Testemunho de sobrevivência

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20 de fevereiro de 2010. 09h00. Cláudia Silva e as colegas preparavam-se para dar início a mais um dia de trabalho, no Cabeleireiro instalado no Centro Oudinot. Muito trabalho pela frente as esperava, porque tinham em agenda um casamento e os respetivos convidados para pentear. Porém, todos acharam estranho o facto de as clientes tardarem em chegar. Havia marcações feitas e pouca margem de manobra para gerir os atrasos. Ao mesmo tempo que aguardavam pelas clientes, lá fora, as colegas da Cláudia achavam graça ao facto de a Ribeira de João Gomes, mesmo ao lado, separada apenas pela rua, estar a encher mais do que o habitual. Um dado insólito que as levou a pegar no telemóvel e a fazer o filme.

Mas a Cláudia não achava graça nenhuma e chegou mesmo a tirar a bata, pedindo às colegas que o fizessem. A ansiedade crescia. “Comecei a pressentir que alguma coisa de desagradável estava para acontecer”, conta como se fosse hoje. Ainda chegou a ser gozada pelas companheiras, sobretudo quando separou num saco tudo o que era comida e água.

Água, muita água a correr rua abaixo pela Brigadeiro Oudinot. Desta vez, já não havia espaço para o sorriso. A coisa parecia séria e a impor respeito. As colegas da Cláudia trocaram de roupa, à cautela. Ao mesmo tempo, a água batia com rebeldia na ponte do Anadia e subia tão alto, quase que à altura do edifício. O quadro inspirava admiração e medo. Nesse momento, Cláudia dirigiu-se à frente do Centro Oudinot e foi nesse preciso momento que assistiu a uma onda a varrer em segundos o Centro Anadia. “Pareceu-me ouvir gritos que ficaram a meio, talvez silenciados pela força incontrolável das águas. Aí então decidimos fugir”.

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Cercadas pela água, decidiram refugiar-se no último andar do Centro Oudinot, onde conseguiam obter uma melhor visão dos acontecimentos. O quadro com que se deparavam era, no mínimo assustador: a ribeira João Gomes a transbordar, o chão a tremer tanto que se chegou a antever que os vidros do prédio Oudinot, de vidro, pudessem estilhaçar-se. Mas não só. “Aquele cheiro intenso a terra que ainda hoje me incomoda”, confessa. “Achei mesmo que iria morrer!”.

Os minutos passavam e a aflição crescia face ao cenário de destruição em pleno centro da cidade. “Comecei a sentir-me encurralada, porque tínhamos água de ambos os lados do edifício. À cautela, permanecemos dentro do Centro, até ao momento que começou também a entrar água e a deixar de ser um lugar seguro. Foi quando decidimos sair pela rua que dá para o lado do Liceu.”

Na fuga, muita, muita água, mesmo dentro do prédio. As três companheiras temiam ser levadas pela voragem das águas. Optaram, então, por sair para ir ao encontro do edifício da Polícia. “Aquela sensação que temos de que na polícia estamos mais seguras…”, explica. Porém, quando corriam nessa direção, um agente gritou, avisando que vinha aí uma onda perigosa. “Recuámos, esperámos que a onda passasse mas, entretanto, ia levando uma colega, arrastada pela água.”

Finalmente em porto seguro: na polícia. O medo misturado com o instinto de sobrevivência levou-as ao lugar onde achavam estar protegidas. “Mas as coisas só pioravam.  Assistimos ao salvamento de uma senhora e de um cão. Ela pediu ajuda mas o pânico da polícia era tão grande que nenhum agente se disponibilizou para ir ajudá-la, apesar dos nossos pedidos. Respondiam-nos que também tinham família em casa”. Mas há sempre alguém pronto a arriscar e a fazer a diferença. A chefe Susana, quando ouviu os gritos, foi sozinha, sem hesitar e sem olhar para lado nenhum, salvar a senhora. Foi nesse momento que um colega dela, juntamente com uma equipa da BIR que chegara, decidiram ajudá-la.”

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Entretanto, à medida que o tempo passava, o cenário que se observava frente à Polícia tinha contornos apocalípticos: “A água corria sem freio, os carros boiavam à nossa frente como se fossem meros brinquedos. Lembro-me de ver, no Jardim do Campo da Barca, um mendigo que por lá ficara da noite anterior, aparentemente alcoolizado. Estava ali preso, sozinho. Até hoje não sei o que foi feito dele”.

Também a polícia foi inundada. Cláudia teve a sorte de dispor de um telemóvel com a rede 91, e poder falar com os familiares. “Naquele dia, senti tanto medo, tanto medo que mais tarde senti vergonha perante os problemas mais graves que outros passaram. Perdi um casal amigo que deixou uma menina de 5 anos; a minha tia foi arrastada também pela água e esteve 6 meses em coma e tive uma conhecida que morreu agarrada a uma netinha de 2 anos e um filho de 18 anos…” Palavras para quê?

Cláudia e as amigas não conseguiam ir para casa. Foram postas a salvo, pelas mãos do agente Humberto que as levou até às viaturas, na Estrada Conde Carvalhal, e foram dormir a casa de uma colega, já a tarde estava quase no fim.

No dia seguinte, antes de ir ter com os familiares, Cláudia e as companheiras depararam-se com um cenário de terror: ”Uma cidade destruída, por tudo quanto era lado, carros do avesso, ribeiras repletas de pedra e entulho até ao topo… tudo tão irreconhecível e devastador. Indescritível, o que via parecia irreal. Fiquei indignada com o facto de alguns pais malucos arriscarem-se a estar, dentro do Anadia, com crianças ao colo, a observar a destruição.”

O bom tempo regressou e também a remoção do lixo deixou as suas sequelas. “Vieram as limpezas da ribeira. O barulho ensurdecedor das escavadoras não nos saía dos ouvidos”. Mas não só. Há outros odores que a o correr dos anos não apaga: ”Ainda hoje me incomoda o cheiro da terra e da chuva, que tanto gostava e que, no dia da tragédia, tanto me desagradou”.

O fio dos dias foi correndo, entre notícias, solidariedades, limpezas e a pouco e pouco a cidade foi renascendo da lama. Mas “ficou o pânico; cada vez que chovia mais intensamente, vinha o receio”. De tal maneira que, comenta, “chegava a fechar o estabelecimento e regressar a casa”.

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Depois do 20 de fevereiro de 2015, 5 anos são volvidos da tragédia. “Ainda me vêm as” lágrimas aos olhos quando vejo imagens desse dia, ”assume Cláudia com evidente comoção. “A cidade renasceu, está bonita, com algumas arestas por limar, mas o caminho faz-se caminhando”.

O seu cabeleireiro esteve encerrado durante uma semana. Ninguém do governo a contactou para ajudá-la nas limpezas ou subsidiar prejuízos. Chegou a inscrever-se num sistema de apoios aos pequenos empresários mas até hoje não recebeu resposta. Tiveram sim direito a uma isenção de pagamento na Segurança Social.

A fechar este testemunho, Cláudia Silva considera que “não se pode culpabilizar as entidades por uma catástrofe daquela dimensão, que veio basicamente sem avisar e não havia como reagir”. Mas também alerta: “Os nossos governantes, em alguns casos deveriam se preocupar com o que é “velho” para mais tarde o “novo” não causar prejuízos. Deveriam ainda não descuidar o zelo com as ribeiras assim como as canalizações e esgotos.”

Cláudia Silva e as companheiras têm uma personalidade marcada pela persistência e o otimismo. Não gostam de alimentar o drama das tragédias como a de 20 de fevereiro. Preferem pensar que tudo foi ultrapassado e agradecem a Deus a vida. “ O desapego, a meu ver, é das maiores lacunas do ser humano; para seguir em frente há que sarar feridas e prosseguir. Tem sempre um arco-íris depois de uma tempestade e na ausência de um, temos sempre o sol.”