas não são lineares. “Nunca podemos fazer generalizações. Nem sempre uma criança que é educada longe dos pais apresenta problemas emocionais ou comportamentais. Dependerá sobretudo da qualidade da relação que o menor estabelecer com o seu cuidador, do contexto onde está inserido e das experiências que viveu”, esclarece.

Muito importante, sustenta, será sempre criar um ambiente de segurança e valorização. “Acima de tudo, realçar os seus pontos fortes, as suas qualidades e aquilo que ela faz bem, reforçando os laços com outras pessoas com quem partilham bons momentos. No fundo, será criar um elo de suporte e de apoio”.

Reconhecendo que estas datas comemorativas possam causar desconforto, a psicóloga salienta que o importante será valorizar a relação do menor com a avó, tia, irmã mais velha ou educador, com a qual a criança se identifique mais na ausência da figura materna. Embora haja quem defenda que não se deveria comemorar o dia da mãe ou pai na escola, Liliana Gonçalves entende que esses momentos são importantes para todas as crianças no reforçar das suas relações. “Nestes casos, o mais aconselhável é trazer outro familiar com quem elas sintam proximidade e de quem gostem muito”. E sintetiza. “Mais importante do que o parentesco é a qualidade do vínculo emocional que a criança estabelece”.

É ponto assente que ninguém nasce sabendo como ser mãe ou pai. É uma construção feita de aprendizagens e circunstâncias. Atualmente, as instituições que lidam com crianças e famílias disponibilizam já sessões de parentalidade, onde se trabalham sobretudo a autoestima dos pais e a qualidade dos laços emocionais com os filhos. Liliana Gonçalves esclarece que são ainda dadas dicas de orientação, tanto para a convivência em casa como na relação do menor com a escola. “O mais importante para ser uma boa mãe é dar carinho, apoio, estabilidade e definir algumas regras. Às vezes os pais esquecem-se de que dizer “não” no momento certo e pelos motivos corretos é benéfico”.

Provedoria da Justiça faz reparos

Em Portugal, das 8500 crianças retiradas das suas famílias, 8142 estavam institucionalizadas, segundo os dados referentes a 2013 e incluídos no Relatório CASA de Caracterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens, da Segurança Social e do Instituto de Segurança Social. Um número muito alto em relação ao que se passa nos restantes países europeus, onde se privilegia a integração em famílias temporárias. Do total das crianças retiradas à família, só 4 por cento eram integradas em meio familiar de acolhimento, sendo as restantes institucionalizadas.

Na Madeira, à semelhança do que acontece ao nível nacional, as institucionalizações têm vindo a baixar. Apesar das respostas, o sistema foi recentemente alvo de reparos por parte da Provedoria de Justiça por não estarem a ser acolhidas recomendações feitas em 2010, apontando o facto de as crianças e jovens estarem sem médico de família, mas apenas com médico de recurso. O relatório manifestou, em janeiro deste ano, “preocupação pela situação do Estabelecimento Vila Mar (Funchal), no qual, do universo de 47 acolhidos, apenas num caso se identificou a afetação de médico de família”.
Foi também destacada a “urgência de estabelecimento de mecanismos preventivos no centro de acolhimento temporário ‘O Aconchego’, atendendo à sua localização e relativo isolamento” (Água de Pena, concelho de Machico).

A Provedoria de Justiça sublinhou, também, a importância de ser “repensado” o modelo de articulação entre o Instituto de Segurança Social da Madeira e o Centro de Reabilitação da Sagrada Família (freguesia de São Roque, no concelho do Funchal) uma unidade de saúde mental que acolhe crianças e jovens deficientes.