Celebrar o dia do trabalhador desempregado?!

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O pesadelo do desemprego passa pela obrigatoriedade da apresentação quinzenal, qual ‘liberdade condicional’

Hoje é dia 1º de Maio. Uma data que nos fala de direitos adquiridos dificilmente, como a jornada de trabalho de oito horas diárias, de repressão policial sobre operários nas ruas de Chicago em 1886, de um feriado que só nasceu em Portugal depois do 25 de Abril de 1974. É um dia carregado de significado. Mas que significado poderá ter se o próprio trabalho, que é um direito consagrado constitucionalmente, não existe para tantos portugueses?

Fomos em busca da resposta e a verdade é que, para muitas pessoas, há muito pouco para comemorar. Vidas encontram-se destruídas, projectos de anos e anos estão em ruínas, o futuro hipotecado para tantos de nós.

Serviços de hotelaria e turismo sofrem quebra de qualidade

Num sector chave para a economia da Região como o é o próprio turismo, o desemprego tem-se multiplicado de forma assustadora. Conforme nos dá conta Adolfo Freitas, dirigente do Sindicato da Hotelaria, são mais e mais os casos que vão aparecendo, dos quais os mais recentes são os trabalhadores do Regency, e que tendem a ser substituídos por mão-de-obra menos qualificada e mesmo sazonal, com todos os prejuízos para a tradicional imagem de qualidade do destino turístico Madeira.

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“As situações [de insolvência] acontecem, desaparece tudo o que é património das empresas, os trabalhadores em muitas circunstâncias ficam sem emprego, sem direito às indemnizações”, denuncia. É verdade que os trabalhadores podem acabar por recorrer aos administradores dos processos de insolvência para tentar recuperar parte das indemnizações a que têm direito, mas trata-se de um processo moroso e sem garantias, em que a Justiça, por inoperância, acaba por privilegiar os responsáveis por administrações muitas vezes danosas, que se aproveitam ilegitimamente da crise como desculpa para despedir trabalhadores, para tornar insolventes empresas que até poderiam ser viáveis… E passados alguns tempos, já estão a abrir nova empresa noutro lado, sem que lhes sejam assacadas responsabilidades. Ou, pelo menos, conseguindo na maior parte dos casos fugir ‘airosamente’ às mesmas, porque o sistema o permite. Entretanto, “vai sendo substituída a mão-de-obra qualificada do sector da Hotelaria, por uma mão-de-obra não especializada nem qualificada, constituída por trabalhadores do ‘outsourcing’ e de empresas de trabalho temporário”. O que “não é a mesma coisa, no que concerne ao serviço que deve ser prestado na hotelaria madeirense, com a qualidade que sempre se exigiu e da qual se necessita cada vez mais”.

Não falta quem partilhe desta opinião, começando pelos próprios trabalhadores desempregados e terminando nos clientes dos serviços.

Desânimo e cansaço

O Funchal Notícias teve a oportunidade de falar com vários trabalhadores do sector hoteleiro, actualmente no desemprego. Vários não quiseram falar, outros não quiseram dar a cara. Poucos acederam a que colocássemos o seu nome. Comum a todos eles, o desânimo e uma certa revolta cansada.

Rute Mendes Henriques era uma funcionária do emblemático Golden Gate, o café homenageado como ‘a esquina do mundo’ pelo escritor Ferreira de Castro. Trabalhou durante anos para aquele estabelecimento, desde a sua recuperação, de boa memória. Agora evita até passar perto do mesmo, para não contemplar a triste fachada com as portas e janelas encerradas.

“Fiquei muito, muito desiludida, uma vez que já estava lá há muitos anos… E quando vi o estabelecimento fechar, afectou-me muito. Soubemos que ia fechar, e logo três, quatro dias depois, já estavam as portas fechadas. E nós não tivemos com que nos defender, com que ir buscar o ordenado para o qual trabalhámos, o subsídio de férias, nada. Só tivemos direito de ir para o desemprego, e mais nada… nem sequer uma palavra de conforto da entidade patronal. Nem sequer as minhas fardas, que eram minha propriedade e não da empresa, pude tirar nesse dia… Tive de falar posteriormente com o administrador da insolvência para poder ir depois lá, quando ele estava a fazer um inventário, recuperá-las”, recorda.

Esta insensibilidade afecta. “Chocou-me”, admite. Trata-se de um processo um bocado desumano.

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Durante anos, os funcionários trabalharam horas e mais horas, em todas as datas: Carnaval, Festa da Flor, Fim de Ano… Nós, funcionários da hotelaria, muitas vezes nem sabemos o que é estar com a família… Levamos anos e anos, décadas, sem saber o que é passar estes dias com os nossos filhos, nem é tão fácil comparecer a uma festa escolar… Vemos as outras famílias a fazê-lo, e nós sempre a trabalhar, inclusive nas folgas, fartámo-nos de lutar para conseguirmos ter o posto de trabalho aberto, para no fim sairmos da forma que saímos. Isto dói-me imenso”, admite.

Agora, Rute Henriques está a fazer um curso de informática de um novo nível, facultado pelo Instituto de Emprego. E ainda bem que isso sucedeu, conta-nos, pois já estava em casa a desesperar.

“Uma pessoa que está habituada a cumprir um horário, a ter aquela responsabilidade, e depois fica sem emprego, chega a um ponto em que acorda de manhã e se pergunta: o que é que eu faço?”, confessa.

Comentando o que se passa no sector da hotelaria nos nossos dias, constata que há muitas empresas a fechar “injustamente”.

Governo ajuda a entidade patronal a mandar para o desemprego

“Temos um governo que está a deitar isto tudo abaixo, ainda está a ajudar a entidade patronal a mandar muita gente para o desemprego, e muita gente… sem necessidade alguma. Porque há estabelecimentos a dar muito dinheiro, que estão a fechar com direito a insolvências de forma estúpida… e quem fica a perder sempre é o funcionário, que também tem a sua vida própria, as suas contas para pagar, os seus filhos a crescer”, denuncia. Quando não há insolvência, ficam três ou quatro funcionários a fazer o trabalho de uma dezena, por vezes a trabalhar 14 e 15 horas… mas pagam-lhes o mesmo.

“É isto que nos revolta tanto, a nós, desempregados. Trabalhámos tanto, para ver o estado a que a nossa hotelaria está a chegar, o mau serviço que vemos. É verdade que vemos muitas coisas a abrir… mas também estamos a ver muitas coisas a fechar, e sem necessidade”, insiste.

 As famílias dos desempregados acabam por ressentir-se. Os filhos querem as mesmas coisas que todos os outros, e os pais têm dificuldade em enfrentar o sentimento de frustração que também se gera dentro das crianças e jovens, que se apercebem do que é ter um pai ou mãe sem trabalho. Rute Henriques nota essa desmoralização no seu próprio filho. “Nós, como pais, também ficamos tristes por não poder corresponder às expectativas”, lamenta.

A constatação destas duras realidades é similar para Ana Maria Capelo Santos, uma antiga trabalhadora da em tempos próspera padaria Aripan, e que agora atravessa tempos bem difíceis. Trabalhou mais de duas décadas para a empresa. Foram 25 anos no total. Pede-nos desculpa por não poder responder com mais fluência às nossas perguntas, mas confessa-se em estado de certa prostração, ainda para mais agravada pelo falecimento de um familiar.

“Fui guardando tudo para mim”

Na altura em que caiu no poço fundo do desemprego, diz, ficou muito calada. “Não sou pessoa de falar muito. Fui guardando tudo para mim. Não fui dizendo nada”. A depressão instalou-se mesmo sem dela se aperceber. Acompanhada por um médico, foi este que se foi apercebendo do esgotamento e da ansiedade. Foram muitos os medicamentos para a ajudar a ultrapassar a situação, até porque,  a somar-se ao stress, tem problemas de tensão arterial. A vida não pára, as duras realidades vão acontecendo, e as coisas más parecem vir umas atrás das outras.

“Agora estou um bocadinho equilibrada, mas está a ser difícil, porque está-me a acabar o subsídio de desemprego”, refere. Não sabe como vai fazer para conseguir continuar a pagar a prestação do apartamento. O marido ganha cerca de “700 e tal euros”. Ora, como será possível sobreviver pagando uma prestação de habitação de cerca de 300 euros? Pagando luz, água e todas as demais despesas… Estas são aquelas realidades com que os autores de administrações danosas nunca se confrontam: a realidade do elo mais fraco.

Testemunhos como estes, muitos outros há. Ouvimo-los agora, de gente que não se quis identificar, em outros sectores que não a hotelaria, que tomámos a título de exemplo. Ouvimo-los desde há muito tempo, de gente que já ficou desempregada antes de nós. Ouvimo-los dentro da nossa própria família, onde há pessoas sem trabalho. São histórias que se multiplicam por todos os sectores, comunicação social, arquitectura, obras públicas e privadas… por todo o lado. Desde o mecânico que emigrou ao electricista que foi despachado sem contemplações da em tempos próspera firma.

O flagelo está lá fora, e só não afecta quem tiver muita sorte. Que às vezes pode resumir-se a conhecer as pessoas certas.

Uma coisa é certa: as sequelas são monstruosas e afectam não apenas o desempregado, mas muita gente à sua volta. A começar pelos filhos, se os tiver. E há casos verdadeiramente dramáticos, de uma classe média que se esboroa e começa a resvalar a passo acelerado para a pobreza.

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O sociólogo Ricardo Fabrício olha para estes factos com preocupação.

A gravidade da situação é evidente, diz, para todos os que não deixam de usam os olhos e os ouvidos…

“O momento que estamos a viver insere-se numa tendência que está para ficar, e que é o emprego (entendido como o trabalho com direitos, com consideração) como um bem cada vez mais escasso”, salienta. “Este é capaz de ser um dos problemas que as nossas sociedades vão ter que enfrentar nos próximos anos, até porque, do outro lado, temos um fenómeno complexo, que não é só o da crise económica, mas que é também o da alteração das lógicas de produção, com processos de automação desenfreados, com a substituição de postos de trabalho por máquinas e tecnologia”.

Trabalho é valor em queda

Para o nosso interlocutor, os madeirenses estão a viver a crise económica e as restantes transformações de uma forma muito particular, porque vivem numa espécie de microcosmos, onde os fenómenos acabam por ficar amplificados dada a pequenez deste ‘laboratório sociológico’, que acaba por reflectir as flutuações sociológicas ao nível mundial.

Questionado sobre a prevalência, nas sociedades actuais, de um neoliberalismo selvagem que “perdoa” os gestores capazes das maiores asneiras e amadorismos  e penaliza severamente o trabalhador, mais que não seja pela ineficiência do sistema, Ricardo Fabrício responde assim:

“Vivemos um momento histórico em que o trabalho está novamente sob grande pressão, nomeadamente no que diz respeito ao seu valor (…) Há toda uma liturgia em torno do capital, da figura do empreendedor (…) Não é que se trate de algo ideológico, é factual, tem a ver com a leitura do quotidiano”. Mas, entre estas disparidades, o trabalho é “um parâmetro em desvalorização”, que está a ser tratado “como uma mercadoria indiferenciada”.

Só que, alerta, o trabalho não é uma mercadoria qualquer e não pode ser tratado independentemente daqueles que o prestam.

O retrato que se pode traçar da sociedade actual, aponta, traça já grandes clivagens e assimetrias.

“A tecnologia criou, de facto, novos empregos, mas quando vamos fazer o saldo entre os empregos que as novas vagas tecnológicas criaram e os que destruíram, não é positivo”, considera. E as tendências não apontam grande futuro para as novas gerações.

Algo de paradoxal, admite, é que seja a própria máquina do capitalismo, que necessita de consumidores, portanto de uma classe média com poder de compra, a destruir essa mesma classe média através de políticas de austeridade económica, que só tendem a acentuar as clivagens entre ricos e pobres. Mas é uma realidade. “O paradoxo é um dos elementos estruturantes da nossa vida actual. É um traço marcante”, assume. Mas salienta um aspecto que pode estar a passar despercebido, no meio deste discurso centrado exclusivamente na classe média portuguesa, ou europeia, se se quiser: “Esquecemo-nos de que existem hordas de novas classes médias que se estão a erguer, e que, eventualmente, em termos de distribuição civilizacional, vão substituir algumas das classes médias a que estávamos habituados”.

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Classes médias ocidentais dão lugar a outras… somos os novos pobres

O que se passa, de facto, é que as classes médias ocidentais estão a dar lugar a novas classes médias que estão a emergir em outros pontos do planeta – designadamente na Ásia-Pacífico, na China e na Índia. São milhões de pessoas que têm expectativas de evoluir para padrões de vida e de consumo a que até agora não tinham direito.

“As classes médias que alimentam a máquina não desapareceram… a nossa é que está em erosão acelerada”, constata. Por outras palavras: estamos a tornar-nos os novos pobres, e os asiáticos estão a assumir-se como a nova classe média. As grandes tendências económicas apontam para isso.

O problema é que estamos a gerar fenómenos cujas consequências, a longo prazo, não vislumbramos. Não fazemos a mínima ideia.

Na sociedade madeirense, e numa opinião pessoal, não condicionada por dados ou instrumentos de medida, grassa actualmente um certo fatalismo, admite. “A Região colocou-se numa situação, num impasse, do qual só sai por intervenção externa”, resume.

“Estamos aqui numa contemporização, à espera dum ‘milagre’, de que aconteça qualquer coisa, que se conjuguem múltiplos factores, para que a situação possa melhorar. As pessoas percebem que o problema é grave, que não têm capacidade para o resolver, e o máximo que podem fazer é continuar a reproduzir a sua boa vontade todos os dias”.