José Pacheco: professores precisam de coragem e prudência

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O professor José Pacheco vem preparado para conversar com professores, pais, alunos e demais cidadãos na Escola Horácio Bento de Gouveia, no dia 26 do corrente mês, pelas 18h30. Em entrevista ao Funchal Notícias explica que pretende “mais escutar do que propor ou transmitir”. Além disso, faz questão de passar uma mensagem, a de que a Madeira “ tem tudo aquilo que é preciso para fazer uma educação de boa qualidade”. Por isso mesmo, pretende “escutar”.

Esta iniciativa é organizada pela Ilha Verde Madeira, em parceria com a Rede Educação Viva e integrada no périplo do Prof. José Pacheco pelo território nacional e ilhas, que terminará num encontro Internacional em Idanha a Nova. O pedagogo está desde Abril de 2011 a colaborar diretamente no Projeto Âncora, Brasil, que acredita numa prática educacional acolhedora e participativa que possibilite a todas as pessoas serem felizes e sábias

 Num tempo em que a escola pública é marcada por um clima de contestação e por dificuldades de diversa índole, o conhecido “pai” da pioneira Escola da Ponte (Porto), uma instituição marcada por um projeto educativo assente na autonomia dos alunos, explica o que levou a conceber essa ideia, há quase 40 anos: “Já nessa época, sentíamos (um projeto é um ato coletivo) ser necessário passar de uma cultura de solidão para uma cultura de equipe, de corresponsabilização. Essa transformação, essa reelaboração da nossa cultura pessoal e profissional custou tempo e sofrimento. Compreendemos que, sozinhos não poderíamos ensinar tudo a todos. Mas, se estivéssemos em equipe, com um projeto, e autonomizássemos o ato de aprender, poderíamos responder efetivamente às necessidades de cada jovem. Naquele tempo, não tínhamos as referências teóricas de que hoje dispomos. Não havia modelos para seguir. Fomos orientados pela intuição pedagógica, pelo bom senso e, também, pela amorosidade”.

Hoje, aquilo que surgiu como uma ideia pioneira e simultaneamente controversa no conservador território nacional, está consolidada e vai-se construindo e reconstruindo, presentemente com outros protagonistas. É pertinente saber se há continuadores desse projeto além da Escola da Ponte. “Em Portugal, são poucos os “continuadores”, mas são persistentes, resilientes. Porém, no estrangeiro, a Escola da Ponte talvez seja a referência maior. Fora de Portugal, mantenho contacto com centenas de escolas, universidades e centros de pesquisa, que se inspiraram no projeto da Ponte, para operar melhorias nos seus sistemas de ensino”.

Na entrevista ao Funchal Notícias, a abordagem ao panorama do ensino nacional na presente conjuntura é incontornável. Após um passado recente de milhares de professores na rua, em contestação face às políticas da tutela, bem como por um presente controverso com professores chamados a uma avaliação de conhecimentos, José Pacheco admite que  conhece “excelentes projetos no contexto do ensino público português”. Não é, todavia, suficiente, naturalmente sem querer generalizar: “Creio que poderíamos ter melhor ensino público, não fora a desastrosa política educativa adotada pelo Ministério da Educação”.

Curiosamente, quando todos os atores do panorama educativo nacional apontam baterias ao governo, José Pacheco sustenta que há que olhar para dentro de cada professor e fazer também “mea culpa”. “Sou, individualmente, responsável pelos atos do meu coletivo. É essa a minha cultura pessoal e profissional. Portanto, a culpa (também) é minha”.

Uma das questões que marcam a atualidade da educação prende-se com uma certa obsessão pelos exames em todos os ciclos de ensino, fruto da gestão imprimida pelo atual Ministro da Educação. Há exames finais nacionais no 4.º, 6., 9.º, 11.º e 12.º anos de escolaridade. Critica-se a examocracia que tende a ser inimiga da aprendizagem, nomeadamente dos alunos que revelam maiores dificuldades de aprendizagem. Confrontado com a questão, o nosso interlocutor opina: ”Um exame pouco, ou mesmo nada prova. É um dos mais falíveis instrumentos de avaliação. Talvez por isso, a Finlândia os tivesse abolido… Se os responsáveis ministeriais insistem em os multiplicar, isso é reflexo de ignorância. Quando se distinguir avaliação de classificação, quando houver gente competente no ministério, muitas mudanças acontecerão através da avaliação. Haja esperança”.

Diz o povo na sua inquestionável sabedoria que, se os conselhos fossem bons, eram pagos e não dados. Ainda assim, pedimos ao professor Pacheco, eventuais conselhos a deixar aos professores e alunos. A pergunta teve uma resposta pouco abonatória em relação ao ministro Nuno Crato: “Se um velho pode dar conselhos, aconselharia coragem e prudência. Coragem para substituir um obsoleto modelo de ensino por práticas coerentes. Prudência, para usar a ciência numa práxis transformadora e não usar alunos como se fossem cobaias de laboratório. E que tudo façam ao seu alcance para se mudar de ministro…”

A questão que se impõe é saber o que os políticos podem fazer para valorizar a classe docente. As expetativas não são muitas. ”Enquanto critérios de natureza administrativa estiverem submetidos a ocultos interesses político-partidários, enquanto a burocracia prevalecer em detrimento da pedagogia, os políticos pouco poderão fazer nesse sentido. Mas os políticos poderão valorizar a classe dos professores, deixando de dar opinião, ou decidir em algo que não entendem, respeitando o estatuto da profissão”.

José Pacheco é também um homem viajado. Para muitos, viajar é uma espécie de “segunda universidade”, com aprendizagens imediatas no contacto com o outro. Logo, que lição podemos tirar dos exemplos exteriores (Brasil e outros)? O nosso interlocutor pede reflexão sobre um exemplo já mencionado, a Finlândia. “Nesse país, as escolas são autónomas, os exames foram erradicados (apenas se mantém uma prova no final da escolaridade), o ministério foi desburocratizado, os salários dos professores são justos, somente os melhores alunos do secundário podem aspirar a ser professor, a formação inicial situa-se ao nível do mestrado, a formação contínua é de natureza diferente da nossa…”

As redes socias lideram os gostos dos jovens na atualidade e há quem se queixe da falta de cultura ou de profundidade dos conhecimentos por parte desta geração. “Se as novas gerações assim agem, a responsabilidade não é delas. Os jovens alunos são espelhos dos seus professores. O professor não ensina aquilo que diz. O professor transmite aquilo que é. É certo que as escolas se têm enfeitado de novas tecnologias, mas sem lograr intensificar a comunicação e a pesquisa. O modo como as escolas utilizam a Internet fomenta imbecilidade, solidão, infelicidade”.

Num país como Portugal, periférico, pobre e com um desemprego sem precedentes, uma das soluções encontradas tem sido a emigração forçada. O professor vê esta saída, sobretudo para os trabalhadores qualificados, “com tristeza”. Explicando-se melhor: “Tenho filhos e netos, que se mantêm portugueses em Portugal, assumindo a crise, não desistindo. Mas vejo muitos jovens portugueses recém-formados chegarem aos aeroportos de países da América Latina, onde oportunidades de vida digna os esperam. Lamento que, num país de brandos costumes, os políticos responsáveis por esta terrível situação estejam impunes”.

Numa realidade nacional marcada pela crise e desânimo, urge questionar: Portugal é um país “habitável”? A resposta deste pedagogo vem cheia de confiança: “Portugal é um belo país, feito por um povo maravilhoso. Tem futuro. É “habitável”. Depois de tenebrosos tempos, tempos luminosos hão-de vir”.

Na Madeira para abrir o debate, escutar e sugerir. Assim será o encontro marcado para o dia 26. O autor também de alguns títulos de pedagogia assume não conhecer especificamente a realidade educacional da Madeira. “Já não vou à Madeira há cerca de vinte anos. Não me sinto capaz de emitir uma opinião válida. Mas espero que esta viagem me ajude a ver. Acredito que, dentro de uma década, possa dar resposta”.

A palestra é aberta a pais, educadores, alunos e demais interessados e as inscrições deverão ser feitas para o link http://goo.gl/forms/6ARLVWEIXS.

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