Pobreza no Porto Santo

Loja Solidária da Câmara Municipal Porto Santo
Loja Solidária da Câmara Municipal Porto Santo


Francisco Oliveira

O que terão em comum um caixote de lixo, uma tarde desportiva e uma professora que leva bolachas para a sala de estudo? Aparentemente, nada; na realidade, tudo. A diferença entre uma resposta e a outra está no conhecimento parcial, no primeiro caso, ou total das três situações. Se soubermos que aquele caixote de lixo estava a ser vasculhado por um homem esfomeado, que aquele evento desportivo foi organizado pela Associação Somos Porto Santo, no sábado passado, para recolha de alimentos para famílias carenciadas, a pedido de uma entidade que tem ao seu cuidado o apoio a algumas famílias com dificuldades económicas, e que aquela professora leva as bolachas para dar a uma aluna do ensino especial que apresenta, constantemente, sinais de fome, é fácil perceber a ligação entre as três realidades.

Não há como esconder a realidade: no Porto Santo, existe pobreza e já não há como iludir a verdade. Na realidade, a maioria dessa pobreza constitui uma clara humilhação para quem a sente, pelo que tudo é feito para a esconder. Contudo, quando se tem de escolher entre a sobrevivência e o orgulho, aquela leva a vantagem. Vergadas pela necessidade, não faltam pessoas a recorrer às diversas instituições públicas e privadas que têm tentado minimizar a situação, com destaque para a Segurança Social, a Câmara Municipal do Porto Santo, através da sua Loja Solidária, a Junta de Freguesia, a Conferência de São Vicente de Paulo, Igreja Adventista e os Amigos da Irmã Wilson.

Loja Solidária da Câmara Municipal Porto Santo
Loja Solidária da Câmara Municipal Porto Santo

Dados objetivos, ninguém os tem; tudo é feito com base na necessidade de cada época, na boa vontade e em certo improviso. No entanto, do que nos foi possível recolher, os cabazes entregues mensalmente abrangerão mais de 700 pessoas. Sabendo, porém, que as diversas instituições não coordenam entre si as entregas para evitar repetições, haverá famílias que recebem a dobrar ou a triplicar. No entanto, como nos dizia uma responsável, isso não é problema “porque o que damos não chega para nada”. Com repetição de apoios ou não, o que é certo é que há algumas centenas de pessoas, no Porto Santo, em grave dificuldade económica. Esta situação, como quase tudo na ilha, é sazonal: diminui na época alta, cada vez mais curta, e aumenta exponencialmente na época baixa, cada vez mais longa, marcando o ritmo da atividade económica e das estatísticas do emprego a ela associadas. Não restam dúvidas, pois, de que o desemprego é o principal responsável pela situação. Se falta trabalho, falta tudo ou quase tudo, por isso, para além da alimentação, são, igualmente, graves as carências de medicamentos, mobílias, loiças, roupas, passes de transportes sociais, livros, material escolar; enfim, quase tudo o que consideramos essencial para uma vida digna. É isso, também, o que está em causa, a dignidade humana de muitos dos cidadãos que vivem no Porto Santo.

Movimento Somos Porto Santo
Movimento Somos Porto Santo

Não é de admirar, por isso, que se sinta um ambiente pesado e de desânimo na ilha em quase tudo. Não espanta, também, que as ruas e os cafés cheios, que caraterizam o Porto Santo no verão, tenham sido uma miragem distante nos últimos outono e inverno; ainda por cima, gélidos como ninguém tem memória.

Esta realidade, no período pré-eleitoral em que estamos, não pode deixar de ser um desafio imenso para todas as forças políticas, em geral, e para todos os candidatos, em particular, que se apresentarão às urnas no próximo dia 29. Podem insistir em prometer o céu, mas se não forem capazes de tirar do inferno todos os que lá se encontram, ainda que lhes deem apenas o purgatório, serão políticos falhados e como tal serão recordados, porque a aposta na construção de mamarrachos, que descaraterizam o Porto Santo, há muito se revelou imprópria para resolver os problemas estruturais desta ilha.

Movimento Somos Porto Santo
Movimento Somos Porto Santo