AF!
Ontem, segunda-feira, na Cidade do Futebol, em Oeiras, realizou-se mais uma edição dos Portugal Football Globes, a gala da FPF onde se premeia tudo — menos a necessidade de ganhar jogos com consistência.
O palco estava impecável: luzes de cinema, fatos de alfaiataria, sorrisos de quem nunca perdeu um penalty decisivo e discursos de quem nunca suou a camisola. No ar, pairava aquela sensação inconfundível de “somos uma potência mundial”, mesmo que o último grande título da seleção principal tenha ficado algures entre a memória e a lenda urbana.
O grande vencedor: o cheque de cartão
O momento alto da noite foi, sem dúvida, a entrega do Globo Fundação ao primeiro-ministro Luís Montenegro, em nome da iniciativa das pulseiras de Diogo Jota.
Um enorme cheque simbólico de 200 mil euros foi exibido para as câmaras, como se fosse um troféu. Porque, convenhamos, num país onde muita gente chega ao fim do mês a contar moedas, nada inspira mais confiança do que ver um político a segurar um cheque gigante numa gala de futebol.
As pulseiras, recorde-se, custavam 1,50 euros, com parte do valor a reverter para a luta contra o cancro. Fazendo as contas de padaria, isso dá qualquer coisa como 400 mil pulseiras vendidas. Ou então estamos perante o maior mistério desde o desaparecimento das pulseiras: onde é que elas estão?
Ninguém as viu nos pulsos do povo. Ninguém as viu nos cafés, nas ruas, nas bancadas. Talvez estejam todas guardadas num cofre secreto da FPF, à espera de um futuro museu intitulado “A Solidariedade Invisível”.
Diogo Jota: de jogador a marca eterna
Diogo Jota, falecido em julho de 2025, foi homenageado de todas as formas possíveis e imaginárias. O que era para ser uma homenagem pontual transformou-se numa espécie de franquia memorial: pulseiras, campanhas, palcos, discursos, fotografias.
A pergunta que fica é: a partir de que momento a memória deixa de ser respeito e passa a ser produto? Quando é que a imagem de alguém que já não pode dizer “não” se torna demasiado útil para certas estratégias de comunicação?
Ninguém sugere que a causa não seja nobre. Mas quando a solidariedade vira espetáculo de gala com plateia de fato e gravata, convém pelo menos mostrar as contas. Transparência não é desconfiança; é o mínimo que se deve a quem deu o dinheiro e a quem emprestou o nome.
Jorge Jesus: o salvador da pátria (com globo incluído)
Entretanto, Jorge Jesus recebeu o Globo Prestígio e entrou oficialmente para o panteão dos “homens importantes do futebol português”.
A mensagem subliminar foi clara: “Mudámos o treinador, demos-lhe um prémio, tirámos fotografias. Próximo problema.”
É a velha técnica nacional: trocar a peça visível e fingir que a máquina não está toda oleoficada com os mesmos interesses de sempre. O selecionador muda, a cadeira continua a mesma, e o povo que se lixe a acreditar que desta vez é diferente.
CR7: a galinha dos ovos de ouro (e de discursos)
Cristiano Ronaldo não foi premiado, mas subiu ao palco para entregar o prémio a Montenegro. Porque, no fundo, toda a gente sabe: CR7 é a galinha dos ovos de ouro. Enquanto ele existir, há patrocinadores, audiências, capas de jornal e palcos iluminados.
A questão é que muita gente à volta dele sabe que, no dia em que a “marca CR7” fechar a loja, acaba o bufete. Daí os pedidos quase religiosos para ele não abandonar a seleção, os abraços emocionados, os discursos de “és um exemplo para as novas gerações”.
Tradução: “Não nos deixes, que nós ainda temos prestações para pagar.”
O Portugal que não cabe na gala
Enquanto isto, lá fora, o tal Portugal real continua a sua vidinha:
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A pagar combustíveis que parecem ter sido taxados por algum génio do sadismo económico;
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A fazer contas ao supermercado como se fosse um exercício de sobrevivência;
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A procurar casa e a descobrir que a renda exige um segundo salário e um rim adicional;
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A trabalhar 10 horas e ainda assim a encontrar forças para ver a seleção, porque amor à camisola não se perde mesmo quando o sistema falha.
Esse Portugal não tem passadeira vermelha. Não recebe globos. Não aparece nas fotografias oficiais. Só aparece nas estatísticas da inflação e nas contas da luz.
O desejo proibido: “quero que percam”
E é aqui que surge o pensamento mais perigoso de todos: “quero que a seleção perca”.
Não por Portugal. Não pelos miúdos que jogam à bola na rua. Não pelos emigrantes que sentem o país a milhares de quilómetros.
Mas por eles. Por esta corja de palcos, discursos e autoelogios. Que percam até o circo acabar. Até a fotografia deixar de ser mais importante que o futebol. Até os egos voltarem para casa e a seleção voltar a ser do povo.
Porque, no fim, há uma coisa que nenhuma gala maquilha:
Quando ela rola, não há fato que salve, não há discurso que esconda, não há cheque de cartão que ganhe jogos. Há apenas o que se faz dentro das quatro linhas.
E talvez seja isso que alguns, lá no fundo, já tenham esquecido.
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