Cemitério judaico do Funchal ‘jaz morto e arrefece’

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Fotos Emanuel Silva

“No plano abandonado/ Que a morna brisa aquece,/ De balas trespassado/— Duas, de lado a lado —,/Jaz morto e arrefece”. Começa assim o ‘Menino de sua mãe’, do poeta Fernando Pessoa.

O Cemitério Judaico do Funchal, com túmulos a cair pela ravina do Toco, apesar de classificado pela Direcção Regional dos Assuntos Culturais (DRAC), está ao abandono. É uma marca cultural, social e histórica da Madeira que está de portas fechadas. Um cadeado na porta impede que o espaço seja usado como ‘sala de chuto’, como já foi no passado.

Nestes escassos 294 m2 sobranceiros à praia do Toco, no Lazareto, está parte da História do Funchal dos séculos XIX e XX. Muitas lápides apresentam-se danificadas ou irrecuperáveis.

cemitério judaico 004O cemitério, propriedade privada da cimunidade judaica, está situado no topo de uma falésia na rua do Lazareto, que tem vindo a ruir, pelo que algumas campas caíram mesmo no calhau.

O cemitério dos Judeus foi classificado em 1993 como monumento de interesse municipal –Valor Cultural Local- (Resolução  n.º 1354/93, de 30/12/1993, publicado no JORAM, 1.ª série, n.º 147).

Na altura, o Conselho de Governo criou uma zona de protecção de 50 metros, “contados a partir dos limites exteriores do mesmo” e justificou a classificação pelo portal em cantaria e pelas incrições tumulares em hebréu assim como por ser referenciado “em textos e literatura oitocentista”.

Naquele espaço terão sido sepultadas mais de 30 pessoas e não se realizam funerais há mais de três décadas.

cemitério judaico 007A porta deste cemitério tem a data 1851 e, segundo os dados históricos disponíveis, o primeiro funeral aconteceu a meados da década de 1850, provavelmente, a mãe de José de Abudarham, mais precisamente em finais de Fevereiro de 1854.

Como conta o historiador Nelson Veríssimo, (Diário de Notícias, Revista, Passos na Calçada, Funchal, 28 de Março de 2004) “As suas primeiras referências documentais encontram-se no Jornal de uma visita à Madeira e a Portugal: 1853-1854, de Isabella de França. O último enterramento ocorreu  em 1976 com D. Joana Abudarham da Câmara. Rui Santos, num bem documentado estudo sobre este cemitério, publicado, em 1992, na revista Islenha, n.º 10, identificou 38 sepulturas entre 1854 e 1976”.

Segundo o Elucidário Madeirense, na entrada deste cemitério existia sugestiva inscrição em hebraico que, em português, queria dizer “habitação da vida”.

Por altura da sua fundação, em meados do século XIX, o Cemitério dos Judeus afigurava-se como “monumento ao grande progresso da tolerância”, como escreveu Isabella de França.

A instituição deste cemitério, por iniciativa de personalidades de relevo da comunidade judaica do Funchal, denota o progresso da sociedade portuguesa no que diz respeito à tolerância religiosa.

cemitério judaico 009Há vários anos que, devido à situação de degradação, a Câmara do Funchal fez contactos com responsáveis judaicos e foi apresentada uma proposta para a trasladação do espólio do cemitério para um outro espaço no Funchal.

Em 2003, foi mesmo disponibilizada uma área de 466 m2 (superior aos actuais) no cemitério de São Martinho, onde foram plantados árvores, arbustos e uma sebe verde para isolar a área e conferir-lhe alguma dignidade.

A autarquia até se mostrou disponível para transferir o actual portão do cemitério, que tem um brasão, para essa nova ala.

Em Janeiro de 2008, o então secretário da embaixada israelita em Portugal, Amir Sagie, garantiu que seria uma questão de meses o arranque do processo de trasladação, admitindo que os principais problemas da operação se relacionavam com a necessidade de deslocação de um rabi à Madeira para a cerimónia e de encontrar fundos para custear o processo.

Mas, mais tarde, em Maio de 2009, numa visita à Madeira, o embaixador de Israel em Lisboa explicou porque é que os corpos não foram trasladados para São Martinho: A lei judaica proíbe mudar o local dos cemitérios.

Em 2008, também do força do mega-projecto imobiliário projectado para o Toco, voltou a falar-se da trasladação mas, até hoje, continua tudo igual. Ficou o cemitério e o projecto do Toco foi à vida.cemitério judaico 010