Retrato de um Funchal matinal

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Luís Rocha (texto e fotos)

Funchal, sábado, 11 de Abril de 2015, sete horas da manhã. Há uma beleza tranquila que paira sobre as ruas da cidade, ainda praticamente desertas a esta altura do dia. Os habitantes acordam pouco a pouco de um sono mais quieto ou mais conturbado, consoante os privilégios ou as misérias de cada um, e começam a movimentar-se. Neste momento matinal, em que a lua ainda brilha no céu que começa a ser lentamente invadido pelos alvores do novo dia, há um sentimento igualitário. Todos parecemos ainda partilhar a mesma dignidade, ninguém parece filho de um deus menor. Mesmo os mendigos que esmolam à porta das igrejas, mesmo os que dormem na rua e que começam a acordar para a dura realidade do dia-a-dia, parecem comungar de uma mesma e singular serenidade perante a nova jornada. Há uma lentidão, uma paz nos gestos, que nos une, passeantes da alvorada: neste momento, enquanto o bulício e o trânsito não se apoderam das ruas, temos algo em comum.

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Na Sé, ainda muito poucos fiéis aguardam, num silêncio meditativo, a missa das oito. Daqui a pouco, os sinos da catedral chamarão para a liturgia aqueles que acreditam. Os outros vão-se contentando com a espiritualidade que também transparece nas pequenas coisas, como a ligeira ondulação que lambe as velhas pedras do cais. E eis que surge, por detrás do molhe da Pontinha, um paquete que chega: é o Riviera. As conversas dos que o vêem entrar são em surdina, num silêncio quase respeitoso. Ainda não é hora de levantar a voz, as pessoas ainda estão a apreciar calmamente o nascer de um novo dia. Alguns caminham já, poucos fazem exercício. A maioria simplesmente passeia. Na marina do Funchal, os iates balouçam com lentidão.

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Momentos antes, fotografei um pedinte. Sentado frente à Sé Catedral, contempla pensativo a placa central da Avenida Arriaga, ainda despida de povo. Não sendo grande fotógrafo, só verificarei mais tarde que um foco de iluminação da vetusta igreja lhe deixou uma espécie de halo sobre a cabeça. Como que um augúrio de inocência ou bem-aventurança. Irónico, não? A ele que diferença lhe fará, por exemplo, o novo Governo ontem confirmado na comissão política do PSD? A ele e aos muitos desempregados, e àqueles que já perderam toda a esperança? Perto, na zona das esplanadas e cafés como o Apolo e Café Funchal, alguns cidadãos lêem já os jornais da manhã e comentam as transformações políticas. A esperança é a última que morre, deixam entrever alguns. Alguma coisa vai melhorar? Aguarda-se para ver.

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Na Avenida do Mar, sobre a praça construída no aterro que resultou da aluvião do 20 de Fevereiro de 2010, um pequeno e silencioso grupo de adolescentes. Endireitando-se e a olhar para o mar, um homem de raça negra, mais um dos que pernoitam nas ruas, faça calor ou frio (já o conheço de vista) deixa-se também contagiar pela nostalgia do dia que começa. O seu olhar perde-se no mar, na distância. E também ele, como acontece com a maioria, deixa-se atrair pela proximidade da água, pelo magnetismo marítimo, caminhando rumo ao marulhar das ondas.

A estas horas do dia, as diferenças sociais esbatem-se. De um modo ou de outro, parecemos todos irmãos. Igualmente meditativos. Igualmente partilhando uma centelha de esperança.

À medida que o dia avança, o pragmatismo e a pura realidade encarregar-se-ão de eliminar esse ilusório sentimento.

Como consolação, resta-nos saber que se repetirão essas horas sagradas: a alvorada e o crepúsculo. As horas a que nos sentimos mais vivos.

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