Thomas Dellinger alerta: “Pastorícia afeta o coberto vegetal”

Foto retirada da página pessoal do facebook
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Funchal Notícias – Quais são as principais especificidades e até mesmo fragilidades da Madeira em termos de coberto vegetal?

Thomas Dellinger – Os últimos anos mostraram, de novo, pois são problemas recorrentes ao longo dos séculos, duas das vulnerabilidades da Ilha da Madeira relacionadas com o coberto vegetal de altitude: (1) As enxurradas, para as quais o coberto vegetal serve de atenuação e prevenção e (2) os fogos florestais no qual o coberto vegetal serve de combustível. Do ponto de vista político, importa prevenir a ocorrência de ambos que afetam, sobremaneira, as populações que vivem a jusante. A pastorícia entra nestes raciocínios como uma atividade humana que afeta o coberto vegetal, diminuindo efetivamente a biomassa vegetal.

No entanto o coberto vegetal presta mais serviços (em ecologia fala-se de serviços ambientais ou “ecosystem services”). Para a Madeira alguns dos principais são a formação de solos, a fixação dos solos numa ilha com uma orografia de declives muito elevados, a “precipitação oculta” que aumenta de forma significativa a captação de água pela e na Ilha, a purificação da água, a qual nos permite ter água para o consumo humano e não só, para já não falar nos produtos que a floresta produz diretamente e do seu valor natural, paisagístico, cultural e de lazer.

FN – Então discorda do gado na serra?

TD – A pastorícia afeta o coberto vegetal. Para que funcione são necessários pastos, ou seja, o coberto vegetal arbóreo ou arbustivo natural tem de ser substituído por zonas de plantas herbáceas. Devido ao elevado declive da maioria dos nossos terrenos altos, o pasto, especialmente se submetido a uma pastorícia intensa, não consolida suficientemente o solo e, quando a pluviosidade é muita, promove a erosão e até  escorregamentos. Acresce que a capacidade de retenção de água de solos submetidos à pastorícia é muito reduzida, quando comparada com solos dos urzais ou Laurissilva, devido tanto ao efeito da remoção de biomassa vegetal como do próprio espezinhar dos animais.

FN – O que acontece quando vêm as temíveis chuvadas?

TD – Quando a pluviosidade é elevada, o tempo para que a terra fique saturada é reduzido, levando de imediato à escorrência da mesma para os ribeiros. A propensão para enxurradas é agravada. É necessário ainda equacionar o tempo de recuperação do pasto após ser pastado. Quanto mais alta for cota usada como pastagem, mais lento é o crescimento vegetal, e mais longa a recuperação do pasto, criando uma maior oportunidade para eventos de erosão.

FN – Há alguma vantagem da pastorícia?

TD – Em contraponto, temos os efeitos positivos da pastorícia, como a limpeza dos terrenos e consequente diminuição de material combustível, a manutenção de veredas serranas limpas devido ao uso pelos proprietários dos animais e o aumento da vigilância contra fogos. Isto sem falar no contributo económico da pecuária para uma Ilha que precisa de diversificação económica e de importar menos de fora.

FN – Então, como devem os políticos decidir ou atuar neste domínio tão sensível?

TD – Sou da opinião que as decisões ambientais devem ser tomadas por políticos com base nos melhores conhecimentos técnico-científicos existentes. A questão política passa, pois, por avaliar os prós e contras da pastorícia tendo em conta propostas claras de regulamentação da mesma. Onde estão os modelos de regulamentação da pastorícia na Madeira? Qual a base científica dos mesmos, caso exista? Qual o valor económico da pastorícia e como se compara com o valor económico dos serviços ambientais que o coberto vegetal proporciona? Existem formas de minimização do risco de incêndios que não passam pela pastorícia?

Enquanto não houver respostas claras e fundamentadas a estas questões, deve sempre prevalecer o princípio da precaução, o que, inequivocamente sugere a redução da pastorícia, em especial de animais errantes, e a florestação das zonas altas.