A “renovação” e os interesses

h_sampaio

A propagandeada “renovação” anunciada pelo novo presidente do governo regional tem sido recebida, em alguns círculos da opinião pública local, com um inusitado entusiasmo, ao ponto do auto-intitulado “independente” cá do burgo, não ter resistido a, um destes dias, titular: “democracia renasce” e “quatro décadas até ter um ar civilizado”.

É evidente que não vou menosprezar os sinais de mudança que têm vindo a ser dados, no que se refere ao cumprimento das mais elementares regras democráticas e ao relacionamento inter-partidário que o novo inquilino da Quinta Vigia e da Rua dos Netos decidiu introduzir na acção política.

Com efeito, é obviamente preferível que a disputa político-partidária se processe em moldes civilizados e não de uma forma trauliteira e insultuosa, pelo que tudo o que possa contribuir para desanuviar e descomprimir o espaço público é, naturalmente, bem-vindo.

Julgo, porém, que já não é, nem ajuizado, nem adequado, tomar a nuvem por Juno. É que, de repente, parece que tudo o que de perverso e intolerável se verificou, sob o ponto de vista democrático, nesta Região, durante quase 4 décadas, era culpa exclusiva da dupla que, entretanto, abandonou a presidência do governo regional e a liderança do grupo par(a)lamentar do PSD. Como se as culpas no cartório pudessem ser imputadas apenas a ambos. Ora, está bom de ver que assim não era. Os antigos alferes miliciano e cabo-cripto não engendraram, nem executaram tudo isto sozinhos. Tiveram inúmeros cúmplices e colaboradores aos mais diversos níveis. Que também ajudaram ao “circo” que foi montado e à democracia faz-de-conta que aqui se instalou de armas e bagagens.

Não é, por isso, do nosso ponto de vista, possível fazer uma espécie de separação entre partido bom e partido mau e concluir que, de agora em diante, tudo será diferente. Fazê-lo seria cometer um erro colossal, mesmo que tenha havido já quem se tenha deixado seduzir pelo canto da sereia.

Não só porque alguns dos protagonistas principais desta anunciada nova era, designadamente na esfera parlamentar, são os mesmos rostos que marcaram negativamente o passado mais ou menos recente. Ou seja, é melhor esperar para ver, em que medida, por exemplo, o novo líder parlamentar se comportará de modo diferente do seu antecessor. Ou se, o antigo inquilino da Quinta das Angústias, tinha razão quando o denominou de “le petit Salazar”.

Mas, sendo certo que a praxis democrática não é matéria de somenos importância, a questão essencial para avaliar em que medida haverá ou não “renovação”, será, sem sombra de dúvida, o exercício da governação.

E aí não basta dizer-se que se trata de um governo alegadamente competente do ponto de vista técnico. Teorizar é sempre mais fácil do que executar. Mas, mesmo a esse nível, e ao contrário do que alguns procuram fazer crer, há escolhas que não prenunciam nada de substancialmente diferente. É o caso, por exemplo, do novo titular das Finanças que, mesmo que queiram, não poderá ser  dissociado da dívida oculta que os madeirenses e portosantenses vêm dolorosamente pagando desde 2012.

Por outro lado, pode ser aliciante ouvir falar em “mandato social” e atribuir o pomposo nome de “inclusão e assuntos sociais” à nova secretaria regional, mas o que vai contar é saber se iremos estar perante uma aposta séria e efectiva nessa área, ou, se pelo contrário, será, aqui e agora, replicado o modelo da caridadezinha e do assistencialismo tão ao gosto do actual governo da República. Sendo que também de pouco serve saber que a novel titular desta pasta desempenhou funções de vereadora de acção social na autarquia funchalense, tanto mais que o fez já numa fase em que as necessidades e carências neste âmbito eram flagrantes, sem que se conheça que tenha deixado qualquer legado digno de realce. Para já não falar que o anterior executivo também se reclamou da aposta no social com os resultados que estão à vista.

O que será, contudo, para nós, decisivo para saber se a “renovação” é, ou não, para levar a sério é ver como o governo recém-empossado lidará com os designados interesses instalados.

Não é que, confesso, tenhamos ilusões. Mas, já agora, ficamos à espera para saber se, nomeadamente nos concursos públicos e nos ajustes directos serão contempladas as empresas e os grupos económicos do costume, e se, relativamente à questão da operação portuária, que penaliza, e de que maneira, quem aqui vive, o monopólio reinante será questionado ou se o executivo continuará a assobiar para o lado, como fez o seu antecessor ao longo de décadas.

Razões de sobra para, no mínimo, fazermos como São Tomé: esperar para ver. Ou ver para crer.

* texto escrito de acordo com a antiga ortografia.